Ana Paula Marques entende que o Executivo açoriano tem de olhar para todas as ilhas

Ex-Secretária do Trabalho defende maior proximidade dos eleitos à população e um futuro Governo com pessoas bem preparadas

A noite eleitoral de Domingo nos Açores teve muitas surpresas. O PS perdeu a maioria absoluta, o PSD subiu o seu score eleitoral e entram no hemiciclo açoriano três novas forças políticas: Chega, Iniciativa Liberal e Pessoas–Animais–Natureza (PAN). 
Ana Paula Marques, ex-Secretária Regional do Trabalho e Solidariedade Social, afastada da vida política activa, mas com grande participação em Instituições de Solidariedade Social, vê estes resultados com a naturalidade/oportunidade que a democracia oferece. “Esta é a sétima vez que o PS ganha eleições no sistema autonómico e é normal que haja algum desgaste. O programa do PS foi sufragado pelo eleitorado e o resultado eleitoral é o reflexo de um partido que já está há muito tempo no poder e com esse efeito no contexto da pandemia. Mas tenho a certeza de que o Presidente do PS-Açores, Dr. Vasco Cordeiro, sem dúvida, tem a estima dos açorianos”. 
Dos muitos argumentos que se possa encontrar para justificar a perda de votos e de mandatos por parte do PS-Açores, “e terá sido o que aconteceu em São Miguel, por ser uma ilha maior, onde há mais casos de pobreza e mais pessoas desesperadas com essa crise”, Ana Paula Marques encontra um que a “aflige muito”, designadamente a falta de proximidade com o eleitorado.
“Deve-se governar com proximidade para se ouvir as pessoas. Nalguns sectores da governabilidade vê-se um certo descuido nessa proximidade. Na actividade política deve-se ter atenção a isso. Deve-se substituir quem não está com amor à camisola, e há sempre situações de pessoas que podem estar só por questões partidárias”, por isso “há muita coisa que terá que mudar”, opina a ex-governante.
Sobre os desafios que se adivinham para a constituição de um novo Governo num cenário parlamentar multipartidário entende ser “um enorme desafio. Constituir uma assembleia com esta representatividade – que não deixa de ser interessante -, na verdade, é complexa”. 

Resultado do Chega preocupa
No quadro parlamentar saído das eleições de Domingo, o que preocupa esta professora foi o resultado do Chega. 
“Vejo com muito pesar a chegada ao elenco parlamentar da Região de um partido de extrema-direita, isso é muito mau, mas, como democrata, respeito a opinião dos nossos concidadãos”. 
Manifestou-se também surpreendida com o aumento de votos substancial que teve o Partido Social Democrata. “Suponho que isso deve-se essencialmente ao próprio estilo do líder, Dr. José Manuel Bolieiro, que é uma pessoa calma, tranquila, profundamente democrata, que fez o seu percurso com normalidade”.
No actual quadro parlamentar, em que a direita junta tem maioria parlamentar, questionada se acha possível o PSD reunir consenso para governar, chamando ao arco da Governação também o Chega, Ana Paula Marques é peremptória: “Não acredito que os partidos democráticos, como PSD, o CDS-PP e a Iniciativa Liberal dêem oportunidade à extrema-direita, a um partido xenófobo, racista, anti-democrático, que permita a constituição de um governo no panorama autonómico. Sinceramente não acredito, mas isso não quer dizer que não possa acontecer”.

PS deve formar Governo 
A inclinação da ex-governante é que o PS-Açores, vencedor das eleições, deve formar governo. “O Dr. Vasco Cordeiro é uma pessoa trabalhadora, muito próxima das pessoas, com uma grande liderança a nível regional, mas, na verdade, existem algumas fragilidades, e creio que terá de ter pessoas muito bem preparadas. Não podemos dizer que tudo correu bem, porque se assim fosse o PS teria a maioria absoluta.  Não correu bem, mas  sou de opinião de que quem ganha as eleições deve governar. Aliás, foi essa a opinião que o Dr. Vasco Cordeiro manifestou quando o Dr. António Costa, na República, constituiu Governo com a ‘gerigonça’, tendo ganho na altura o PSD [Pedro Passos Coelho]. Na altura, a opinião de Vasco Cordeiro saiu fora daquilo que dele se esperaria no plano nacional”. Com aquilo que foi a sua postura à época, Ana Paula Marques entende que “ele deve ser chamado a formar governo e, naturalmente, encontrar as parecerias importantes para que a governação se torne consistente e determinante”.
A ex-governante lembra que em tempo pandémico, numa segunda vaga da Covid-19, e com uma economia regional, nacional, europeia e mundial em recessão, o PS deve formar governo “neste tempo diferente e encontrar as parcerias necessárias que permitam levar para a frente os destinos desta Região. Evidentemente, que estas coisas são ditas assim por quem, como eu, não está na vida política activa, mas tenho a certeza de que haverá na Assembleia Regional pessoas com muita experiência política que não vão deixar haver ingovernabilidade”.
 Embora este cenário possa acontecer e termos dentro de algum tempo novas eleições, Ana Paula Marques crê que “a ter em conta as declarações quer do líder do PSD quer do CDS-PP quer ainda do Bloco de Esquerda senti que as pessoas estavam com boa vontade para encontrar saídas, claro que vão exigir naturalmente que as suas promessas ao eleitorado também sejam cumpridas. Agora está no Partido Socialista encontrar essas parcerias e governar os açorianos com alguma estabilidade. Nós já tivemos essa experiência autonómica nesse sentido [no primeiro governo socialista, com Carlos César]. O que é preciso é governar próximo das pessoas”.
A ex-governante socialista, entende que mesmo em cenários difíceis, “o PS tem neste momento a oportunidade de mostrar que ainda merece a confiança dos Açores. Esse é o grande desafio que o Dr. Vasco Cordeiro tem no PS”, antevendo, “naturalmente, uma governação muito difícil, não só pela questão da pandemia, designadamente nas questões que dizem respeito ao Serviço Regional de Saúde, e toda a gente sabe isso, como a queda da actividade económica ligada ao Turismo. Todas essas circunstâncias farão da governação, creio eu, um grande desafio. Neste momento, entendo, deve haver uma grande capacidade de todas as forças políticas para não deixar cair a democracia e para ser possível a governabilidade, não sendo uma matéria fácil”.

Saúde e Economia nas prioridades
Ana Paula Marques acredita que Vasco Cordeiro “terá a capacidade e o conhecimento para encontrar uma solução com membros de Governo com vontade de servir os açorianos e com conhecimento, experiência e profissionalismo. Sente-se actualmente que em alguns sectores há algum mal-estar e alguma instabilidade, embora seja normal em regimes democráticos, o que espero é que nesta nova complexidade governativa haja determinação e capacidade para responder a dois grandes desafios: Saúde e Economia.
 Na Saúde, há que resolver os problemas das listas de espera, porque nós temos grandes profissionais de saúde mas numa situação destas não chega. 
Na economia, há que resolver os problemas das empresas ao mesmo tempo da sustentabilidade e dar a cada ilha aquilo que elas efectivamente merecem”.
Lembra também a ex-governante que um problema grande que se coloca nos Açores é o da desertificação, “mas nestas ilhas os açorianos não são açorianos de segunda, são de primeira, e, por isso, a governação nos próximos anos tem de criar as condições de desenvolvimento e sinergias necessários para que a nossa economia ultrapasse essas dificuldades, que não são só nossas, mas temos que ultrapassar sobretudo com criatividade e proximidade para dar estabilidade aos Açores. 
Para além disso, há a questão da empresa pública - SATA - que tem de ser resolvida. “A SATA é fundamental para o desenvolvimento integral da Região e para que nos aproximemos todos mais uns dos outros e naturalmente que há problemas sérios que têm de ser resolvidos, uma vez que os nossos recursos também não são muitos”, salienta a ex-governante.
               

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