Atlântico Expresso

Ultramar na Pele (Leituras)

Uma centena de páginas. Edição do Instituto Açoriano de Cultura. Um feliz título para o trabalho de Diana Gomes e Rui Caria. “Ultramar na pele”. 
Para quem, como eu e como tantos da minha geração, teve de interromper dois anos de vida e juventude para ir, obrigado, cumprir o seu dever pela Pátria, mesmo com política que poderia estar errada, mas era assim ditada, este livro é um exemplo de criativadade, originalidade e sentimento histórico, ligado ao gosto pela arte e pela profissão. E antes de mais, interessa saber quem é Diana Gomes, a autora, que nasceu em Crescent City, Califórnia (E.U.A.) em 1983. Aos cinco anos veio com os pais para a ilha Terceira, onde fez estudos. Aos 18 tornou-se body piercer, tendo feito formação na área, em Madrid (2005). Mais tarde, passa também a dedicar-se à tatuagem. Participou em convenções de tatuagens nacionais e visitou também várias convenções internacionais, em cidades como Toronto e Londres. A paixão pela tatuagem faz com que se delicie a viajar, visitar museus e monumentos. Em 2004, abriu na Praia da Vitória, com o marido, o estúdio “Poison Tattoo & Body Piercing”, dedicado a tatuagens e piercings.
Com duas dúzias de testemunhos de antigos combatentes que já bem no outono da vida quiseram deixar para a posteridade, no livro, as tatuagens que trouxeram da guerra colonial, a obra conhece a sua outra dimensão na imagem, com as fotografias de Rui Caria, nas cido na Nazaré em 1972, estava a guerra a dois anos do seu términus, fruto da revolução de Abril de 74.  O seu percurso profissional na área da imagem começou em 1990, realizando pequenos filmes comerciais. Em 1993, tornou-se correspondente da TVI, onde permaneceu como repórter e editor de imagem até 2003. Em 2005, mudou-se para a Ilha Terceira. Repórter e editor de imagem, correspondente nos Açores para a SIC, desde 2006, colabora como fotojornalista com alguns jornais nacionais e internacionais. O seu trabalho fotográfico é internacionalmente reconhecido pelos editores de importantes sítios de fotografia, como a “National Geographic”, 500px, 1x, Leica Fotografie International e Getty Images. Vencedor e finalista de diversos concursos internacionais, tem fotos publicadas em diversos livros internacionais de fotografia, bem como na imprensa nacional e internacional. Em 2016, foi câmara de prata da Federação Europeia de Fotógrafos na categoria de fotojornalismo na competição de fotógrafo europeu do ano de 2016. Em 2019 venceu o primeiro prémio do Sony World Photography Awards, National.
Uma profissional da área das tatuagens e um fotógrafo de tais méritos constituem a combinação perfeita para a qualidade deste livro que, para mim, ainda se torna mais-que-perfeito pela sinceridade quase dramática de muitos testemunhos. De facto “Ultramar na pele” é apenas a tradução de “guerra na alma”, que a paz nunca consegue abafar.
Milhares de jovens quiseram, quase sempre no ímpeto da saudade e dos amores ausentes, perpetuar momentos de vida em locais tão diferentes, em épocas tão difíceis. Corações, frases e nomes, datas, nomes de guerra das companhias e dos batalhões, palhotas e tabancas, tudo era motivo para tatuagem. Diana Gomes, sem ser escritora, sem ser jornalista, consegue uma linguagem bonita e mostra uma capacidade de reter e traduzir sentimentos com precisão e distanciamento que dá gosto ler. E isto somado à vida transmitida pelas imagens que só um grande fotógrafo consegue, fazem destas quase cem páginas um pequeno tesouro.
Há muitas formas de reviver o passado, mesmo os momentos duros de ausência. Muitos antigos combatentes desfizeram-se de tudo, não aceitam, nem querem recordações. Outros ainda têm na sua casa, nos seus escritóriis e nos seus “cantinhos dos afectos” as recordações que compraram, as missangas, colares, brincos e pulseiras da mais bela arte local, as colchas e tapetes que tantas camas, chãos e paredes cobriram, por esse Portugal fora e por esses Açores dentro.
E muitos outros ainda – e vão sendo cada vez menos, porque vão passando para a outra dimensão da vida – quiseram que a recordação ficasse impressa nos braços, no peito, nas costas ou nas pernas.
É desses que reza este “Ultramar na pele”, mas neles está muito mais do que isto. E por isso mesmo é comovente a dedicatória que Diana Gomes faz “a todos os combatentes que lutaram na Guerra do Ultramar e às suas famílias, sem esquecer todas as mães que tanto sofreram com a ida dos seus filhos para a guerra. As tatuagens “Amor de Mãe” serão sempre um verdadeiro ícone destes tempos”.
E, no seu Prefácio, o fotojornalista Rui Caria, co-autor do livro, acrescenta avisadamente que ele (livro) “fica para lá de nós; para lá de todos os que viveram a guerra do Ultramar e dos que nunca viveram guerra nenhuma. E é para estes, sobretudo, que este diário antológico deve permanecer, como uma tatuagem gravada no tempo, para que nunca caiamos no erro de pensarmos que o que se passou não se volta a repetir”.
Mais uma vez o Instituto Açoriano de Cultura presta um bom serviço, acolhendo a publicação desta obra, onde arte e criativadade estão de mãos dadas e o respeito pela história, aqui recordada em retalhos de vida dos seus corajosos protagonistas, ganha foros de humanismo e realismo que muitos tentam reescrever, mas que não se apaga da alma e do corpo de quem tudo isto viveu.
Este é um livro que me tocou e, mais do que leitor e jornalista, como também sou do número daqueles que tiveram de ir para o Ultramar, a tal palavra que veio branquear o conceito de colónia, esconjurado internacionalmente, atrevo-me a sugerir ao Núcleo dos Antigos Combatentes que o possa divulgar pelos seus membros. A obra merece. Parabéns à autora, Diana Gomes, e ao fotojornalista Rui Caria!
Santos Narciso

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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