Fruto de uma tese de doutoramento da Universidade dos Açores

Descoberta nova levedura em uvas de Santa Maria com grande potencial económico

Correio dos Açores - Explique-nos em que contexto surge a investigação e a descoberta de uma nova levedura em uvas dos Açores. Quem esteve envolvido nesta investigação?
Ricardo Franco-Duarte (Investigador Júnior do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Universidade do Minho) - Esta investigação surgiu no âmbito de uma tese de Doutoramento, realizada num trabalho colaborativo entre a Universidade dos Açores e a Universidade do Minho. Esta tese de Doutoramento desenvolvida por João Drumonde-Neves, levou a um conhecimento maior das vinhas dos Açores, tendo daí resultado este trabalho em que se encontrou e identificou uma espécie nova de levedura, numa quinta na ilha de Santa Maria. Todo o trabalho posterior de caracterização desta nova espécie foi liderado por mim, e decorreu em colaboração com a Universidade de Ljubljana, na Eslovénia.
Eu fui o investigador principal que liderou a equipa da Universidade do Minho, o Doutor João Drumonde-Neves foi o aluno de doutoramento que desenvolveu a parte experimental (recolha das uvas nos Açores e trabalho experimental na Universidade do Minho), e a Universidade de Ljubljana ajudou-nos em todos os testes necessários à descrição de uma nova espécie.

Quando foi realizado o estudo? Em que ilhas decorreu? E como chegaram à descoberta desta nova espécie de levedura?
O trabalho agora publicado foi o culminar de um longo estudo que decorre desde 2009. Neste trabalho, amostras de uvas foram recolhidas de 33 localizações em 7 ilhas dos Açores, e 28 espécies de leveduras foram encontradas. Dentro destas identificamos uma levedura diferente de todas as outras que tinham sido identificadas até então, e, através de testes genéticos e fenotípicos, percebemos que se tratava de uma espécie nova. Esta nova espécie foi “baptizada” por Clavispora santaluciae, e deve o seu nome à quinta de Santa Luzia, localizada na Baía de São Lourenço, na ilha de Santa Maria.

Que diferenças tem esta nova espécie em relação a outras?
Esta nova espécie de levedura apresentou algumas características genéticas diferentes, em particular em regiões do genoma que são normalmente utilizadas para distinguir espécies de microorganismos, que não encontramos em nenhuma outra espécie de levedura. Para além disso, há um conjunto de testes fenotípicos, tais como crescimento numa grande variedade de fontes de carbono, testes de assimilação de fontes de azoto, crescimento a várias temperaturas, etc., que revelaram que esta espécie tinha um perfil diferente. Este conjunto de características genéticas e fenotípicas permitiu assim concluir que se tratava de uma espécie nova de levedura, não descrita até então, tendo esta descoberta sido publicada num jornal de referência, o International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology.

Abrem-se novas potencialidades com esta descoberta. Quais?
O primeiro grande potencial desta descoberta é perceber-se a grande biodiversidade existente nos ambientes vínicos dos Açores. No trabalho original encontramos uma grande diversidade de espécies de leveduras, um número que colocou este ambiente muito acima de outros ambientes vínicos explorados em todo o mundo, em termos de biodiversidade de leveduras vínicas. O facto de termos encontrado espécies nunca antes descritas, mostra que a produção de vinho nos Açores terá ainda um grande caminho de desenvolvimento pela frente, através de um possível aumento na diversidade de sabores, aromas e tipos de vinhos. A segunda grande potencialidade desta descoberta prende-se com uma particularidade importante desta nova espécie de levedura que é a sua capacidade em degradar o amido, algo que não é partilhado pela maioria das leveduras, às quais se associa geralmente uma falta de enzimas capazes de degradar o amido. Este facto poderá levar ao uso desta levedura em indústrias para produzir determinados compostos utilizando fontes de carbono alternativas à glucose que é a fonte normalmente utilizada, mas que tem um elevado custo monetário. Ainda a nível comercial poderá haver interesse em isolar desta levedura as enzimas responsáveis pela degradação do amido.

Que aplicações concretas pode ter esta descoberta?
Esta descoberta, como referido acima, poderá ter uma aplicação em indústrias produtoras de biomassa, de proteínas e de lípidos, para além da aplicação óbvia da produção de vinho e bebidas fermentativas.
A biomassa produzida por leveduras tem uma importância cada vez maior na alimentação animal e até humana, e a produção de lípidos através destes microrganismos constitui uma área em expansão, com aplicações principalmente na produção de biodiesel de forma “limpa” e amiga do ambiente, em alternativa ao processo tradicional de utilização de combustíveis fósseis.

Esta levedura apenas pode ser encontrada nas uvas dos Açores? Apenas numa ilha ou existe nas uvas de todas as ilhas?
O nosso estudo apenas encontrou esta levedura nesta localização específica. Não temos qualquer outra ocorrência em mais nenhum dos 33 locais estudados. No entanto, um trabalho mais aprofundado noutras localizações poderia encontrar mais isolados desta espécie, ou até novas espécies com novos potenciais.

Depois da descoberta desta nova espécie o que se segue? Há financiamento para o passo seguinte?
Este trabalho contou com fundos do Compete 2020, através do Feder e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O financiamento teve um propósito muito específico, que foi cumprido e, portanto não temos financiamento de momento para continuar este trabalho. Seria interessante iniciar um novo projecto, de continuidade, para aprofundar a exploração do potencial comercial desta levedura, assim como perscrutar a biodiversidade existente neste ambientes vínicos nas várias ilhas dos Açores.

E há interessados em dar continuidade a este projecto?
De momento não registámos ainda qualquer interesse em financiar a continuação deste projecto. Iremos ponderar uma candidatura a novo projecto de investigação aquando da abertura de concursos, mas a situação mais viável prender-se-á com financiamento de empresas interessadas em explorar o potencial comercial desta descoberta. Estamos abertos a isso.

Podem as uvas dos Açores vir a ser exclusivamente cultivadas para se lhes retirar apenas esta levedura?
Não poria as coisas nesses termos porque a produção de vinho é algo muito importante, quer do ponto de vista económico, como do ponto de vista cultural. Principalmente a procura de novos aromas e sabores, e a procura da relação de um novo vinho com o ambiente onde é produzido (a localização específica da casta) é algo que faz avançar a economia e a tradição de um determinado local.
Na minha opinião, o futuro passará por associar a cultura, com a investigação e com a economia, fazendo um triângulo de avanço científico e tecnológico em que, no caso dos Açores, tentamos sempre produzir novos e melhores vinhos, ao mesmo tempo que exploramos todo o potencial que as leveduras têm para, de modo natural e “limpo” produzirem muitos compostos que, de outro modo, obtemos com alto prejuízo para o ambiente e para a economia.

Quando fala no “triângulo de avanço científico e tecnológico”, não seria demasiado dispendiosa esta solução?
Não considero dispendioso porque este tipo de trabalhos é a maneira ideal de exploração de fundos. Ao financiar um único projecto de investigação e dentro do mesmo estudo, conseguimos explorar a biodiversidade de um determinado local (avanço científico), desenvolver novos vinhos com aromas e sabores melhores através do uso de novas espécies de leveduras não convencionais (avanço cultural e económico), e explorar a produção de compostos alternativos ou de compostos convencionais mas por vias alternativas através destas novas leveduras, em alternativa a métodos prejudiciais para o ambiente (avanço tecnológico e ambiental).
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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