27 de outubro de 2020

A voz

O Que interpela, incomoda, inquieta e desassossega.
Num mundo cada vez mais perigoso. O cerco à Paz e às Instituições Democráticas aperta-se. Tal como nos anos 20 e 30 do século passado, hoje nos anos 20 do século de todas as descobertas, global e digitalizado, eles aí estão os sósias de Hitler e Estaline, o inferno e o demónio, como lhes cognominou Churchill. 
Imprevisíveis, inconstantes, autocratas, demagogos e populistas, para desgraça da Humanidade, a liderar as maiores potências mundiais.
 Como a dar esperança e luz num tempo de trevas, a encíclica do Papa Francisco intitulada Fratelli Tutti (Todos Irmãos), assinada no dia de S. Francisco de Assis, no passado dia 4 de Outubro, coloca o foco na Fraternidade e Amizade Social, como caminho seguro no combate às desigualdades, ao ódio e ao medo.
 Esta encíclica vem, não só, na linha das anteriores, mas também no substrato da Exortação Evangelli Gaudium, onde o Papa duma forma desassombrada utilizou a expressão “Esta Economia que Mata” para criticar o capitalismo sem limites, advertindo para a desigualdade e exclusão social, apelando aos políticos para que garantam a todos os cidadãos “trabalho digno, educação e cuidados de saúde”.
 Sabe-se que nalguns círculos, até da própria Igreja, este tema não foi bem recebido. Aliás, o mesmo já tinha acontecido quando Francisco se insurgiu contra o aborto e a eutanásia, muitas vozes, não as mesmas, igualmente o tinham criticado duramente.
Alguns colunistas financeiros e até comentadores católicos, apologistas das doutrinas ultra liberais e da inevitabilidade dos poderosos mercados financeiros ficaram furiosos, chamando-lhe “marxista”. Eis senão, quando Francisco desconcerta -os. Decide visitar a Roménia, país onde apenas 5% são católicos. Concretiza a “caminhada” nos primeiros dias de Junho de 2019. Beatifica sete bispos romenos, mártires às mãos do regime ditatorial comunista.
Na encíclica “Todos Irmãos”, Francisco critica o individualismo do nosso tempo, que tem vindo a neutralizar a noção de bem comum, que deverá ser um dos objectivos primordiais de toda a Humanidade e faz um apelo à fraternidade, rejeitando uma certa “cultura do descarte”, que mais não faz do que retirar dignidade aos seres humanos, exemplificando com o abandono dos mais velhos, atitudes racistas, desprezo pelos miseráveis, ódio aos migrantes e aos refugiados.
Noutra passagem da encíclica, Francisco volta a incomodar e a inquietar os espíritos mais acomodados quando critica os que negam os atentados ao ambiente, os que defendem certas formas de liberalismo económico, responsável por deixar para trás os mais pobres.
 “Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência”, escreve o Papa. 
O lema da Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, adoptado por diversos povos, tem vindo a falhar ao longo dos tempos, porque deste tripé, para além de numas experiências terem dado mais enfoque na igualdade, noutros na liberdade, esqueceram sempre a fraternidade, lema agora recuperado pelo Papa.
Os igualitarismos, de que o comunismo foi exemplo, falharam. Do mesmo modo os excessos do liberalismo têm conduzido ao aumento das desigualdades e das tensões sociais e políticas. Quer num caso quer noutro, a Fraternidade esteve sempre ausente.  
A globalização está a ter como consequência, para além de todos os méritos atribuídos, o crescimento dos nacionalismos anti-emigração que começa a ter receptividade nalgum eleitorado que habitualmente votava à esquerda. 
Segundo alguns economistas, como Piketty próximo do presidente Macron, uma das razões poderá estar na incapacidade de adaptação dos partidos socialistas, sociais – democratas ou sociais cristãos a um mundo pós queda da União Soviética.
Por outro lado, está a assistir-se a duas formas de mudar a globalização. Através do nacionalismo de direita, que combate o fluxo de trabalho, daí defenderem medidas contra os emigrantes. A outra é de esquerda e de combate à livre circulação de capitais.
E acrescentam que, na Europa, por exemplo, criou-se um sistema de livre circulação de fluxo de capitais sem qualquer controlo e sem tributação comum, pelo que a tão falada e sempre adiada harmonização fiscal, se torna cada vez mais premente.
O actual sistema de tributação penaliza as classes baixas e médias, enquanto as grandes fortunas arranjam sempre forma de transferirem, num ápice, os seus rendimentos “para outro lado qualquer sem que ninguém fique a saber para onde foi parar e se pagou ou não impostos”.
Então os grupos sociais referidos, alvo de cargas fiscais insuportáveis, em revolta contra o sistema viram-se para os populistas.
Contrapondo a esta velha luta inglória entre o capital e o trabalho, atente-se uma vez mais à mensagem da Boa Nova de Jesus, pela Voz do Papa que nos interpela. Pessoas, sociedades e nações devem se abrir ao outro, reconhecer a sua dignidade, promover o perdão e a reconciliação, rejeitando individualismos, tribalismos ou nacionalismos, que levaram ao actual “mundo fechado”. E termina lembrando que as religiões são peça fundamental na construção dessa fraternidade e amizade.
Fiel à mensagem nova de Jesus e do fundamental cristão, Francisco sabe que está a afrontar os poderosos destes novos tempos, tal como Pedro e demais companheiros, o fizeram nos primeiros anos de evangelização, afrontando a maior potência daqueles tempos, o imbatível Império Romano, mas conseguiram, e três séculos passados, a Boa Nova dava os seus frutos, e todo um colosso imperial quedava-se perante a VOZ que interpelava, incomodava, inquietava e desassossegava. 

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Categorias: Opinião

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