17 de outubro de 2020

Cesto da Gávea

Insularidade e pandemia

Em 20 de Setembro de 1836, já lá vão mais de 184 anos, o brigue britânico “Beagle” aportou na Ilha açoriana da Terceira, trazendo a bordo Charles Darwin, o celebrado autor da “Origem das Espécies”. Darwin teve uma perceção fugaz dos Açores, limitada a pouco mais que uma visita ao ícone terceirense do Algar do Carvão, o que tem sido objeto de alguma controvérsia quanto ao que escreveu nessa altura no seu diário. Todavia, há que reconhecer a época em que se estava, associada ao deslumbramento resultante do que tinha observado no Pacífico, nomeadamente nas Galápagos e nas ilhas havaianas. De qualquer modo, os estudos sobre biodiversidade e ecologia insular mais modernos das nossas ilhas, decorrentes da existência da Universidade dos Açores (que contará 45 anos em 9 de janeiropróximo) são a prova mais evidente da sua importância como verdadeiro laboratório natural. Disso nos apercebemos na fundação do então Instituto Universitário dos Açores, aquando da instalação da primeira unidade de investigação científica universitária, o Laboratório de Ecologia Aplicada. 
Um dos objetivos traçados foi como preservar o equilíbrio ecológico das ilhas no aspeto humano, animal, vegetal ou geológico, em habitats naturais, terrestes ou marinhos, sem esquecer a componente atmosférica. Nesta última, teve relevo a expedição alemã Jacex-80, numa colaboração do Instituto Max Planck de Mainz com as equipas do Departamento de Biologia. Em 1980, um avião Dornier transformado em laboratório aéreo, colheu amostras para se saber o grau de radioatividade oriunda do desastre de Tchernobyl, além de outros dados sobre poluição atmosférica trazida pela circulação do anticiclone. Pela via política, enquanto deputado regional e investigador universitário, levantei na Assembleia Regional (II Legislatura) o gravíssimo problema do afundamento de lixos radioativos pelos ingleses, bem nas margens da nossa ZEE oceânica. Nunca mais se ouviu falar disso, mas os bidões com os resíduos continuam lá no fundo. Agora que tanto se refere o alargamento da “plataforma continental” e das riquezas minerais e energéticas que contém, talvez alguém desperte da letargia e averigue o estado em que se encontram aqueles afundamentos perigosos. Embora, com os correntes politicamente corretos, seja mais cómodo não agitar as águas.
O que infelizmente veio agitar as águas pela pior via, foi a pandemia em curso por esse mundo fora, para enfrentar a qual temos a sorte de viver em ecossistemas insulares isolados, afastados e oceânicos. Em suma, aquilo que a terminologia europeia designa por ultraperiferias e está plasmado nos POSEI, os programas específicos para o afastamento e a insularidade. São ajudas que causam engulhos a outras áreas geográficas que gostariam de ir mais ao “pote” dos fundos comunitários, sendo a nossa sorte o facto de Espanha e França também terem ilhas ultraperiféricas. Aliás, a insularidade tem a vantagem de nos permitir impedir uma colonização negativa das ilhas por espécies invasoras, sejam plantas, animais, pragas ou doenças. A Covid-19 é o mais recente e ameaçador caso, que podia ter sido mais contido se a Assembleia Legislativa Regional tivesse sido chamada a intervir logo de início, impedindo tricas entre poderes governamentais nacionais e regionais. Mesmo assim, apesar das dificuldades, o Governo dos Açores conseguiu superar o choque inicial, havendo condições para aguentar o embate invernal, desde que a cidadania impere, cumprindo normas mais severas de proteção individual e coletiva. Para tal, as pessoas têm de ter a necessária segurança em primeiro lugar. James Carville, o estratega de Clinton de 1992, disse “it’s the economy, stupid”; é altura de parafrasear, dizendo “it’s the people, stupid”. Sem elas, nem sequer haverá economia e haverá caos social, o que só seres realmente estúpidos não entendem. A economia tem o seu lugar, mas sempre ao serviço das pessoas -- e qualquer verdadeiro social-democrata entende esta mensagem.
O Prof. Sanjaya Senanayake, epidemiologista da Universidade Nacional da Austrália, defendeu o isolamento nas ilhas remotas do Pacífico como uma arma eficaz para evitar a contaminação das populações pelo novo coronavírus. Dos 15 países que reportam ausência de casos Covid-19, uns 12 são Estados insulares, apesar da maioria ter fluxos turísticos importantes. Um exemplo a seguir será a Nova Zelândia, uma nação insular que esta sexta-feira, 16 de outubro de 2020, registou 4 novos casos de SARS-Cov-2 e mantem apenas 46 casos ativos, tudo devido a uma criteriosa gestão da insularidade pelo governo de Jacinda Ardern. Cá pelos Açores não nos temos portado mal, mas é preciso não baixar a guarda, evitando desperdiçar a oportunidade dourada de podermos ser um destino seguro para quem nos visita e, eventualmente, entenda que vale a pena viver em ilhas onde o isolamento e a qualidade ambiental proporcionam a paz, a tranquilidade e a segurança que se tornam preciosos de  encontrar num mundo desnorteado pela pandemia.
 

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Categorias: Opinião

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