Pedro Leite Pacheco em entrevista à ‘Antena 1 Açores’

PCTP/MRPP defende um hospital por ilha

 Lília Almeida (LA) – Hoje (3 de Outubro) é nosso convidado Pedro Leite Pacheco, dirigente nos Açores do PCTP-MRPP (Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses). É professor reformado e é já um ‘habitué’ nestas andanças, mas sempre com resultados eleitorais pouco expressivos. Por exemplo, em 2012 teve 0.3% dos votos, ou seja, 347 votos. Em 2016, o resultado piorou, somou apenas 302 votos
Pedro Moreira (PM) – Pedro Leite bem-vindo. É a sua mensagem que não está a passar ou são os açorianos que não se estão a identificar com os princípios do partido?
Pedro Leite Pacheco – Cumprimentos à senhora e ao senhor jornalista. Repare na dificuldade, é a dificuldade que decorre da falta de estudo sobre os Açores. Do não acompanhar…
É muito interessante a pergunta que colocam e tem complexidade de resposta. Eu vou dar um exemplo muito curioso, dos maiores matemáticos portugueses: Bento Jesus Carraça, os “Fundamentos da Matemática”, um livro notável e a evolução e a história da matemática faz-se com a negação da negação, os princípios da lógica dialética. O problema é que as pessoas ainda não são capazes de negar o que negam. Negam que nada se pode modificar. Há uma frase que é muito vulgar que é “isto assim sempre foi e assim e sempre será”. Quando se coloca o problema que, de facto, temos de mudar de paradigma, de referências. Portanto, as pessoas recusam que pode haver outra alternativa, não sei se me faço entender. 

LA – É por desinteresse das pessoas?
Não é por desinteresse. Por acaso até há muito interesse. As pessoas estão altamente interessadas em subsistir, em garantir a salvaguarda das suas condições de vida e a sobrevivência dos seus mais próximos. No caso de terem filhos, dos seus filhos. Mas a verdade é que não conseguem ver, não conseguem negar…

LA – Então é mais fácil manter as coisas como estão do que mudar?
É muito interessante. A tendência é essa. Até porque, depois, toda a forma como está organizada a sociedade, através do Estado, que é uma forma organizada de um classe exercer o seu poder sobre as demais. Evidentemente que esse exercício do poder, pela lógica dele mesmo, é para a perpetuidade dele mesmo e não para o fim desse sistema. De maneira que toda a propaganda, todo esse sistema genérico é à volta da continuidade e não da descontinuidade

PM – Pedro Leite, mas também não terá a ver com alguma descrença, por parte do eleitorado, daquilo que são propostas feitas por quem está na oposição? Dou-lhe o exemplo do PCTP-MRPP. Tem um discurso essencialmente virado para a classe trabalhadora. Ter, de um assentada, horários de 35 horas semanais, acabar com a precariedade em toda a Região e os todos os trabalhadores terem contratos individuais de trabalho e o valor mínimo a pagar ser o salários mínimo regional. É óbvio que todo nós queremos, mas a questão que lhe coloco é: Estas propostas são exequíveis para todas as empresas da Região?
Obviamente que sim. Repare, basta pensar que não podem pensar como estão pensando. É só isso, é a tal negação da negação. As pessoas têm uma resistência enorme a mudar de paradigma. (…)
 O MRPP era o único partido, antes do 25 de Abril, que lutou no seio da classe operária, no seio da população portuguesa. Foi tudo para a rua. O que é quero dizer com isto? (…) De um dia para o outro passou a ser possível fazê-lo de outra maneira.

PM – O que me está a dizer é que décadas depois, faz sentido o senhor dizer que quem ganha com o desemprego, a exclusão social, os baixos salários é uma entidade: o Governo?
Não é só porque o Governo é testa de ferro de uma classe. São os dirigentes de uma classe. O problema hoje é efectivamente o colapso em termos de liderança desta sociedade… da burguesia regional, da burguesia nacional, da burguesia internacional, que se torna completamente incapaz e de uma ineficácia total relativamente ao desenvolvimento que, entretanto, ocorre das forças produtivas. Basicamente, o que acontece é isso.

LA – Quando temos uma população com um rendimento mínimo. Quando temos uma população com salários baixos, com precariedade, não esclareceu bem  - e peço que aprofunde este assunto -, o Governo ganha com esta classe que não reivindica? Que não sai à rua?
Não é de inserção social é de desinserção social. Este rendimento é uma farsa, é uma burla. Evidentemente que é o governo que ganha em primeiro lugar, como temos afirmado. Ainda outro dia a comunicação social não fez qualquer referência ao documento que elaboramos, ainda antes de estarem marcadas as eleições. O partido desenvolve a actividade regular e essas poucas intervenções que o partido tem vindo a ter não têm, depois, repercussão na comunicação social. 
Falamos na questão do leite. Quem é que ganha com o baixo preço do leite? Evidentemente que quem ganha é também o Governo. Mas, basicamente, quem ganha é quem o Governo serve. Isto é uma feira. Nós temos os macacos de feira, temos os feirantes e temos aqueles que vão à feira. Temos de equacionar estas 3 partes. 

PM - Vamos àquelas que são as ideais chave do PCTP-MRPP para estas eleições e há uma coisa que quero que me diga. Os sectores da Educação e Saúde terão de ser totalmente gratuitos?
Com certeza. Na totalidade. Até ao mais alto nível, até à Universidade. O próprio ensino universitário tem de ser gratuito.

PM – A Região tem a área da Saúde e da Educação regionalizados, ou seja, todos os encargos saem do orçamento da região. Acha que uma região como os Açores poderá ter capacidade financeira para suportar estes encargos?
Obviamente. Nós podíamos ser uma potência do Norte do Atlântico. Nós temos o maior território da União Europeia, 900 e não sei quantos mil quilómetros quadrados da Zona Económica Exclusiva que, de acordo como os governos que têm estado a orientar a política regional e nacional, é exclusiva mas não para nós. Ainda o relatório que foi encomendado pelo Governo Regional, e que o ‘Correio dos Açores’ publicou outro dia e não sei se outro órgão de comunicação terá dado notícia, falava em 44 barcos espanhóis a fazer curso normal aqui nas águas regionais. 

LA – Não vamos fugir da saúde. Na área da saúde, no seu manifesto tem uma proposta direi, altamente ambiciosa. O PCTP defende a construção de um hospital em cada ilha em 10 anos…
Obviamente. Um hospital em cada ilha. E, evidentemente, não é um hospital em Santa Maria do tamanho do que existe em Ponta Delgada. 

LA – Mas como seriam esses hospitais e onde o Governo iria buscar dinheiro para fazer 9 hospitais diferentes?
Isso é muito interessante. A senhora jornalista experimente perguntar a um dirigente da burguesia regional, ao senhor Vasco Cordeiro, ao senhor Bolieiro ou a outro, dito dirigente de ponta, como é que se determina a quantidade de moeda circulante, o que é isso do dinheiro? Está-me a compreender? Como é que se determina o dinheiro que fica a circular…

LA – Mas na saúde, neste caso, cada ilha mais pequena teria doentes suficientes para rentabilizar um hospital?
Eu estou neste momento com 70 anos. Ainda apanhei os voos para Lisboa e creio que só fiz uma viagem porque a primeira vez que saí de cá tinha 18 anos. Tinha 17 ou 18 anos e já não me recordo. Hoje em dia é que toda a gente viaja com muita facilidade. Mas eu recordo-me de, nessa altura, de termos de ir por Santa Maria. Levantávamos ali em Santana, no aerovacas e, depois tínhamos apanhar o avião em Santa Maria. (…). O Hotel em Santa Maria era um barracão feito pelos americanos, que não albergava muita gente, para poderem passar uma noite numa cama. (…)

LA – Mas cada ilha com o seu hospital?
Obviamente que cada ilha poderia ter o seu hospital…

LA – Com blocos operatórios, por exemplo?
Eu estou-lhe falar de hospitais à medida das necessidades básicas de uma população.

PM – Mas isso não fazem os Centros de Saúde?
Os centros de saúde não têm essas valências. Por exemplo, para as senhoras que estão grávidas, tanto quanto eu saiba, o acompanhamento médico continua a ser feito nos hospitais da Região.

PM – O senhor defende que os açorianos nasçam nas suas ilhas?
Com certeza.

PM – mesmo sabendo que, por exemplo, há 20 anos que se discute esta questão da casuística e da impossibilidade de nascer em ilhas como São Jorge, nas Flores e Santa Maria, por exemplo?
Para nascer fora só em caso e gravidade. Eu nasci em casa dos meus pais. Nós temos que ver que, evidentemente, há toda uma evolução mas também não façamos aquilo a que se chama um equívoco há volta disso, não é. Muito poucos eram os casos que tinham necessidade de recorrer ao hospital

PM – Mas quando lhe falo nisso, falo também da dificuldade, pelo menos aparente, e não tenho nada que lhe diga em contrário, de fixar médicos, hoje em dia, nestas ilhas…
Isto é dramático. Isto é um equívoco. Isto é um exemplo pequenino para vermos como é a concepção dos dirigentes nacionais e regionais. O País está ao serviço do exterior, está ao serviço, aliás de quem investe neste País. Nós temos a despesa de formação dos médicos. (…) E para onde vão os médicos e os enfermeiros nacionais? Vão para fora. Quantos médicos e enfermeiros temos em Inglaterra. Quantos outros estão noutros países? Isto mesmo para quem gosta de fazer contas, é uma verdadeira calamidade. Nós temos a despesa toda da formação e, depois, sem ter tido necessidade de despender tanto, podem, por exemplo, pagar salários muito melhores. Nós podemos pagar aos médicos portugueses para estarem no seu próprio País. 

Falou em formação e aproveito a deixa, para falar do ensino superior e da Universidade dos Açores, tem também a proposta de mudança de sede da Universidade dos Açores para a ilha Terceira e instalar em cada uma das outras 8 ilhas um pólo universitário. Pergunto-lhe o que é que se ganha com isso?
Isso foi uma proposta muito curiosa do camarada Arnaldo Matos, que morreu há um ano e tal e que achei interessante. Temos que ver que cada ilha deverá e poderá ter um pólo. É tão simples quanto isso…

LA – Mas a qualidade do ensino…
E de novo em função das características e peculiaridade de cada uma…

LA – E que garantias haveria de que, no fim da formação, esses alunos teriam a mesma qualidade de ensino do que um aluno em São Miguel ou um aluno na Graciosa?
Há bocadinho a senhora jornalista falava no Facebook, por exemplo. Nós hoje temos realmente um universo no campo da formação e da informação totalmente diferente daquele que tínhamos há algum tempo atrás. Cá está de novo a negação da negação. A tendência é para negar a possibilidade e negar a impossibilidade é o chamado salto que permite a resolução do problema. Hoje o que temos é um excesso de oferta intelectual, cultural, científica e, portanto, estamos a assistir a licenciados desempregados. Este é que é o drama. Isto é todo o modo de conceber a economia e de ver o trabalho e a forma de organização da produção do agora (…).

LA – Pedro Leite, a SATA é um tema que está na ordem do dia e ainda agora soubemos que o grupo teve um resultado negativo de 42 milhões de euros no primeiro semestre deste ano. Acredito que a justificação apresentada pela administração será covid-19. Que caminho vê para a transportadora aérea regional e digo mesmo, para os transportes aéreos na Região?
Os sulistas, nos Estados Unidos, recusavam liminarmente aquilo que era a posição dos do norte. O norte dos Estados Unidos quando foi da formação dessa nova nação, defendia a abolição da escravatura e os do sul consideravam, fazendo contas, que era impossível e que a abolição da escravatura era um desastre económico, pela maneira como se faziam as contas. Uma boa parte desses ditos prejuízos tem a ver com aquilo que acabou de falar. E outra parte deve-se, quase seguramente, a uma gestão danosa. Eu não domino, em pormenor, o assunto, mas aquilo que vou lendo, ouvindo na rádio e na televisão que são apesar de tudo indiciadores que tem alguma fiabilidade, há opções verdadeiramente catastróficas. Nas rotas, por exemplo, na forma como se presta o serviço, etc. Não vou dar pormenores porque há alguns que são verdadeiros roubos por parte de entidades com responsabilidade. Roubos pessoais e eu não quero entrar nisso. Esse dito prejuízo tem de ser muito bem visto e não é assim de ânimo leve. 

LA - Qual é o seu entendimento em relação a este pedido feito a Bruxelas, de mais de 133 milhões de euros de apoio estatal para a companhia?
Isto é de novo mais um erro. Um erro de raciocínio e mais um erro de acção. (…)

PM – Vamos rapidamente a duas ideias que estão no vosso manifesto. Uma delas tem a ver com a criação, e estou a citar, de uma Guarda Autonómica, um efectivo à volta de 250 pessoas. Pergunto-lhe se esta é uma espécie de Polícia Municipal e, ao mesmo tempo, como se faz a interligação com forças de segurança como a GNR e a PSP?
Achei muito curioso quando o camarada Arnaldo Matos colocou este problema no âmbito das eleições de 2016. Até porque ele coloca a interrogação. É uma interrogação. De novo a negação da negação. O senhor jornalista está a pensar em termos da actual forma como se organizam as actuais forças de segurança. Para já, o partido é contra a presença da Guarda Nacional Republicana nos Açores e sempre o foi. Nós consideramos isso verdadeiramente abusatório. Vai contra a própria Autonomia porque quem efectivamente dirige, controla e dá ordens à GNR não é a Região. Aquilo é como o Representante da República e a PSP. São órgãos que existem e que escapam completamente aquilo que é o controlo e a própria salvaguarda da região. (…)

LA - Mas não explicou como funcionaria essa guarda…
Há uma questão que está tomada como sendo uma questão de princípio. É sem armas de fogo. Não tem armas de fogo. 

LA – Mas há crime nos Açores…
Há crime porque estamos numa crise tremenda. O roubo pulula. O roubo e a agressão. Eu vou garantir à senhora jornalista que se eu a prender aqui nesta sala, se fechar as portas e eu garanto que, a partir de certa altura, vai partir o vidro, rebenta a porta e só não parte se tiver pessoas aqui armadas para a impedir de fazer isso. Prefere morrer do que morrer aqui fechada.

PM – Há uma outra proposta que também está no vosso manifesto que tem a ver com a criação de tribunais de primeira instância e um tribunal da relação. Como é que se agiliza isto numa região autónoma que depende do Estado Português?
Uma das questões que vem no documento de 2016 que foi muito bem escrito e muito bem ponderado pelo camarada Arnaldo Matos é à volta do Estatuto da Autonomia. Do resgatar daquilo que são as expectativas que os açorianos têm tido ao longo de centenas de anos dessa sua liberdade para terminar-se o percurso que internamente é feito…

PM – Ou seja teria de se fazer forçosamente uma revisão da Constituição para algumas das propostas que cá estão?
Todos estes documentos são documentos de circunstância, de época. Estas coisas são todas questões que têm de ser, eventualmente, equacionadas no tempo em que foram constituídas. Aliás, o partido sempre esteve contra o estatuto autonómico da região autónoma dos Açores.

LA – É preciso resgatar o nosso mar?
Obviamente. O mar e outras coisas. E mais, garanto-vos que nós temos uma ignorância profunda à volta de tudo isto e pergunto quanto é que recebe o Estado, o governo da república, pelo controle do espaço aéreo regional? Quanto é que recebem em contrapartidas o governo Regional e o da República pelos 44 barcos que, depreendo tenha sido no ano passado,  andaram a laborar aqui na Região? 

LA – Mas estamos na União Europeia…
Ó minha senhora, a União Europeia… o PCTP-MRPP em 1986 quando foi assinado o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia, como assim se chamava na época, tinha no seu jornal, “O Luta Popular” e em letras gordas, “não é Portugal que entra na CEE é a CEE que entra em Portugal”. Fomos corridos como estúpidos. Pergunto hoje quem é que tem dúvidas que é isso que está a acontecer. O País está saque e mesmo aqui nos Açores, a própria terra que antes era só o mar, a própria terra está à venda de uma ponta à outra. Passe no Alentejo e aquilo é tudo espanhol e de outras nacionalidades. Isto é público.

PM – Para terminar, a última pergunta que lhe faço tem a ver com a COVID-19 que levou ao confinamento, na Região, de milhares de pessoas. Pergunto-lhe, de uma forma muito clara, se existem algumas medidas que teria feito de forma diferente do que fez o Governo Regional dos Açores?
Uma das medidas que nunca tomaria era o Estado de Emergência. Nunca faria cercas sanitárias. O estado de emergência também nunca o decretaria porque temos de ver que isto não é uma mera questão de saúde. Nem muito menos de saúde pública, nem de saúde pessoal. É pena não poder ultrapassar os 25 minutos senão eu desenvolvia porque isto é grave e não é tão simples como querem apresentar.          

                               ***
Excertos da entrevista concedida por Pedro Leite Pacheco, líder o PCTP/MRPP à Antena 1 Açores. Texto do entrevistado trabalhado pela redacção do ‘Correio dos Açores’.
 Os títulos e destaques são da responsabilidade do jornal.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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