20 de outubro de 2020

Votos em tempo de pandemia

Estamos na reta final da campanha eleitoral e já próximo domingo à noite conheceremos os resultados finais, tudo se encaminhando para que o xadrez político não sofra uma grande reviravolta. Constato que com esta pandemia, as ruidosas arruadas não foram a nota dominante como dantes e tudo tem sido muito calmo, por estas bandas. Como tal, o contato direto com a população fez-se com “mascarados” mesmo fora do tempo do carnaval, pelo que, quanto a mim, surtiu pouco efeito o pretenso esclarecimento das propostas dos Partidos concorrentes a estas eleições.
Nesta crónica pretendo abordar outro tema e diz respeito a um acontecimento ocorrido em Assis, sobre o túmulo de São Francisco, em que o Papa Francisco simbolicamente assinou a sua nova encíclica “Fratelli Tutti” sobre a fraternidade social, com temas importantes, como a relação entre os povos, o acolhimento e até mesmo o que chama de a boa política.
Se a Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum, é considerado por muitos como o texto mais inovador do seu pontificado, na proposta no âmbito da ecologia integral, esta nova encíclica Fratelli Tutti, é vista segundo os vaticanistas mais entendidos como uma síntese do pensamento deste Papa acerca da fraternidade e da amizade social.
Para alguns dos seus críticos esta abordagem é vista como um pensamento político e social esquerdizante, no qual cabe uma análise sobre a situação no mundo, no que diz respeito a problemas a que ele tem dedicado muitas das suas intervenções, como sejam os emigrantes, os refugiados, o racismo, a pena de morte e a ecologia, entre tantos outras matérias, eu considero que ele o faz de forma assombrosa e destemida, levantando sem medo a sua sábia e inspirada voz.
Nesta encíclica, que não pode ser vista, redutoramente, como apenas uma visão religiosa, o Santo Padre propõe que a fraternidade e a amizade social sejam lidas com chaves como o respeito pelos direitos humanos, a busca incessante da paz, a proposta da amabilidade, a valorização da função social da propriedade ou o perdão.
Este Papa, sucessor do Irmão Francisco faz sugestões concretas como a da eliminação da pena de morte no mundo, a constituição de um fundo contra a fome financiado pelas despesas militares, do fim das armas nucleares e da prisão perpétua, a reforma do sistema económico e financeiro internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações.
De forma inteligente, o bom Papa Francisco inspirou-se na conhecida parábola do bom samaritano, contada por Jesus no evangelho de São Lucas: uma história em que um homem vítima de assaltantes é ajudado por um samaritano, que precisamente naquele tempo era uma raça banida pelos judeus, depois de dois religiosos do tempo terem passado ao largo, sem o ajudar.
O Santo Padre refere-se a esta parábola como “um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo”, pois “diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano.
Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do ferido na estrada.”
As reações a esta nova encíclica foram muitas no mundo inteiro, pois os temas da fraternidade universal, foram acolhidas com satisfação também no mundo islâmico, ao ponto de Abdellah Redouane, diretor do Centro Cultural Islâmico da Grande Mesquita de Roma, definir esta encíclica do Papa Francisco como um dos “tijolos para a construção de uma sólida relação de amizade”.
O nosso Papa Francisco continua a surpreender com as suas posições sobre temas vitais para a fraternidade universal e estou convicto que ele continuará a ser considerado como uma das vozes mais escutadas do Planeta, mesmo à frente dos dirigentes das grandes nações da Terra, como sejam dos Estados Unidos, Rússia ou China.
Mesmo sem armamento militar este defensor da paz, mostra ao Mundo, como se constrói se espalha a fraternidade entre os povos. Entretanto, espero que no próximo domingo, cada um possa materializar a sua vontade indo às urnas, com todas as cautelas sanitárias e sem receios, mesmo vivendo em tempo de pandemia.

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Categorias: Opinião

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