Cestas de piquenique em vimes passaram a ser um artigo muito procurado pelos micaelenses durante a pandemia

Gilberto Róia vem de uma família de cesteiros de Água de Pau, no tempo em que eram mais de 40 homens da família que trabalhavam nesta arte para conseguir ter material que depois era usado na agricultura e na construção civil. Começou com cerca de 8 a 9 anos a ajudar o pai, o avô, os tios, primos e irmãos e hoje, com 68 anos acabados de fazer, é o único da família a dedicar-se ainda aos vimes. Os irmãos, conta, quando chegou a altura de irem para a tropa deixaram este ofício e apenas Gilberto e um outro irmão – que acabou por abandonar – se dedicavam a esta arte. “Os meus irmãos eram forçados a trabalhar nisto, mas eu gosta muito. Sempre gostei” e a prova é que é um dos únicos três cesteiros que ainda trabalham em Água de Pau. 
Enquanto fala, vai dando voltas e mais voltas em cima de um pequeno estrado de madeira onde tem algumas vergas de vimes presas pelos pés, que entretanto já escolheu pelo tamanho e grossura, para começar a fazer o fundo de um cesto. Alinhados e seguros com o pé, por cima coloca o mesmo número de hastes fazendo uma espécie de cruz. Com mais uma verga, que vai passando por cima e por baixos dos vimes, vai deixando um pequeno quadrado reforçado que se afigura agora como o fundo de um cesto. Em menos de nada, entre voltas e mais voltas, pés e mãos a trabalhar, já as hastes deixaram de estar em cruz e estão agora unidas parecendo um círculo. Novas vergas, que Gilberto Róia vai escolhendo por grossura e cumprimento quase de olho, vão sendo passadas por água num pequeno alguidar, e vão começando a ser entrançadas de forma cruzada e um pequeno círculo de vimes já tomou forma. Humedecidos, os vimes são agora dobrados para cima e é colocado um pequeno “anel” do mesmo material no cimo para que fiquem ao alto. Agora com vimes rachados – com uma pequena rachadeira de madeira – começa-se nova ronda de vimes entrançados, que já começam a dar forma a um futuro cesto de peixe, que fica pronto em cerca de 20 minutos.
Ao lado estão dezenas de peças feitas em vimes, de todos os tamanhos e feitios, desde minúsculos cestos a grandes cestos com duas asas e até cestas de piquenique. Acompanhado pela esposa, Lúcia Soares, Gilberto Róia começa por contar que para se chegar àquele estado de perfeição há todo um processo, por vezes difícil, por detrás. Há que plantar os vimes, “pela época de Natal” para que esteja apto a ser colhido na mesma altura do ano seguinte. “Todos os anos dá vimes. Tenho plantios que têm quase 20 anos e ainda estão bons”, conta o cesteiro que noutros tempos tinha grandes áreas de terreno plantadas mas que agora só tem cerca de três alqueires de terra plantados. Lúcia Soares complementa que antigamente os vimes eram plantados entre os abrigos, e quase cresciam livremente noutros terrenos, mas “o vime agora é trabalhado só para isso, é igual a um cerrado”. 

Cozer nas Furnas
Depois de cortado em Dezembro, os vimes são cozidos nas caldeiras das Furnas. Mas antes já o foram no Paul, em Água de Pau, nos tempos em que havia muitos cesteiros naquela Vila e havia uma grande caldeira a lenha que servia para cozer a matéria-prima. “Era uma panela grande. No fim do ano quando acabavam de cozer os vimes, davam graxa para não criar ferrugem. Mas quando voltavam a cozer, no ano seguinte, o primeiro que cozesse ficava com a graxa naquela água, os dedos ficavam cheios daquilo e a graxa vinha às pastas com os vimes”, recorda Gilberto Róia. Lúcia Soares acrescenta que a caldeira levava pouca quantidade, acabando por se perder muito tempo na cozedura. “Levava uns 40 a 50 molhos de vimes, quando nas Furnas chegamos a cozer 200 molhos, e quando a lenha estava húmida não dava certo. Os vimes saiam encruados e custava a descascar”, recorda. 
Entretanto a caldeira acabou por se tornar inviável e foi preciso encontrar uma alternativa: passaram a cozer os vimes na Caldeira Velha. Mas também aí “quiseram que fosse só para o turismo” e passaram a ser cozidos nas Furnas, “junto às caldeiras onde se fazem os cozidos, com licença da Secretaria Regional do Ambiente” onde os molhos de vimes ficam durante três horas a cozer, tapados por um enorme plástico, para aproveitar o vapor quente. 
É aqui que o processo dos vimes se reveste de algum perigo. Por isso o filho e os dois genros de Gilberto e Lúcia já ajudam nesta fase da cozedura. Mas não só, porque “na altura da colheita vêm ajudar o pai a cortar os vimes, a aparar, e vão no dia para cozer. Logo de manhã eles estão aqui para ir para as Furnas. O meu marido já não vai para dentro da caldeira que o filho e os genros já não deixam”, mas nunca fica em casa. “Vai orientando e se fosse ficar em casa ia estar sempre em cuidados porque é um sítio perigoso”, refere Lúcia Soares que recorda que há dois anos o filho “escaldou-se na caldeira” e foi uma sorte a água fervente não lhe ter entrado para dentro da bota. “A água escaldou-lhe uma parte da perna. Se a água entrasse para dentro, era bem pior. Mas foi uma consumição”, recordam ambos. 

Depois de cozidos
Depois de cozidos, e já em Água de Pau, os vimes são descascados, secos e estão prontos a ser usados. São armazenados por cima da oficina e à medida que vão sendo necessários “põem-se de molho num dia para se trabalhar no dia a seguir. Quando se tira o vime da água está um pouco duro e à medida que vai secando é que fica mais maleável. Mete-se de manhã em água, tira-se à tarde, cobre-se e aguenta dois a três dias para se poder trabalhar” indica Gilberto Róia.
Parece simples, mas Lúcia Soares já habituada há muitos anos nestas andanças “apesar de ninguém na minha família ser cesteiro e só conhecer esta arte quando me casei”, lembra que muitas vezes o coração “fica nas mãos” quando o tempo não está de feição para secar os vimes.  “Se apanha tempos húmidos, com nevoeiro, os vimes ficam a secar, mas o coração fica-se desfazendo. Porque por vezes fica tudo malhado”, conta Lúcia enquanto Gilberto acrescenta que “antes esteja a chover que nevoeiro, porque a chuva vai escorrendo enquanto o nevoeiro dá uns pontos negros ao vime”.

Antigamente e agora
Mas quando os vimes ficam bem secos, ficam prontos a ser trabalhados embora actualmente já não se façam os mesmos serviços que Gilberto Róia fazia noutros tempos. “Antigamente fazia-se mais cestos grandes para a agricultura e também para a construção”, conta o cesteiro enquanto Lúcia Soares acrescenta que “levava semanas e semanas a trabalhar só para fazer cestos grandes para a agricultura, para as vindimas, para a batata, para o milho. E chegou a fazer 2 a 3 mil cestos só para a construção, para as várias empresas da altura”. 
Os plásticos vieram alterar essa rotina e os cestos passaram a ser, embora ainda utilitários, mais decorativos. Gilberto Róia também vendia em várias lojas de São Miguel os seus cestos mas chegou uma altura em que decidiu apostar também na venda “há mais de 40 anos”. Começou com uma “mota de carrinha” e a primeira volta que fez foi mesmo ali ao lado, na Lagoa. “Cheguei a casa sem nada”, recorda com um sorriso satisfeito. 
Lembra que em casa fez as contas dos cestos que levava e de quanto lhe poderiam render, tendo em conta o valor que cobrava a uma loja no Mercado da Graça. “Quando cheguei a casa já tinha mais 100 escudos além do dinheiro que devia ter ganho com os cestos. Em menos de meio-dia ganhei quase o ordenado de um camponês que trabalhava uma semana em Água de Pau, além daquilo que tinha previsto receber com os cestos”, conta.
Viu que a venda directa poderia ser mais vantajosa e começou a procurar sítios onde pudesse vender. “Houve uma altura em que o meu marido tinha licenças para vender em todos os concelhos de São Miguel”, recorda Lúcia Soares enquanto refere que depois passou a ir vender também para o mercado da Ribeira Grande e actualmente, às quintas-feiras, marca presença no mercado da Associação Agrícola de São Miguel. “Tínhamos muitos clientes que pediam material para trabalhar em estufas. Trabalhava semanas inteiras para as encomendas que ia recolhendo. Mas nunca deixei as lojas onde vendia” e mais tarde, já com uma carrinha, passou a instalar-se aos fins-de-semana na Lagoa das Furnas. 
Eram os turistas que, vendo um catálogo a três dimensões das potencialidades dos vimes, mais lhe compravam. “Até cestos para a agricultura cheguei a vender para França. Fui levar a um hotel de Ponta Delgada para o turista levar para França”, recorda. 
Agora, devido às restrições de bagagem, apenas pequenos cestos embarcam juntamente com os turistas e esmo com os emigrantes que, apesar de gostarem muito deste tipo de artesanato, também se vêem limitados na bagagem. 

Os piqueniques em família
Com a pandemia Gilberto Róia não parou a sua arte e foi fazendo material para depois vender. Quando terminou o confinamento voltou aos seus postos de venda habituais e confessa que este ano foram os próprios micaelenses, numa fase inicial, e depois os açorianos em geral que visitavam a ilha, que foram os seus grandes clientes. 
 Conta que há uma explicação para isso. Primeiro porque, há uns anos, os locais passaram a pagar para entrar na zona das Caldeiras e deixaram de se fazer piqueniques e cozidos nas Furnas para a família desfrutar no local. “Uma família com 20 pessoas para fazer um piquenique, deixava 50 euros nas Furnas só para comer o cozido. Tinha de pagar o carro, o cozido e a entrada”, conta ao afirmar que no ano passado “havia mesas vazias porque os micaelenses não queriam pagar por uma coisa que já conheciam”.
E este ano houve um confluir de motivos para levar mais micaelenses às Furnas. “Agora como já não se paga, como não houve festas devido à pandemia e os encontros tinham de ser ao ar livre, faziam as festas aos Sábados e Domingos nas Furnas”, explica, ao afirmar que em Junho e Agosto conseguiu vender melhor do que aquilo que estava à espera. E até houve um item que se tornou um “bestseller”: as cestas grandes de piquenique. “As pessoas como não podiam fazer festas, juntavam-se ao ar livre e lá iam as cestas de piquenique. De manhã ainda estávamos a preparar as coisas e já estavam à espera das cestas”, conta Lúcia Soares ao que Gilberto conta uma situação que viveram com um casal que “foi por o cozido e passou pela nossa carrinha, mas não me disseram nada. Iam com a panela às costas. Quando voltaram perguntaram-me onde estava a cesta que tínhamos ainda agora ali. Já tínhamos vendido. Isso foi num sábado, e o senhor pediu-me para levar uma no Domingo, eu disse que não podia porque não tinha nenhuma feita, mas que levava no outro Domingo. No outro Domingo, logo de manhã, ele já estava à minha espera. Eu levei duas cestas de vez e vendi as duas”, conta.
E são artigos que podem durar largos anos. “Não envernizo nada, mas gosto dos meus vimes limpinhos. Lavo, faço o cesto e ainda lavo de novo”, explica Gilberto Róia que garante que se os vimes não forem tratados aguentam 12 a 15 anos “sem caruncho e bolor”. Mas se for tratado pode durar uma vida inteira. E qual o tratamento? “Dito pelos agricultores de antigamente, o melhor tratamento é levar os cestos à água salgada durante duas ou três horas, para o salgado entrar no miolo, porque o bicho dá é no miolo, mas se for salgado, dura a vida toda. Os agricultores de antigamente acabavam as vindimas, iam lavar os cestos ao mar e levavam toda a vida com os cestos novos”, conta.
Com todo o empenho e gosto que coloca nos artigos que habilmente lhe saem das mãos e dos pés, diz que “a maioria das pessoas acha barato e reconhecem o trabalho” que dá este tipo de artesanato. “Muitos dizem que não paga o trabalho. Mas há pessoas que pensam que eu levo um dia para fazer um cesto desses”, diz bem-disposto enquanto pega num cesto grande com duas asas, semelhante ao que usava nas vindimas de antigamente, e admite que a experiência, sabedoria e prática fazem com que “não leve hora e meia” a fazer um artigo daqueles. Gilberto Róia já tem uma vida de cesteiro nas mãos, e nos pés, mas vai continuando sempre a inovar muitas vezes até através de uma imagem. Foi assim que conseguiu começar a fazer as cestas de piquenique, tão cobiçadas, e que por tentativa e erro encontrou a maneira certa de as fazer. Por isso as cestas de piquenique vão agora continuar a fazer parte do catálogo que vai mostrando a quem quer conhecer melhor os seus trabalhos, e também vão continuar em destaque quer na carrinha da Lagoa das Furnas quer na banca do mercado da Associação Agrícola de São Miguel. 
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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