24 de outubro de 2020

Cesto da Gávea

Hidrogénio: Graal ou ilusão?

A lenda do Graal remonta há muitos séculos, tendo sido contada e recontada sob múltiplas versões, desde a origem celta da famosa taça salvadora, à demanda da mesma pelos cavaleiros da Távola Redonda, ordenada pelo Rei Arthur. Para os cristãos, o Santo Graal era o cálice que recolhera o sangue de Cristo, ainda hoje celebrado nas eucaristias dominicais. De comum, a lenda ou lendas do Graal têm o poder miraculoso do cálice sagrado que tanto motivou a saga dos enviados bretões do Rei Arthur. Hoje, os Graals são outros.Um deles, quiçá dos mais rentáveis, é um gás de fórmula molecular H2 que conhecemos como hidrogénio. É 14 vezes mais leve que o ar, não tem cor, nem cheiro, nem sabor, é insolúvel na água e altamente inflamável. Nos anos liceais, aprendemos a obtê-lo por eletrólise da água; inversamente, a sua combustão origina vapor de água, o que o torna um combustível não poluente. O hidrogénio tem 3 formas de se obter, sendo a eletrólise a única verdadeiramente respeitadora do ambiente (hidrogénio “verde”). As outras 2 usam a fragmentação pelo calor de moléculas de metano, libertando grandes quantidades de CO2, o demónio dos gases de estufa. Numa modalidade, infelizmente aquela que constitui 95% da produção atual, o CO2 é libertado na atmosfera, podendo dizer-se que é pior o remédio que a cura (hidrogénio “cinza”). Na outra, usa-se uma variante da anterior, mas o anidrido carbónico é recuperado e vendido (para bebidas gasosas, por exemplo)ou simplesmente armazenado em cavidades subterrâneas (hidrogénio “azul”).
Vemos assim que a mais ecológica forma de produzir hidrogénio é a via eletrolítica, fazendo passar uma corrente elétrica pela água e retendo o gás resultante. Os eletrolisadores industriais ainda são poucos no mundo, mas podem ser ligados a grandes centrais solares, eólicas ou nucleares, estas da futura geração de fusão, que não produz resíduos radioativos. O interessante da questão, é que Portugal e Espanha aparecem na linha da frente dos países que irão instalar centrais solares de grande dimensão para produzir energia elétrica, investindo fundos disponibilizados ao abrigo do “Green Deal”/Pacto Ecológico Europeu. Segundo ThierryLepercq, fundador da multinacional Soladvent, citado na revista francesa “Capital” de Setembro passado, planeia-se conseguir 1 milhão de toneladas de H2 em 2025, com origem nessas centrais solares ibéricas gigantes. A tecnologia das pilhas de combustível (fuel cells) permite que o gás, depois de liquefeito, produza eletricidade. Como o potencial por quilo de hidrogénio é 4 vezes superior à gasolina super, podemos imaginar o brilhante futuro deste combustível. Mais: a empresa americana AlGalCo, em colaboração com a Purdue University, desenvolveu uma tecnologia que permite ter “hidrogénio de torneira” em vez de pilhas de combustível. Através de água vertida em cilindros contendo porções de alumínio e gálio, a reação química separa o oxigénio do hidrogénio, que depois é injetado com o combustível habitual, enquanto os motores não estão preparados para o “todo hidrogénio”. O processo já foi certificado pela Environmental Protection Agency dos Estados Unidos, devido à elevada redução da poluição e do consumo.
Aparentemente, tudo indica que a investigação descobriu o Santo Graal energético e que os combustíveis fósseis, para não dizermos o mesmo das baterias de lítio dos automóveis elétricos, terão dificuldade em impor-se no futuro. Não é bem assim, porque mesmo no caso do “H2 de torneira”, exige-se um conjunto demasiado volumoso de recipientes, o que só permite aplicação em grandes camiões, comboios ou navios. Nas pilhas de combustível, as perdas durante o processo, nomeadamente caloríficas, são superiores a 60%, enquanto nas baterias andam pelos 15%. Porém, tanto numa como noutra tecnologia, os avanços são espantosos, o que é diariamente demonstrado pelos comboios alemães movidos a hidrogénio, pela autonomia alargada até 700 kms dos carros a H2 e pelo tempo de carregamento do combustível, reduzido a poucos minutos. Existem já centenas de viaturas a pilhas de hidrogénio nas grandes cidades e o número não cessa de crescer. Paris contará com cerca de 10.000 dentro de 3 a 4 anos, devido a uma associação entre a Toyota e a Air Liquide, uma interessada na venda dos carros a H2 e a outra, na venda do gás. 
Prevê-se a criação de centenas de milhares de empregos globais na fileira do hidrogénio nos próximos anos, quando hoje apenas menos de 2% do consumo mundial de energia daí vem e se espera 10 vezes mais até 2050. A central solar de Sines, com 1 gigawatt de capacidade, anunciada no fim de 2019, verá acelerar o projeto sob a pressão conjunta da pandemia e da resposta às alterações climáticas. O novo Graal está aí e apenas será ilusão se perdermos a oportunidade. Nos Açores, devemos pensar como agarrá-la, em vez de perdermos tempo com tricas e politiquices inúteis. 

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Categorias: Opinião

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