27 de outubro de 2020

As Eleições Regionais de 2020

Os resultados eleitorais manifestados domingo passado são o espelho da nossa sociedade, caracterizada por um lado, por sete pequenas ilhas alicerçadas em transferências líquidas do exterior que nos sustentam parte do nosso quotidiano, e por outro lado nas duas ilhas com mais escala, mas também baseadas na panóplia da subsidiação nacional e comunitária de que continuamos a ser alvo.  
Baseados num modelo principal de produção de carne e leite, a que se tem anunciado agora alguns indícios de transição, sobretudo fora das ilhas maiores para a produção carne, continuamos a incidir numa produção de baixo valor acrescentado e residual com a passagem gradual do tempo a minimizar a médio prazo a pequena margem de valor acrescentado ainda existente. Nas duas ilhas maiores, também a médio prazo, todos nós iremos trilhar o mesmo caminho comum.
Passamos também a uma economia socialmente muito pouco diversificada, sobretudo no conjunto das ilhas pequenas, onde a grande generalidade dessas famílias dependem agora, no seu agregado familiar de diversos rendimentos, provenientes desde a exploração agrícola, a que se juntam pequenos trabalhos, artes e ofícios, que sobrevivem sobretudo com o apoio das câmaras municipais, e que, no seu conjunto, acabam por constituir um pecúlio que lhes regulariza uma situação familiar típica de uma baixa classe média.
O nosso primeiro pilar do modelo económico está assente na produção do leite e da carne, mas baseado na baixa produtividade e em baixo valor acrescentado e por isso precisa de reformulação urgente. O segundo pilar, o turismo, enferma dos mesmos problemas, baseado em mão de obra barata e atividades ao ar livre que felizmente só agora, começam a diversificar. As atividades marítimo-turísticas, têm grande potencial, uma vez que os Açores se encontram a meio caminho do semestre turístico das Caraíbas e do semestre turístico do mediterrâneo, e onde há muito a fazer e a explorar.
Por último, o terceiro pilar, baseado no funcionamento diário de duzentos e cinquenta mil habitantes que fazem funcionar esta pequena sociedade insular.
O próprio turismo regional pode ser uma porta aberta para o incremento das atividades de lazer, onde mercados não faltam, baseados nas ligações familiares e nas raízes que nos levam a Portugal, à Europa e ao Continente Americano. 
Mas é preciso pensar de como é possível fazer evoluir este modelo de modo a criar emprego e qualidade de vida. Temos um riquíssimo setor primário e uma paisagem esplendorosa. De que é que estamos á espera? Tragam especialistas aos Açores e façam-nos pensar em conjunto com os residentes locais sobre soluções já experimentadas noutras latitudes. Não podemos perder mais 45 anos de história coletiva em avanços e recuos sem criar valor.
Os números obtidos nestes resultados eleitorais, para além da fragmentação partidária que já era expectável, nada nos trouxe de substancialmente novo. As consequências estruturais da evolução da economia não apresentam, antes pelo contrário, resultados palpáveis, o que exige, sem tentar atrair culpas a ninguém senão a nós próprios, fazer uma reflexão humilde,  modesta tentando refletir se possível com outros protagonistas, as razões que levam a que os modelos até agora praticados não tenham funcionado. 
O que ouvimos nos diversos manifestos eleitorais, são propostas que se resumem a mais umas centenas de funcionários, ou mais algumas dezenas de novos serviços públicos a criar, e que vão apenas avolumar a percentagem daqueles que trabalham para o setor público, criando mais subemprego sobretudo para aqueles a que já estão predestinados, por razões políticas conjunturais e de fidelidade partidária. É notória a escassez de falta de novas oportunidades. Resta-nos que a esmagadora maioria do trabalho disponível e proporcionado pelo setor público, via hemiciclo, não acabe agora, uma vez que são mais os diferentes grupos políticos interessados em participar nessa gestão futura do emprego regional. Se assim for as eleições vão saber a muito pouco e entregues aos mesmos de sempre. Mas já não seria uma vitória da nova arrumação parlamentar. 

José Manuel Monteiro da Silva 
Fajã de Baixo, 
26 de outubro de 2020


 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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