Análise aos resultados eleitorais

Bastos e Silva diz que este mandato “não tem grandes condições para chegar ao fim”

Os resultados da noite eleitoral do passado Domingo não foram uma surpresa para Joaquim Bastos e Silva. Nem pela perda de maioria absoluta do Partido Socialista nem pela entrada de novos partidos na Assembleia Legislativa Regional. Aliás, o analista disse que era “o esperado” já que o conjunto de partidos que se apresentou a este acto eleitoral tinha como ponto de união “rejeitar expressivamente o programa político que conduziu aos piores indicadores do país, em matéria de pobreza e de educação, pondo em risco o próprio modelo social e a Autonomia”. 
Desta forma, Joaquim Bastos e Silva entende que os resultados eleitorais “não podem ser vistos como uma surpresa, porque era uma verdadeira unidade” entre os partidos para retirar a maioria absoluta ao Partido Socialista. 
E o resultado apontou para “uma clara maioria de votos nos partidos que pretendem virar a página e mudar o rumo do Governo na Região”. E neste caso “virar a página” é efectivamente a melhor expressão que se adequa à interpretação dos resultados da noite eleitoral em que o Partido Socialista perdeu a maioria absoluta elegendo 25 deputados, o Partido Social Democrata ganhou votos e elegeu 21 deputados, o CDS-PP reforçou-se e elegeu três deputados, o CHEGA entra pela primeira vez no Parlamento Regional com dois deputados, o Bloco de Esquerda também se reforçou e elegeu dois deputados, o PPM saiu reforçado também com dois deputados eleitos, o Iniciativa Liberal também conseguiu eleger um deputado assim como o PAN. 
“É muito importante falarmos nestes termos, porque não é possível a análise aos resultados eleitorais de ontem e dizer que o PS ganhou, está em minoria, mas vai formar Governo na linha do que vinha fazendo”, e interpreta o engenheiro civil e antigo governante que “se fosse mais do mesmo é desvirtuar o que se passou ontem. O que se passou ontem foi que todos os partidos disseram: “mais do mesmo “não”. 
Agora, há dois cenários. Um programa de governo minoritário é possível ser viabilizado, mas terá sempre de se adaptar à nova realidade. Joaquim Basto e Silva acredita mesmo que “por muito arrogante como tem sido nos últimos anos, não é impossível que o programa do Partido Socialista passe” na Assembleia Legislativa Regional. Há ainda outro cenário. “Neste espírito da tal maioria de deputados na Assembleia que não quer o mesmo rumo, formar-se um governo minoritário liderado pelo PSD”, explica. Ambas as soluções são possíveis. 

União à direita?
A haver uma união à direita “é possível o PSD formar um governo minoritário que tenha apoio parlamentar numa parte expressa na apresentação de um eventual programa de governo e outra parte por abstenção. Isso é possível”, à semelhança do que aconteceu em 2015 na Assembleia da República. 
Mas isso dependerá sempre de muitas coisas. Primeiro o Partido Socialista “tem de se esforçar por formar governo e conseguir fazer votar o programa de governo na Assembleia Regional. Isso depende da capacidade de diálogo, de respeitar os eleitores e de mudar o rumo. Este é o cenário A”, explica. Depois, se este cenário não vingar, tal como em 2015 no continente em que a esquerda derrubou o governo de Passos Coelhos após uma moção de rejeição. “E aqui também é possível”, refere.
E explica: “se o PS insistir no rumo que levou a estes resultados, uma rejeição do programa de  Governo obrigaria o  Parlamento a reorganizar-se num Governo a formar pelo PSD. É um cenário, mas não o primeiro. E em que o próprio PSD também tinha de reflectir. A primeira questão é a solução construtiva à volta do partido mais votado. E ver se ele próprio vai valer os resultados eleitorais. Mais do mesmo é impossível. São os próprios eleitores que queriam mudanças. Isso não teria bom sucesso. Essa leitura é essencial. Uma certa humildade que é o que tem faltado ao PS, em ver o resultado do que tem feito neste último mandato, que tem sido um desastre”. 

Aliados à esquerda?
Certo é que o Partido Socialista foi o partido mais votado, “mas com resultados muito mais abaixo dos que tiveram em 2016” e tem de interpretar também estes resultados já que “mais do mesmo e fica tudo como dantes, me parece que nem corresponderia sequer ao espírito democrático”. Referindo que em termos de legitimidade, “são sempre possíveis arranjos parlamentares que conduzam a um cenário de viabilização de um programa minoritário de governo do PS ou uma nova maioria que se forme na Assembleia, caso o PS queira insistir no rumo que nos trouxe até aqui com os resultados extraordinários, de tão maus”. 
E insistir nesse rumo não faria sentido, para o analista político. O Partido Socialista de Vasco Cordeiro pode procurar aliados políticos mas à esquerda “só encontraria dois deputados do Bloco de Esquerda”. E apenas, acredita, se houvesse influência nacional, já que o caminho do coordenador bloquista António Lima sempre foi “a fazer coro nesse sentido do mau rumo que tinha a governação socialista nos Açores”. No entanto, Bastos e Silva lembra que só dois deputados do Bloco de Esquerda “para formar maioria à esquerda não há quorum no Parlamento”. 
Há sempre a possibilidade de uma aproximação a outros partidos “que deram mais sinal que estavam disponíveis para o diálogo, como o CDS, de Artur Lima, que diz estar disposto para conversar, mas não diz com quem. E a Iniciativa Liberal”. 
Tudo é possível. Mas todos os partidos “têm de reflectir, porque não podem desvirtuar o sentido muito profundo da votação de Domingo, que foi dizer que esta linha os açorianos não querem”. 

Não vai resistir até ao fim
Bastos e Silva não tem dúvidas que a avançar um governo minoritário socialista, “este mandato não tem, à partida, grandes condições para chegar ao fim” e aponta duas razões principais. 
A primeira tem a ver com a SATA e pode ter “um efeito desastroso”. É que o Partido Socialista “conseguiu adiar mas significa uma bomba-relógio que tem entre mãos”, nomeadamente se vier a notificação de Bruxelas “para a devolução de ajudas ilegais, que pode ter um efeito que pode cessar imediatamente qualquer governo que se forme do Partido Socialista e o próprio cenário económico que se avizinha”. Um cenário “que se tentou mascarar, escondendo os números do desemprego real, mas estamos à beira de uma crise”. 
Uma crise com um cenário económico “muito preocupante, esse sim agravado pela pandemia, que está à porta e que não é fácil para uma condução de uma governação que até agora tem-se mostrado muito incompetente. Não se pode esperar que agora é que vai ser, depois de 24 anos sendo o último mandato péssimo. Penso que há aqui um início de um novo ciclo”, vaticina. 
No entanto, sem antecipar datas ou mesmo as mudanças que esse novo ciclo pode provocar. Nomeadamente a transição para um novo líder do Partido Socialista, já que este é o último mandato a que Vasco Cordeiro pode concorrer. “Como se faz a transição do PS dentro deste novo ciclo que eles contariam que fosse mais comprido, com mais um mandato, mas que agora não se sabe se chegará de facto ao fim deste mandato de quatro anos”, refere Bastos e Silva. Para o analista político e antigo governante, “haverá muitas peripécias”, até que se encontre uma solução governativa na Região.  
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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