Filarmónica da Candelária reclama mais apoio camarário e Lira de São Roque defende interligação entre instituições culturais

Fundada nos anos 80, mais concretamente em 1983, a Filarmónica Lira de Nossa Senhora da Estrela, na freguesia de Candelária, é uma das mais jovens bandas da ilha de São Miguel. No arranque deste projecto destacam-se os nomes de Manuel Oliveira Roque, Presidente da instituição até 2005 e do padre Manuel Pacheco Câmara, os “dois grandes impulsionadores para a criação de uma filarmónica na freguesia”, tal como salienta o actual Presidente da banda, Pedro Ponte, a exercer funções desde 2005 e que relembra esses primeiros tempos em que cerca de 60 pessoas resolveram aderir ao projecto.
“Não tínhamos grandes tradições musicais na freguesia e aquilo foi uma novidade na altura. Acorreram muitas pessoas à filarmónica e, na altura, eu estava incluído nesse primeiro grupo e estive ligado à filarmónica desde a primeira altura”, destaca.
Depois deste primeiro impulso, em 1983, não ter tido o final desejado, foi preciso esperar mais dois anos para a que a Filarmónica Nossa Senhora da Estrela tivesse a sua primeira saída que teve lugar a 4 de Agosto de 1985. Desde então a banda não teve qualquer interregno e tem mantido a sua actividade de forma normal.
Tendo realizado viagens “a praticamente todas as ilhas dos Açores”, a Nossa Senhora da Estrela já ‘emigrou’ e exibiu a sua música pela Madeira, Estados Unidos da América e Canadá, sendo que o seu actual presidente destaca a participação “num festival de bandas de música de grande gabarito em Espanha, na cidade de Zamora”. Aliás os intercâmbios fazem parte da essência da banda da Candelária.
“Até à minha entrada a nossa filarmónica foi sempre aberta a sair mas em termos de receber outras bandas não havia essa política. Desde então abrimos a possibilidade de intercâmbios com outras bandas (…) fomos 3 vezes ao continente e recebemos pelo menos 6 bandas de lá no âmbito de intercâmbios. No ano que fomos a Espanha recebemos uma banda, com cerca de 110 elementos. Sei que outras bandas também já foram a Espanha, mas o recebê-los cá não é fácil. Isso envolve uma logística grande e também despesas avultadas”, realça.
O Presidente da Filarmónica que conta com aproximadamente 60 elementos, destaca a importância destas iniciativas para motivar os mais jovens e para o facto de estes intercâmbios servirem também para abrir horizontes.
“Estes intercâmbios são muito importantes não só na perspectiva do passeio mas sobretudo no ter contacto com outras realidades e posso dizer que a banda abriu-se muito depois de aderir a estes intercâmbios. Ver o tipo de instrumentos que as outras bandas têm, músicos de uma realidade diferente da nossa, com outros repertórios”, afirma. 
Referindo-se à pandemia e às consequências que daí vieram, Pedro Ponte considera que as instâncias governamentais tem de saber, “doa a quem doer” as dificuldades que presentemente as bandas filarmónicas atravessam e destaca o papel que estas desempenham junto das respectivas comunidades.
“Eles sabem sobretudo uma coisa, do trabalho social que fazemos e do trabalho de educação que é feito nas filarmónicas que são verdadeiras escolas de valores. A Covid serviu de desculpa para tudo. Temos um bar que somos nós que exploramos e que tem algumas receitas e até isso nos tiraram”, lamenta.
Com os ensaios já reactivados desde Julho, o Presidente da Lira Nossa Senhora da Estrela não entende que os apoios financeiros da Câmara Municipal de Ponta Delgada não são os mais adequados. 
“Da parte da Câmara a dada altura, quando iniciamos a actividade, recebemos um e-mail e a primeira coisa que nos pediram foram os relatórios dos projectos feitos antecipadamente. Segunda questão, há pouco tempo os projectos que tínhamos apresentado e uma vez que não vão acontecer foram alvo de um rateio, algo que, na minha perspectiva, e na actual conjuntura não se percebe. Fomos assinar os protocolos a semana passada mas da autarquia de Ponta Delgada até agora não chegou um cêntimo”, afirma.
Projectando o futuro próximo, Pedro Ponte mostra alguma apreensão e chama a atenção para um outro factor que poderá estar associado à falta de actuações durante o ano de 2020.
“Não sabemos como vai ser o futuro mas o cenário mais provável é que em 2021 a coisa se mantenha e mesmo que não se mantenha há um outro fenómeno aqui. Existem festas e outro tipo de iniciativas que são feitas em que as pessoas acostumaram-se com facto do andor ir em cima da carrinha. Podem pensar, se já fizemos um ano sem banda, no próximo também o podemos fazer. Esse é um perigo que nós corremos”, alerta.
Aliás, a pandemia de Covid-19 teve, para além do natural cancelamento de serviços que se realizavam durante as festividades religiosas, como consequência a não realização de uma iniciativa importante para a banda. 
“Há uma actividade importante e que já faz parte do nosso orçamento que é um jantar de São Martinho que realizamos para 600 ou 700 pessoas. Temos que fazer projectos mas também temos de ter actividades próprias e isso já fazia parte do nosso orçamento. O ano passado fizemos um valor líquido acima dos 4000 euros”, explica.
Apesar de não temer pelo desaparecimento da sua filarmónica, Pedro Ponte alerta para o facto de se não forem devidamente ajudadas, algumas bandas e outras instituições da ilha poderão passar por graves problemas.
Vamos ver como vai ser o próximo ano e já tive até uma conversa com o maestro. Não vamos fechar mas em vez de fazermos 2 vez por semana vamos começar a fazer um por semana e reduzir o pagamento ao maestro para metade. Não temos outra hipótese (…) Isso vai acontecer nas filarmónicas e em muitas outras coisas. Se já havia algum comodismo e o trabalho social vai ficando para atrás, muitas bandas e outras actividades vão correr perigo”, afirma Pedro Ponte, Presidente da Filarmónica Lira Nossa Senhora da Estrela.

Filarmónica Lira de São Roque
Datada de 1899, encontra-se sediada nesta freguesia de Ponta Delgada a Filarmónica Lira de São Roque que no ano passado comemorou os seus 120 anos de existência. Em 2018 registou-se outro marco importante da banda que, tal como nos explica o seu actual Presidente, Luís Moura, também se revestiu de algum simbolismo.
“Mudamo-nos para uma sede nova com a ajuda do Governo Regional dos Açores e da Junta de Freguesia de São Roque e fomos para uma das primeiras instalações onde funcionou a Lira de São Roque há cerca de 100 anos e onde funcionou também a primeira escola primária de São Roque. Foi um acto marcante porque fomos às origens”, destaca o Presidente da Lira de São Roque que adiantou igualmente que as antigas instalações da banda foram cedidas para a realização de outras actividades.
“A sede antiga como não estava sendo ocupada, fizemos uma parceria com uma associação desportiva ligada ao boxe e cedemos as instalações a título gratuito para que eles fizessem uma escola de formação para os miúdos de São Roque. Acho que é motivo para os miúdos se ocuparem e descarregarem, digamos assim, as suas energias”, realça. 
Presentemente com 18 elementos na banda, Luís Moura admite que este “é um número relativamente baixo de músicos. Nota-se que há algum desinteresse e desmotivação por parte das pessoas”, refere antes de destacar que devido a este facto que a escola de música é um dos principais focos da Lira de São Roque.
“A escola de música foi uma das nossas apostas no seguimento da comemoração dos 120 anos e no ano passado estávamos com 8 músicos. Fizemos um acordo com 3 escolas primárias de São Roque (Poço Velho, Maricas e Livramento) e já estávamos a receber alunos dessas escolas quando entretanto rebentou a Covid. A nossa aposta vai ser na formação e na nossa escola de música”, destaca.
Depois da paragem devido à pandemia, a Lira de São Roque já regressou aos ensaios, realizando-os de 15 em 15 dias. O Presidente da Banda adianta que devido à Covid, um dos projectos planeados para este ano teve de ser adiado.
“Estávamos e estamos, apesar de agora estarmos um bocado parados, a planear publicar um livro sobre a história da banda. Já recolhemos toda a informação escrita sobre a história da filarmónica e neste momento estamos na fase das ilustrações. Contamos lançar o livro só em 2021”, lamenta.
Relativamente às finanças, Luís Moura garante que as mesmas se encontram estabilizadas e considera que os apoios disponibilizados pelas várias entidades satisfazem as actuais necessidades.
“Os valores que iremos receber das várias entidades são satisfatórios. Temos uma grande contingência dos custos e por outro lado não pagamos rendas e também fazemos algum dinheiro, não muito, com aluguer de salas”, realça
Projectando o futuro, o responsável máximo pela Filarmónica Lira de São Roque avança que a banda tem a intenção de, já no próximo ano, iniciar e organizar um festival na freguesia.
“A nossa banda foi anteriormente ao Festival de Bandas de São Roque do Pico e em 2019, recebemos uma banda que veio de São Roque do Pico e queríamos fazer tipo uma geminação; um festival de bandas São Roque do Pico e Festival de Bandas São Roque de São Miguel. Era uma coisa engraçada porque era São Roque com São Roque”, adianta.
Luís Moura explica ainda os moldes em que se irá realizar este festival.
“Das bandas que vão ao festival de São Roque do Pico nós temos combinado que das bandas que vierem do continente e como têm de apanhar o avião aqui em São Miguel, eles vêm depois de actuar no Pico. Recebemos essa banda e vamos passar a fazer um concerto, um mini festival com uma banda do continente, uma do Grupo Central ou da ilha do Pico, uma da ilha de São Miguel e a de São Roque que recebe as outras 3 bandas”, explica.
Para o Presidente da Filarmónica Lira de São Roque é necessário que, apesar das dificuldades que todas as bandas se vão deparando, se comece a preparar o futuro. Para tal, Luís Moura considera que existem 3 instituições na cidade de Ponta Delegada que, interligadas, poderiam desempenhar um importante papel para o desenvolvimento das filarmónicas.
“O Conservatório de Ponta Delgada podia dar mais abertura às bandas, nomeadamente ficando com mais alunos, porque é sempre um problema para os nossos alunos lá entrarem e não é por causa da Covid ou das instalações, porque ali ao lado temos a antiga Academia das Artes que está fechada. O Teatro Micaelense que tem imensos espaços, está fechado, mas se fosse para importar cultura estava aberto. Temos 3 pólos no centro de Ponta Delgada e apenas um está activo. Considero que deve existir uma interligação entre esses 3 pólos e as bandas filarmónicas, algo que actualmente não acontece. As pessoas têm de conversar, sentar-se à mesa e as instituições disponibilizarem os espaços”, sugere Luís Moura, Presidente da Filarmónica Lira de São Roque. 
                                                       
Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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