Lizuarte Machado, ex-deputado regional

“Não tenho dúvidas que Vasco Cordeiro só avançará se a solução governativa for estável e benéfica para os Açores”

Fazendo um balanço do acto eleitoral, quais os principais factos a destacar?
O primeiro facto que destaco é o do acto eleitoral ter decorrido com o civismo que é típico dos açorianos. A segunda questão é a vitória do Partido Socialista, embora sem maioria absoluta, e a terceira que tem a ver com a entrada de alguns pequenos partidos no espectro parlamentar, o que sendo, por um lado uma acto normal e até de salutar na democracia, vai obrigar a muitos ajustamentos no funcionamento do próprio Parlamento já que será impossível gerir uma sessão parlamentar com o actual regimento e com a actual composição parlamentar.

Os próximos 4 anos vão ser interessantes a nível parlamentar?
Provavelmente vão ser os mais interessantes de todo o período autonómico porque, apesar de já ter havido, na legislatura de 1996 a 2000, uma maioria relativa do PS, o quadro parlamentar era muito diferente. A fragmentação era menor e os entendimentos eram mais fáceis. Esta legislatura vai ser interessante mas muito complicada.

Falando concretamente do PS. Perde a maioria absoluta e passa de 30 para 25 deputados. Pensa que o PS conseguirá reunir a maioria necessária para governar nos Açores?
Espero que sim. É evidente que são 7 vitórias consecutivas do Partido Socialista e obviamente que em alguma altura as coisas teriam de começar a mudar. Não seria sempre assim e nada é eterno. O povo é soberano e lá tem as suas razões para votar. Penso que o Partido Socialista está mais próximo de poder constituir uma governação estável nos próximos 4 anos, desde logo porque para constituir uma maioria estável basta-lhe o acordo para mais quatro deputados para passar dos 25 para os 29. O PSD precisa de oito, numa amálgama de partidos de direita e penso que alguns, como o Chega, e eventualmente outros, não entrarão numa situação de governação ou de acordos de incidência parlamentar que garantam essa governação. Por isso penso que o Partido Socialista poderá estar mais próximo.

O PS terá de procurar apoios à direita. O CDS/PP é o parceiro para essa solução?
Claro. O Partido Socialista ao longo dos anos em que tem sido Governo tem sabido relacionar-se bem tanto com a direita como com a esquerda. Até se analisarmos o número de propostas votadas na Assembleia e votadas também pelo próprio PSD, ele é muito elevado. Embora não seja desejável em circunstância alguma, por questões de regime, um acordo entre o PS e o PSD. O PS tem conseguido negociar à esquerda e à direita. Tem tido bons entendimentos com o CDS e dos quais têm resultado situações bastante favoráveis para os açorianos em várias medidas. Também teve várias situações com o Bloco de Esquerda. Não sei qual será a postura do PAN, mas antevejo uma situação um pouco mais complicada. De qualquer forma, penso que o Bloco de Esquerda não estará disponível para viabilizar ou deixar passar uma iniciativa de governo de direita. Não direi um acordo para 4 anos mas pelo menos para garantir a aprovação do programa do Governo e depois acordos de incidência parlamentar nas diferentes situações que surgirem ao longo da legislatura.

Concorda com a integração de um outro partido, como o CDS, no Governo?
Isso não sei. Sou suspeito porque tenho e tive uma relação excelente com o CDS e com o seu líder, mas do meu ponto de vista pessoal, não me pareceria mal se isso acontecesse até porque conheço a postura, fui deputado durante muitos anos com ele embora em bancadas diferentes, e a seriedade do Dr. Artur Lima e portanto isso não me espantaria nada embora pense que essa seja uma situação muito difícil.

Difícil pelo lado do PS ou do CDS/PP?
Difícil pelos dois lados. Não tanto devido aos dois lideres mas por outras razões que tem a ver com as próprias estruturas partidárias de ambos os partidos.

Pensa que o Dr. Vasco Cordeiro vai conseguir dar a volta e adaptar-se à nova realidade?
O Dr. Vasco Cordeiro é um homem de bom senso e com grande instinto político. É um homem genuinamente honesto. Não sei se vai conseguir uma situação estável, mas sei que se vai empenhar com todas as suas forças para conseguir essa estabilidade. Não tenho dúvidas nenhumas quesó avançará se a solução for verdadeiramente estável e benéfica para os Açores e para os açorianos. Em qualquer outra circunstância, e se ele não conseguir garantir estes pressupostos, não aceitará, por aquilo que eu conheço dele. 

E caso o PS não consiga alcançar esse acordo, considera que o PSD poderá assegurar essa estabilidade?
Independentemente do Chega dizer que sim ou não, consideraria verdadeiramente lamentável que um partido com o histórico do PSD, fundador, estruturante e com um papel tão relevante na nossa autonomia, fizesse um acordo com o Chega.

Um dos factos marcantes deste acto eleitoral é precisamente a entrada em força do Chega no panorama político regional. O resultado obtido pelo Chega foi uma surpresa para si?
O Chega está na moda. É um partido populista, xenófobo e racista. É lamentável que chegue ao Parlamento regional. De qualquer modo, com excepção de São Jorge, onde a votação do partido é uma votação pessoal no candidato, em todas as outras ilhas é claramente uma votação no discurso populista do líder nacional. Chegou ao Parlamento, entra em força com dois deputados e esperemos que não passe desta legislatura. Não é um partido fiável e é um partido que defende ideias que não são aceitáveis nos tempos que vivemos. 

Caso o PS não consiga assegurar essa estabilidade e a maioria para governar, considera que deveriam ser convocadas novas eleições?
Penso que é prematura colocarmos essa questão. Temos agora duas ou três semanas pela frente e só depois disso poderemos colocar outros cenários se for caso disso, mas eu penso que na Região vivemos um tempo em que, com este resultado eleitoral, os líderes partidários têm de colocar em cima da mesa a sua postura de estadistas e de defensores dos interesses públicos. Se o fizerem, é óbvio que perceberão claramente que, com esta pandemia, com esta situação económica e com todos estes problemas que estamos a viver, estarão de uma forma ou outra condenados a encontrar uma solução porque ela é imprescindível para os Açores e para os açorianos.                                                  

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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