Produtores e vendedores de flores estão aliviados por cemitérios manterem normal funcionamento no Dia de Todos os Santos

Assim que começaram a surgir a primeiras notícias a nível nacional que dão conta do encerramento de vários cemitérios no fim-de-semana que antecede o Dia de Todos os Santos, celebrado no próximo Domingo, começava também a surgir o pânico entre os produtores e os vendedores de flores que temiam que o mesmo pudesse acontecer nos Açores.
No entanto, pelo menos na ilha de São Miguel, as autarquias – a quem cabe tomar este tipo de decisão com base nas recomendações feitas pelas autoridades de saúde –, decidiram manter os cemitérios abertos durante os últimos dias de Outubro e o primeiro dia de Novembro, o que trouxe uma grande sensação de alívio a este sector que se prepara agora para um dos dias mais lucrativos do ano inteiro.
Conforme explica Pedro Soares, produtor de vários tipos de flores há cerca de 17 anos, tendo estufas no Livramento e uma loja em São Roque, “o Dia de Todos os Santos é, para mim enquanto produtor, um dos dias mais importantes em termos de vendas no ano inteiro”.
Isto porque, na realidade, esta é uma ocasião que exige um ano inteiro de planeamento e preparação, por ser necessário pensar com calma “nos ajustes que são necessários” e no preparar das terras para, cerca de cinco meses antes, receberem as sementes das flores que devem estar prontas a colher antes do início de Novembro para distribuir pelos vários vendedores.
“A produção é focada naqueles três dias, os dois anteriores e o próprio dia, e temos um pique de vendas que não temos no ano inteiro, tendo em conta que há também muito investimento feito nessa data.
Em termos de antecedência, terminando um Dia de Todos os Santos começamos logo a pensar no seguinte para fazermos os ajustes que são necessários, porque há coisas que nem sempre correm bem, outras que correm melhor e outras que não correm sequer, então começo a pensar nisto com um ano de antecedência”, explica o produtor que durante o período da pandemia acabou por ter que se desfazer de praticamente todas as plantações de Margaridas que tinha até àquele momento.
Tirando do caminho a problemática dos cemitérios fechados como estratégia para evitar aglomerados de pessoas e, por sua vez, conter a propagação do vírus, Pedro Soares prepara-se assim para, nos próximos dias, recuperar algum do investimento perdido, mesmo que isso signifique ter “dez vezes mais” trabalho do que no restante do ano, uma vez que a manutenção da flor é exigente.
De uma forma geral, ter um bom rendimento nesta época do ano “equivale a ter dois ou três meses bons”, uma vez que há “uma parte de transformação do produto em ramos, fazendo com que o produto seja valorizado e que não seja vendido pelo mesmo preço, o que aumenta um pouco os lucros dos produtores e dos floristas”, diz Pedro Soares.
Recentemente, conta, as encomendas de flores, especialmente de margaridas, encontravam-se a correr muito bem, adianta este produtor, uma vez que há também muitos clientes que se dedicam à venda de flores ou de ramos de flores apenas nesta altura do ano, depois de alcançarem uma licença municipal.
No entanto, salienta que houve um decréscimo na procura “de um momento para o outro”, porque “houve quem ficasse com receio por não saberem se vão vender as flores ou não, se os cemitérios vão abrir ou fechar”, sendo por isso importante tomar agora conhecimento da intenção das autarquias, que têm responsabilidade sobre alguns dos cemitérios mais visitados.
Por outro lado, se as autarquias optassem por encerrar as portas dos cemitérios no primeiro fim-de-semana de Novembro, para os produtores de flores isto seria, “no mínimo uma catástrofe”, significando que “todo o investimento feito iria abaixo sem sequer uma hipótese ou uma alternativa por ser muito focado neste dia”, confessando ao nosso jornal que já começava a sentir um pouco de pânico com esta possibilidade.
A sensação foi semelhante àquela que sentiu durante os meses do confinamento, conforme referido anteriormente, tendo em conta que Pedro Soares se viu “obrigado” a se desfazer de praticamente toda a sua produção, deixando apenas o suficiente para vender através dos supermercados e através da sua loja para ocasiões como funerais, tendo em conta que todas as outras festas foram canceladas ou adiadas.
“Destruir o plantio fez-me um bocado de confusão. Sou uma pessoa que procura ter alguma claridade de raciocínio, mas aquilo desestabilizou-me um bocado porque não sabia o que se ia passar ou se iria fechar uma semana, um mês, dois meses ou três meses e tinha as rendas bloqueadas, os ordenados para processar e as mesmas despesas”, relembra, adiantando ainda que, mesmo que para um fim completamente oposto ao desejado, continuava a necessitar dos seus trabalhadores para destruir as flores.
Porém, realça que após partilhar o seu testemunho com este jornal acabou por ser apoiado pelo Governo Regional, o que lhe trouxe também alguma sensação de alívio, mesmo sendo a primeira vez em que tal aconteceu.
Quanto ao Natal, época que se vai aproximando, Pedro Soares refere que “não se compara ao que chega o Dia de Todos os Santos”, uma vez que apenas costuma ter o dobro da plantação que tem no ano inteiro.
Recentemente investiu em plantas de Natal, que com as suas flores avermelhadas adornam cada vez mais as casas dos micaelenses, mas revela que “não entrou em euforias” por acreditar que este será um Natal difícil e que, com as restrições que podem existir, “as famílias não se visitem tanto este ano”.

Vendedores ansiosos pelo Dia 
de Todos os Santos

Alívio por este Dia de Todos os Santos foi também o que sentiu Juvenal Martins, vendedor de flores na loja A Moda da Mena, na Calheta, tendo em conta os “enormes prejuízos” feitos pelos meses da pandemia na facturação do negócio que é, agora, de Vera Silva.
Apesar de esta ser uma tradição com muito peso também no arquipélago, o florista incentiva as pessoas a visitarem os cemitérios, relembrando que há sempre a opção de o fazerem em outros dias que não o primeiro dia de Novembro, caso haja essa possibilidade e caso prefiram evitar aglomerados de pessoas, tal como sugerem as recomendações em vigor.
Neste sentido, salienta também que é “de extrema importância” e um sinal da “colaboração das autarquias” o facto de os cemitérios permanecerem abertos, mas apela a que as pessoas estejam “sensibilizadas para o distanciamento social”.
Tal como acontece com Pedro Soares, também Juvenal Martins adianta que este é um dos três dias do ano em que os lucros são maiores: “Vendo mais do que noutras alturas, é uma época muito boa para o nosso negócio. Apesar de não aumentarmos muito o preço, vendemos muito e tal como no dia dos namorados ou no dia da mãe, este é um dos três dias do ano em que podemos facturar um bocadinho mais e temos que aproveitar esses dias de tão fundamentais que são”.
Assim, se os cemitérios fechassem, a Moda da Mena iria perder 1/10 da sua facturação actual, o que seria “uma perca muito significativa”, adianta. Porém, alegra-se por notar que as pessoas não aparentam ter receios em ir ao cemitério no primeiro dia de Novembro, tendo em conta que têm surgido vários pedidos de encomendas, salientando ainda que a loja se encontrará a trabalhar todo o fim-de-semana.
 

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