26 de outubro de 2020

Atlântico Expresso

A religião laica

Chegou a hora da “pública profissão de fé” dos políticos da nossa praça; acresce que, na tentativa de converter os infiéis, prometem a salvação de todos males e um futuro glorioso Não confundamos, porém, a clássica profissão de fé dos crentes com a “pública profissão da fé” dos políticos nas ideologias em que acreditam e nos interessas que defendem. Os últimos, de quatro em quatro anos, vestem-se de gala, vão à televisão, aos jornais, enfim, a tudo quanto é sítio e pode dar votos para proclamar a sua fé, confessar as suas crenças e garantir amor eterno a todos os povos do orbe terráqueo. Quem foi que disse haver alguma diferença entre religião e política? 
 A não ser a óbvia diferença, resultante do facto da religião se ocupar de Deus e da transcendência e da política não querer saber de Deus para nada, no resto, caro leitor, não há diferença alguma. A cópia é perfeita, pois cada partido funciona com se fosse uma religião. Se não, vejamos:
- Os partidos têm o seu deus omnipotente - o dinheiro, o seu templo – a sede do partido, os seus rituais e a sua função catequética, (sobretudo com os jotinhas) para garantir a transmissão da sã doutrina e a perpetuação do partido. Obviamente, também têm a sua hierarquia, cuja cabeça é o líder que obedece à velha norma do “primus inter pares” (primeiro entre iguais). 
Sem entrar em comparações abusivas e sempre mancas, mas já entrando, continuemos, então, com as analogias entre religião e política:
 - Na religião os templos estão vazios, os fiéis seguem por outros caminhos, pouco se importando com as orientações da Santa Madre Igreja; não obstante, o padres, impertérritos,  repetem há séculos os mesmos rituais, dizem as  mesmas coisas e estafam-se a conclamar os povos  à prática da oração e da missa semanal, sem resultados visíveis: mas, poucos são os que se atrevem a despir a batina para irem à procura do rebanho que anda por outras “pastagens” bem mais apetecíveis. 
- Na política, melhor dizendo, nos partidos, o paralelismo é perfeito. Enquanto as urnas ficam cada vez mais vazias e os cidadãos voltam costas aos políticos, os dirigentes partidários continuam a seguir os mesmos rituais, dizem as  mesmas coisas e não se cansam de conclamar as hostes para a participação cívica e para o voto, também sem resultados palpáveis; todavia, não mexem uma palha para mudar o sistema.. 
Morto Deus, enterrada a virtude e sequestrados os valores, vítimas de teorias abstrusas, da erosão do consumo desenfreado e da ilusão do progresso sem limites, algum substituto havia de aparecer. Querem melhor candidato a esse lugar do que a partidaritocracia? Enfim! Há quem diga que a política é uma espécie de religião laica: também tem os seus dogmas, oficiantes e sua liturgia. Será?! 
José Medeiros Carvalho

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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