Investir na horto-fruticultura é exemplo de um dos passos a seguir

Piedade Lalanda defende que os Açores devem aproveitar a crise de Covid-19 para caminhar para a auto-suficiência alimentar

Os juros de um nó por desatar
Reconhecendo que estamos a viver um tempo diferente, que irá certamente ficar na História Universal, a exemplo da peste de há 400 anos ou, por exemplo, mais recentemente, no século passado, quando a tuberculose matou muitos milhares de pessoas antes de serem descobertos o tratamento e a vacina, adiantou Piedade Lalanda Gonçalves, ressalvando que a palavra crise – que tantas vezes utilizamos – é a forma de dizermos aos outros “que estamos num impasse a meio da confusão, aparentemente sem ver um ponto de fuga, uma solução rápida e eficaz”.
Comparou as crises como verdadeiros “nós” na meada da vida, que tentamos desatar sem o conseguir e que nos levam a encruzilhadas que nos obrigam a fazer, a tomar atitudes mais radicais, a cortar pela raiz e começar de novo, gerando ansiedade e angústia, que “são os juros pagos antecipadamente pelos problemas”, frisando que a pandemia do novo coronavírus “tem provocado a angústia do desconhecido e a ansiedade perante um futuro que não se vislumbra risonho. Levou a deixar atrás o posto de trabalho, as rotinas diárias, os convívios, alguns até a mudarem-se das cidades para os campos!”

Pontos negros do confinamento
“Fique em casa! -  “Impelidos por esta frase que tanto se ouviu, fechámo-nos em casa, ficámos com medo de sair, de ir às compras, de nos aproximarmos de desconhecidos”, afectando a dimensão humana que nos distingue e nos identifica – as relações.
Frisou que a crise trouxe o que julgávamos ser um tratamento eficaz – o confinamento –fechando-nos em casa, onde tudo passou a acontecer. O problema maior, segundo Lalanda Gonçalves, é que nem todas as casas permitem, na crise, a coexistência de todas as actividades quotidianas de tempos normais por todos os membros do agregado familiar, sem que isso provoque conflitos, invasões da privacidade, choques e tensões: - “Só havia um televisor, só havia um computador, só havia uma sala para corresponder às funções que o “ficar em casa impunha”. O lar desde há muito havia transferido as suas funções económicas e educativas para outros espaços/instituições, a empresa, a escola, o espaço público…
“Fique em casa, vai ficar tudo bem”! Mas a casa, o lar, não é, para todos, um lugar onde tudo corre bem”.  Mas, frisou a oradora, “esqueceram-se de que, em muitas famílias, ficar em casa não é seguro, não é fácil, e o confinamento veio potenciar as relações afectivas, nuns casos aproximando, nuns casos levando à redescoberta do outro e, ainda noutros, agravando as tensões já existentes” pelo que o confinamento trouxe uma nova forma de pensar o espaço da casa. A tipologia da casa familiar nem sempre permite ou contribui para a preservação da privacidade, para o desempenho de actividades pessoais ou profissionais, para o exercício do estudo, pelo que, referiu, as novas casas não podem ser “bunkers”, a zona social tem de ser relativizada e os seus espaços têm de ser redimensionados para responder a situações como a que se vive agora, minimizando os efeitos da experiência comunitária perdida.

Bombardeamentos – parece que 
só se morre da Covid…
Uma outra questão abordado foi o impacto da pandemia nas nossas relações interpessoais, frisando a oradora que, desde a primeira hora, começámos a ser bombardeados diariamente com os números dos infectados, dos mortos e dos recuperados, mas continuam sem nos dizer quantos morrem de AVC, de enfartes, de complicações diabéticas, de alcoolismo, de doenças crónicas, de cancro… “Aparentemente só se morre do Covid”! Especificou a propósito que, apesar de morrermos sobretudo devido a doenças crónicas, este factor não conduz à adopção de medidas tão robustas para combater as causas associadas a estas doenças que mais matam nos Açores como às implementadas para o combate à Covid.
Esperançada em que ainda haja quem pare para pensar, Lalanda Gonçalves frisou que a pandemia interferiu no balanço que se faz sobre o essencial da vida, realçando as relações afectivas, acordando para a vivência nos lares de idosos, ficando mais alerta para a forma como as crianças brincam, convivem e se relacionam na escola, para a importância das manifestações sociais entre os humanos, advertindo que “o impacto nas relações humanas poderá, de longe, ser o que vai deixar mais marcas estruturantes e, porventura, de difícil mudança, porque reforçam a desconfiança, aumentam o medo do outro e agravam o isolamento”.

Economia - o lado mais negro da crise
Contudo, acrescentou a conferencista, de momento “a crise tem um rosto mais negro e mais difícil de contrariar quando olhamos a realidade económica – pôs em causa a sobrevivência de muitas empresas de serviços, o futuro do turismo de muitas Regiões como a nossa, e afectou, de forma evidente, todas as actividades que implicavam grandes reuniões, desde casamentos a baptizados, congressos, espectáculos, eventos desportivos ou até mesmo a atracagem de cruzeiros”, alertando para o facto de esta redução da “dinâmica cultural, social, científica e económica” poder prejudicar gravemente muitas empresas e instituições e, indirectamente, destruir muito emprego, já de si precário, eventual, temporário.
Fazer este retrato, confidenciou Piedade Lalanda Gonçalves, “gera desalento mas, ao mesmo tempo, provoca a necessidade de nos reinventarmos. Afinal, o ser humano insiste na procura de respostas para as suas necessidades e tem tendência a instalar-se quando parece ter encontrado o caminho ‘certo’. Mas não há caminhos certos… não há rumos unidireccionais”!

Os Açores e a “bazuka” da UE – 
que não se percam munições…
Salientou que uma das grandes esperanças do momento se prende com a capacidade de ajuda da União Europeia que, “se não for bem direccionada, pode representar um desperdício de munições”, pelo que disse ser fundamental recuperar o sentido da cooperação, apostar na vacina que possa travar o vírus, não mitigar o apoio às economias mais frágeis, aos países mais pobres, pois não é só com a “bazuka” europeia que os problemas ficam resolvidos.
Advertiu que as sociedades terão de se organizar de uma nova forma, e, virando-se para os Açores em concreto, considerou haver que continuar a pensar positivo, a apostar nas nossas energias e necessidades e naquilo que é mais urgente e estruturante. 
Denunciou que levamos uma eternidade a viver centrados na nossa comunidade, ignorando ou esquecendo a diversidade que forma a nossa Região. 
Defendeu a aposta em novos sectores económicos, em potencialidades ainda por explorar, nomeadamente no sector hortofrutícola, no sentido de caminharmos para a autos-suficiência e, sobretudo, investirmos na nossa saúde alimentar, se necessário mudando hábitos alimentares e introduzindo mais “verde” na nossa alimentação saudável.

O futuro está nas nossas mãos
A terminar disse que está nas nossas mãos o fazer diferente ou, então, ficarmos quietos, à espera que o passado regresse. 
Apontou como caminho a seguir os exemplos do passado, de quando houve guerras e pandemias, em que os açorianos arregaçaram as mangas e apostaram em novas áreas da produção, investiram no conhecimento, melhoraram a qualidade de vida das pessoas e acreditaram que, mesmo sendo uma Região pequena, com poucos habitantes, com uma economia frágil, os Açores são um lugar único no mundo, um lugar que muitos invejam e que, nós, temos o privilégio de ter por casa nossa.
E, num final firme, a investigadora socióloga Piedade Lalanda Gonçalves exortou: “Se quisermos, vai ficar tudo bem! Nós vamos conseguir fazer história, uma história de superação e de resiliência que dê para contar aos vindouros”!
              

José Nunes (com texto de apoio)
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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