25 de outubro de 2020

Crónica da Madeira

Nicola Bramante

O livro “Dal Gargano Oltre le Colonne di Ercole”
é um livro fascinante da vida
de uma personalidade – Nicola Bramante – que
percorrendo o mundo compreendeu 
que as terras são mais belas 
porque têm pessoas com histórias

“A minha fuga em direção à Madeira,
terra de acolhimento e de profunda amizade,
fui à descoberta da beleza da sua história,
mitologia e natureza e da incrível 
utopia de um povo capaz de
realizar um modelo de desenvolvimento urbanístico 
e socio-económico” 


Conheço o Nicola Bramante, há precisamente cinquenta e oito anos. Meio século já se passou de quando o encontrei, pela primeira vez, no refeitório do Pensionato Universitário Católico, da Via de llaSefora 70, em Roma. Ele estudava arquitetura, enquanto eu seguia o meu percurso jornalístico. Não tardou mais do que uma semana para que ficássemos amigos. Ele, o irmão Tonino que frequentava a faculdade de Medicina, o Matteo que fazia engenharia e o Fernando, economia. Na verdade, de todos eles, era o Nicola quem mais rapidamente estreitava os laços de amizade. Alegre, divertido, comunicativo, aproximava-se dos alunos estrangeiros e logo os conquistava. Éramos de diferentes países. Éramos jovens. Afinal éramos a nova geração de um pequeno mundo que estava acabando e que hoje é aquele repositório de histórias e historietas de cada um de nós.
Roma nos anos 60 proporcionava acontecimentos únicos que despertava em nós jovens, curiosidade e interesse pelo saber. Empolgava-nos para viagens imaginárias que alegravam os nossos caminhos. Do ponto de vista artístico-cultural as fabulosas exposições de pintura e escultura e os interessantes e úteis debates e congressos de toda a ordem. Da parte religiosa era um momento histórico: a realização do Concílio Vaticano II, mobilizava a atenção do clero de todo o mundo, reunido na “Cidade Eterna”. Reinava então o Papa João XXIII, tinha vindo de Veneza onde fora patriarca. Apesar de se dizer à “boca pequena “que era um Papa de passagem, pela sua proveta idade, ele decidiu-se pela organização de um Concílio Ecuménico, um acontecimento marcante do século XX. É dele aquela célebre frase: “Já que o povo não vem à Igreja, levemo-la ao povo.” O Concílio não era a alteração da doutrina da igreja católica. Era sim uma adaptação dessa aos tempos modernos.
Roma povoada de cardeais, bispos, sacerdotes e freiras, resplandecia de cores, sob um céu primaveril que bem caracteriza a cidade e um por-do-sol rubro que tingia de vermelho o rio Tibre das minhas confidências. As praças, as igrejas, os telhados e os jardins suspensos da antiga urbe mais se revelavam na sua beleza e no cosmopolitismo das suas gentes. Por outro lado, naquela época irrepetível, viviam-se os anos da “Dolce Vita”. Pela via Vitório Veneto desfilavam as famosas personalidades do cinema italiano e não só. Felini, Viscounti, Ponti Passolini, Sofia, Gina, Ana Magnamo e todos os outros que davam aquela Via, aos cafés e restaurantes, mais fama e atraia turistas de todo o mundo.
Nós jovens corríamos como loucos de um lado para o outro para encontrarmos tão famosas figuras, já que no antiguíssimo “Café Grego” os escritores se reuniam em tertúlia e discutiam a literatura, a poesia e a política da época. Dali partia-se para a escadaria de “Trinità dei Monti” onde a moda italiana se exibia. Era, também o momento dos grandes estilistas, reconhecidos mundialmente. Na primavera a escadaria, tendo aos pés a barcaça de Bernini, coloria-se com o rosa e o vermelho das azálias. 
O meu amigo Nicola Bramante, homem de cultura e historiador de arte, retratando na memória todos estes acontecimentos, tão intensamente vividos, trá-los agora no seu interessantíssimo livro: “Dal Gargano Oltre lecolonne di Ercole”. Ali na sua linguagem poética e na transparência e beleza dos textos, Bramante conserva o espírito da sua juventude que o fez correr e descobrir o desconhecido das coisas e dos lugares.
Tornou-se no ser humano maravilhoso que é. Na pessoa íntegra e corajosa que percorrendo o mundo fez deste trampolim para os seus conhecimentos. O seu excelente livro que é autobiográfico, divide-se em vários capítulos. Começa pela primeira juventude e um mundo antigo e termina com uma parte dedicada à Madeira (III Parte).
As páginas descritas, com tal realismo, fizeram-me recordar os anos que vivi em Roma. Uma vez que sendo uma das personagens das suas histórias é natural que sinta e viva esta obra com profunda amizade e entusiasmo. Fui, através destas páginas, novamente transportado para a ilha de Tremite, lugar onde  Mussolini mandava os seus presos políticos ou ainda uma ida à Piazza Colonnae na galeria ouvir aquela deliciosa música romântica, da orquestra que ali se exibia,todas as noites, criando um ambiente espe cialmente mágico.
Nicola Bramante teve cargos importantes nos países da América Latina: os programas de recuperação do património italiano ali existente. Assim deambulou pela Argentina, Perú, Uruguai, Brasil, Equador e Venezuela. Estudou a história e as tradições destes países. Antes foi Professor na Universidade da Argélia. Assistiu à Primavera de Praga. Teve encontros e sessões de trabalho com altas personalidades dos países por onde andou, a fim de com eles, discutir os moldes das recuperações do património. Mais tarde chegou à Madeira para viver temporariamente, um período que se prolongou por cinco anos. Vem com a sua mulher Letízia, ao encontro do seu velho amigo. Vem num momento trágico da sua vida: o desaparecimento inesperado de sua filha Sara, com apenas 16 anos de idade, a quem dedica também este seu livro. Na parte dedicada à Madeira ele começa por dizer: “A fuga para a Madeira, terra de acolhimento e de profunda amizade fui à descoberta da beleza da sua história, mitologia e natureza, e da incrível utopia do seu povo, capaz de realizar um exemplar modelo de desenvolvimento urbanístico e socio económico.”
Referindo-se à governação do Presidente Alberto João Jardim: “Foi uma enorme luta, um longo caminho que prosseguirá no tempo entre grandes dificuldades, travessias e perigos sempre no protagonismo e na força deste jovem líder, de calorosa e eloquente oratória, capaz de mobilizar grandes massas, mas sobretudo capaz de concretizar as suas palavras em obras – em cada dia uma inauguração, uma festa. Ele põe claramente um credo de valores e realidade que finalmente contrastam com a maneira decisiva dos banais e fúteis joguetes da atual partidocracia, quanto mais as desleais influências e avançadas ideologias Castro comunistas de então, evitando ao seu povo as tristes experiências falsas, falimentos e tragédias que já conhecemos...”. Mais adiante: “Nasce assim uma “Madeira Nova”, outra, aquela das grandes infraestruturas e serviços, será ainda mais aquela da dignificação de um povo na sua educação, trabalho, casa e saúde, onde o analfabetismo é somente de 4% e a desocupação de 6%. Foram em poucos anos reduzidos a miséria e tanta marginalidade.”
O livro “Dal Gargano Oltre le Colonne di Ercole” é um livro de edição italiana. Com uma capa bastante sugestiva e de bom gosto. Nessa figura o mapa da Madeira. É a autobiografia de uma personalidade que viveu e vive a vida tão intensamente, tirando dessa o máximo partido de tudo o que o rodeou e rodeia, neste seu longo percurso de vida. É o testemunho de alguém que descobre para além das pessoas e das coisas a poética que as envolve e quanto essa seja fundamental para uma salutar vivência.
Por fim vivendo temporariamente na Madeira admira as suas gentes, heróis de um trabalho hercúleo. Compreende-as porque as ama. Admira-as pela sua forma e capacidade de serem como são, Ilhéus universais que do mar fizeram as estradas do mundo, para se espalharem e construíram outros mundos. Acompanhou a política e assistiu à evolução da ilha, no seu progresso físico e intelectual. Apaixonou-se pela terra e comprou uma casa onde passa parte do ano.
Felicito o meu velho amigo por esta obra magnifica, pela beleza e poesia das palavras; pela narração tão real dos factos, que me transportou à “Cidade Eterna”. Que me levou ao restaurante da Carolina, quando tínhamos um pouco mais de dinheiro, esta recebia-nos com tantos salamaleques: doutores, engenheiros, sempre bem-vindos, mas que às 14:30 deixava cair os títulos e com o bater das mãos punha-nos, secamente, na rua.  Nós voltávamos, de vez em quando, não só para assistirmos à cena teatral da Carolina mas, sobretudo, para desenjoar a comida do pensionato. Revivi as idas do nosso grupo ao Patheon – a esse fabuloso templo de Adriano do qual Marguerite Youcenar escreveu: “quis que este santuário de todos os deuses representasse o globo terrestre e a esfera celeste, um globo no qual estão encerrados as sementes e o fogo eterno, todos contidos na esfera cava.”
Idas tão divertidas, guiadas por mim, como se fosse um guia oficial: “mio grupo adiante! Avanti... avanti.” Ali ordenadamente, sob a minha batuta, assinávamos o livro de honra da Casa de Savoia, sob os olhos das damas que ladeavam o túmulo do Rei Vitório Emanuel II, pai da pátria. Repetíamos diariamente este ritual. Enchemos páginas com as nossas assinaturas. Éramos tão jovens e divertíamo-nos com as pequenas coisas.
Sensibilizado agradeço teres incluído neste teu livro, partes dos meus discursos proferidos, em Nápoles, por ocasião das jornadas Europeias do Turismo e ainda do meu texto “Turismo com alma”. 

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Categorias: Opinião

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