27 de outubro de 2020

Mais do mesmo


Tenho por hábito escrever o trabalho que envio para o Correio dos Açôres, salvo raríssimas excepções, sempre nas manhãs de domingo.
Hoje, é dia de eleições para a Assembleia Legislativa Regional. Assim, logo à tarde, irei cumprir o meu dever, melhor dito, direito cívico, de ir votar. Não quero dar a outros a responsabilidade do meu voto, porque quero ter a minha consciência tranquila sempre que manifeste discordância, ou assentimento, com algo que é feito pelos novos governantes e políticos eleitos em geral.
Como se tem visto, em 44 anos de democracia, o povo destas ilhas, e de modo especial o de S. Miguel, tem-se abstido de ir cumprir a sua obrigação nos actos eleitorais.
Julgo que este desleixo se deve, em parte, ao não cumprimento das promessas feitas em campanha eleitoral, como também na falta de posições firmes perante a República na defesa intransigente daquilo que nós, açorianos, achamos que deveríamos ter.
Um exemplo recente, no início da pandemia foi doloroso ver como o Governo Regional se “ajoelhou” perante o governo da República na suspensão dos vôos da TAP. 
Foi alegada a continuidade territorial, que é uma coisa que não nos cabe na cabeça, porque temos muito mar a separar-nos.
Apesar da saúde e a educação estarem regionalizadas, é confrangedor ver-se a falta de iniciativas próprias e como esperam pelo que é decidido a nível nacional para daí copiar, por vezes mal, para aplicação na Região.
Julgo também que os açorianos têm o direito de saber quanto factura o Controlo de Tráfego Aéreo de Santa Maria (se é que ainda existe, porque ninguém fala dele).
Seria interessante saber também o que, em termos de salvamentos nos nossos mares, quanto facturam a Marinha e a Força Aérea.
Seria interessante saber, por que motivo o Exército Português adjudica a empresas portuguesas obras realizadas ou a realizar nos Açôres, mesmo as de baixo valor, sem sequer consultar as empresas regionais do sector, possuidoras de alvarás mais do que suficientes para a realização das ditas.
Por outro lado, seria interessante saber quanto nos custam as evacuações de doentes por via aérea, ou então se é um serviço gratuito.
Também seria interessante saber quanto valem os Açôres para Portugal, que fazem com este país tenha a maior mancha marítima da Europa, bem como, quanto ganha anualmente Portugal, em tratados internacionais, devido justamente à posição estratégica dos Açôres no meio do Atlântico Norte.
Nesta campanha eleitoral tive oportunidade de ver num canal televisivo, um candidato que nem reside nos Açôres, concorrer para a nossa Assembleia Legislativa Regional. Como é possível a lei eleitoral permitir semelhante desaforo? 
Como pode uma pessoa que desconhece os Açôres candidatar-se à nossa Assembleia? 
Só podem estar a gozar!
Perante o que atrás disse, não tenho dúvidas de que, quem vencer estas eleições, terá de mudar o rumo das coisas em termos de relacionamento com o governo da República, bem como, o modo de nos governar.
Por outro lado, as senhoras deputadas e os senhores deputados regionais, no que concerne às relações País/Região, deverão falar a uma só voz e não serem como aquela deputada do PS na Assembleia da República a contestar as afirmações do deputado do PSD daquele hemiciclo, salvo erro, acerca da SATA. 
Como açoriano, fiquei deveras envergonhado pelo que disse aquela senhora. Deu a imagem do que os Açôres nunca deveriam ser. Já bastam as divisões internas que temos.
Por tudo o que atrás referi, penso que a nova assembleia e o novo governo terão de mudar de rumo, e ter como paradigma a defesa intransigente das nossas necessidades enquanto povo.
É urgente deixarem de se ajeitar ao que diz e faz a República quando legisla matérias do nosso interesse específico.
Como dizia um dos cartazes da grande manifestação de 6 de Junho de 1975: somos um Povo que quer ser respeitado!
Mesmo em autonomia, os Açôres não se devem vergar a tudo o que a República dita.
A menos que se eleja gente com menos coragem, para não dizer outra coisa!

P.S. Texto escrito pela antiga grafia.

25 de Outubro de 2020

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Categorias: Opinião

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