Numa leitura aos resultados das eleições regionais do dia 25 de Outubro

Patrão Neves diz que não existem condições para um governo estável nos Açores e exclui a possibilidade de um executivo do bloco central

 Correio dos Açores – Em sua opinião o que levou a que o governo do Partido Socialista perdesse a maioria absoluta?
Maria do Céu Patrão Neves – Depois de tantos anos de maioria absoluta, certamente que este resultado é interessante para um estudo sociológico. Em todo o caso, podemos acrescentar que aquilo que se verificou nas eleições legislativas regionais, segue muito a tendência do que acontece a nível nacional. Já tínhamos visto nas eleições legislativas uma multiplicação de forças políticas representadas no Parlamento nacional e, agora, acontece o mesmo na Assembleia Legislativa Regional. Por isso, há uma tendência, pois  verifica-se não apenas num maior número de partidos com assento parlamentar mas também no crescendo de alguns partidos que têm causas específicas como, por exemplo, o PAN.
Há uma atracção dos eleitores por determinadas causas, mais do que propriamente por partidos tradicionais que oferecem todo um pacote programático legislativo.
Também verificamos ainda, de acordo com a tendência nacional, um decréscimo do PCP. No nosso caso foi a não eleição de nenhum deputado por parte do PCP. Por isso, de facto, apesar de tudo, não há uma grande novidade ainda que, aqui, seja particularmente interessante verificar que um governo com maioria absoluta, muito estável, perde-a. E, neste sentido, é inevitável interpretar os dados, do ponto de vista relativo, como uma derrota do PS. Obviamente, o PS ganhou as eleições mas, do ponto de vista relativo, perdeu a maioria, que era um dos seus grandes objectivos. E, por outro lado, verificou-se uma vitória, também relativa, do PSD na medida em que tem um resultado muitíssimo interessante, sobretudo, considerando o que se vinha passando nas últimas eleições.
Tenho a impressão, mas é uma percepção minha – não tenho a fundamentação rigorosa para o dizer – que estando nós, num mundo hoje com desafios tão importantes e tão inéditos (e não estou apenas a falar da pandemia) as questões ambientais estão renovadas na sua gravidade, na sua importância. Também o facto de termos uma geração jovem que tem menos rendimento do que a geração anterior, o que é inédito nos últimos largos tempos. Portanto, nós vivemos uma realidade que tem desafios muito importantes e francamente inéditos.
O facto de surgirem agora vozes plurais, novas abordagens aos problemas, novas perspectivas, novas leituras e novas tentativas de solução, é atraente para o eleitor. Eu não creio que o eleitor tenha divergido no seu voto para estes novos partidos, porque faz confiança  num programa eleitoral sustentável e consistente em cada uma destas forças políticas. Penso é que há mais o desejo de experimentar novas soluções, acrescentar diversidade à Assembleia na expectativa que, com mais votos, com mais pluralidade, que se encontrem também novas soluções. E este desejo de inovação é muito profundo na sociedade portuguesa e também agora muito evidente na sociedade açoriana. É uma novidade de registar.

Segundo alguns observadores, a perda de maioria absoluta deveu-se muito ao desgaste governativo do executivo PS e à não identificação do eleitorado com as políticas socialistas nos últimos anos…
Eu não farei esta leitura. O PS ganhou confortavelmente as eleições. Por isso, parece-me apressada esta leitura de desgaste e de falta de confiança nas políticas que têm vindo a ser seguidas. Parece-me uma leitura francamente exagerada.
Ia muito mais para o que disse anteriormente, designadamente o desejo das pessoas terem uma lufada de ar fresco na Assembleia Legislativa, promoverem uma democracia mais saudável, com mais debate, com maior criatividade e mais imaginação na procura de soluções para os problemas que enfrentamos. Vou mais por esta leitura do que pela do desgaste do Partido Socialista, ainda que seja óbvio que um partido há décadas no governo e com maiorias absolutas sucessivas, acuse um certo desgaste. Parece-me isto perfeitamente natural.
A partir deste resultado eleitoral, quem deve, em sua opinião, formar governo? Imagina, por exemplo, uma solução de governo de direita, liderado pelo PSD/Açores?
Penso que, perante o resultado das eleições, não há uma solução governativa estável à vista. Eu não perspectivo a possibilidade de acordos de legislatura à direita ou à esquerda, uma vez que  os partidos que poderiam fazer esta congregação de número de deputados para alcançarmos uma maioria e uma estabilidade, são muito diversos. Por isso, parece-me muito difícil um acordo de legislatura. Parece-me mais provável os acordos pontuais e até um acordo, muito à semelhança do que aconteceu no Continente, ou seja uma geringonça ou à direita ou à esquerda no sentido de viabilizar uma tomada de posse, e sendo trabalhada anualmente. Há vantagens e desvantagens. Há vantagens no sentido de termos mais diálogo, mais pluralidade, um investimento muito maior na concertação. Uma maior criatividade nas ideias, um maior respeito por todos os cidadãos. Isto porque nem todos se sentiam verdadeiramente respeitados na Assembleia Legislativa, uma vez que uma maioria absoluta nem sempre tratou os deputados da oposição – que são também deputados eleitos pelos açorianos e de igual valor – com a dignidade e respeito que mereciam. E, por isto, esta nova realidade poderá conduzir a um sentimento de mais profunda representatividade de cada açoriano na Assembleia Legislativa. Nas desvantagens , diria que dificulta reformas estruturais e só espero que não venham os deputados a cair na tentação, como acontece demasiadas vezes no Parlamento nacional, de fazer mais política do que de governar porque, de facto, foram eleitos para gerir a coisa pública e não só para ficarem no diálogo, no debate político, no medir forças, na competição por audiências, em vez de tomarem decisões. E tomarem decisões concertadas e respeitadoras de todos aqueles que estão presentes na Assembleia.

Diz não vislumbrar soluções governativas estáveis a partir dos resultados das últimas eleições regionais. Põe de parte a eventualidade de criação de um bloco central que juntasse o PS e o PSD?
Olhando para a realidade regional e nacional, - e olho também para a nacional porque há uma tendência que se reflectiu também na eleição nos Açores – e não encontro nem sinais nem condições favoráveis para um bloco central. Ainda que, como é óbvio, esta seria a solução mais representativa de todos os açorianos. Mas não vejo condições para tal, como não vejo também possibilidades de acordos de legislatura só à direita ou só à esquerda. E, por isso, receio que fiquemos com uma situação menos estável ou bastante instável mesmo. Daí ter explorado já os aspectos positivos e negativos.
Mas, como sabe, eu não estou dentro da política activa, da política partidária e, por isso, estou certa de que aqueles que estão nos partidos políticos terão outras informações de que eu, efectivamente, não disponho. Como cidadã, só posso ficar satisfeita por um maior pluralismo na Assembleia Legislativa Regional e gostava também de chamar a atenção para a necessidade de respeito por todos os deputados que são eleitos.
 Ontem fiquei particularmente preocupada por haver algumas declarações de pessoas responsáveis que desvalorizam o voto no Chega como sendo de pessoas com pouca instrução. Penso que esta desvalorização é problemática porque os eleitores são todos iguais, os açorianos são todos iguais. Votem à direita, à esquerda ou ao centro, são todos iguais.
O voto vale exactamente a mesma coisa e o respeito por eles deve ser exactamente o mesmo. Quando se desvaloriza dizendo que são as pessoas com pouca instrução, realmente é uma menorização de quem votou num determinado partido político, o que não me parece saudável para a democracia. Aquilo que nós verificamos em termos nacionais é que esta desvalorização tem vindo a fazer este partido crescer. Devíamos aprender também um pouco com a experiência de outros.

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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