Proximidade com doentes permitida pelo curso de medicina nos Açores “não é igualável no Continente”

Catarina Sousa Gomes, com 23 anos de idade, foi a quinta aluna do Ciclo Básico de Medicina da Universidade dos Açores a ser distinguida pelo Novo Banco dos Açores, tendo-lhe sido atribuído um cheque no valor de mil euros durante a manhã de ontem, num evento com uma plateia reduzida, e que decorreu ontem de manhã na sede deste banco, em Ponta Delgada.
Para esta jovem, que se encontra agora em Coimbra a dar continuidade aos estudos no curso de medicina (uma vez que a Universidade dos Açores assegura apenas os primeiros três anos), este é “um prémio muito importante” porque se assume como “uma valorização do nosso trabalho” e um “reconhecimento” que surge ainda “numa fase tão precoce da universidade”.
No entanto, salienta que o facto de ter sido a melhor aluna do curso também se deve aos colegas e aos professores porque, “parecendo que não, puxam-nos sempre para irmos mais longe”.
De resto, considera que a experiência nos primeiros três anos do curso da Universidade dos Açores é inigualável, sobretudo devido ao sentimento e à experiência de proximidade que a dimensão da ilha permite em relação aos utentes, quer do hospital, quer dos centros de saúde.
“A capacidade que têm aqui de nos dar uma parte prática de ensino, nomeadamente o contacto com os doentes, com o hospital e com o centro de saúde não é igualável no Continente devido ao número de alunos que existe. Cá, como somos muito menos, conseguimos mais proximidade tanto com os professores como com os doentes em grupos muito mais pequenos do que nas universidades continentais, e isso é muito bom para nós porque, para além de ser muito motivante, também se aprende muito com a prática e falando com as pessoas”, diz a Catarina Sousa Gomes. De momento, a aluna de medicina – que veio para os Açores devido à média que tinha alcançado na altura – prefere concentrar-se nos estudos e acabar o curso, não tendo ainda ideia de qual a especialidade que poderá vir a escolher mais tarde.

O reforço de pessoal docente esperado pela Universidade dos Açores

Por seu turno, o Reitor da Universidade dos Açores deixou no ar a expectativa que existe da universidade relativamente ao reforço de recursos humanos da academia, tendo em conta o plano do contrato plurianual que foi acordado este ano entre o Governo Regional, o Governo da República e a Universidade dos Açores, prevendo a contratação de pessoal docente “em áreas deficitárias” como é o caso da medicina.
“Nós contamos com a entrada em vigor deste contrato plurianual a partir de 1 de Janeiro de 2021 e, assim sendo, penso que para o ano poderemos avançar com os procedimentos concursais e ter também médicos doutorados na Universidade dos Açores a acompanhar também este curso que, como é do conhecimento geral, é um curso muito bem classificado no contexto nacional dos cursos de medicina em Portugal”, salientou João Luís Gaspar.
Caso este contrato não seja assinado, surgirá, “naturalmente, um problema”, diz o Reitor, relembrando que este acordo apenas não foi celebrado de forma mais imediata devido a toda a situação relacionada com a pandemia. “O que é certo é que já no mês de Setembro ficou fechado o texto do documento final que releva várias das questões que estavam em cima da mesa, as várias partes concordaram com o texto e penso que agora será uma questão de oportunidade para fazermos a assinatura do documento que vai levar a que a universidade, nos próximos quatro anos, beneficie do previsto no plurianual, para a instituição fundamentalmente nesta área dos recursos humanos qualificados, que é onde temos problemas ainda a resolver”, refere.

O cumprir de uma tradição
do Novo Banco dos Açores

Para Gualter Furtado, esta cerimónia, que é realizada anualmente, é sinónimo de um “acto simbólico e de um contributo para a qualidade e excelência da nossa Universidade dos Açores”, lembrando que o mesmo género de prémio é também entregue anualmente aos melhores alunos da Faculdade de Economia e Gestão da academia açoriana, sendo que neste domínio foram já premiados 11 melhores alunos.
Tendo isto em conta, o Presidente do Novo Banco dos Açores assumiu ainda que esta foi uma decisão tomada com base na importância que a Universidade dos Açores tem para “melhorar os recursos humanos” na Região, acrescentando que no próprio banco também se veio a sentir este impacto com o aumento de funcionários licenciados – a maioria deles licenciados pela Universidade dos Açores – entre os anos de 2002 e 2020.
Diz ainda que, pelo menos dos licenciados nos Açores que passam pelo Novo Banco, estes são “muito assediados por outras organizações”, uma vez que outros bancos, o Grupo Bensaude e a própria Universidade dos Açores já recrutaram antigos alunos que se encontravam a trabalhar neste banco, o que culmina “numa muito grande parceria com a Universidade dos Açores, e os Açores só têm a ganhar”.

O futuro do Novo Banco e dos Açores

No que diz respeito ao que espera a Região no futuro, devido ao contexto de incerteza que se vive actualmente devido à presença do novo coronavírus, o presidente do Novo Banco dos Açores adianta que, neste momento, não se prevê quer o despedimento, quer o fecho de unidades, ressalvando que a haver o encerramento de algum balcão será de apenas um, embora não tenha certezas.
Apesar de ter reduzido o número de colaboradores ao longo dos anos, iniciando com cerca de 110 e contando actualmente com 79 colaboradores, o banco tem “mais do dobro do movimento financeiro e teve, até hoje, dois exercícios com resultados negativos e 16 exercícios com resultados líquidos positivos”.
De momento, salienta que o banco se encontra “no terceiro trimestre com um resultado líquido positivo, embora cerca de 30% abaixo do ano passado, mas isso é normal, e resultou de uma reavaliação que estamos a fazer em todos os nossos imóveis, porque alguns deles foram avaliados há alguns anos e nós tivemos essa preocupação de os reavaliar”, diz.
Apesar disto, afirma que o Novo Banco dos Açores está preocupado com a situação económica e financeira do arquipélago, uma vez que, ao prolongar-se esta pandemia, irá também prolongar-se “a trajectória de quebra de hóspedes, de baixas ocupações e menos circulação monetária” que existe actualmente no sector do turismo, por exemplo.
“Em contra-partida, há outros sectores que começam a ter alguma animação, como foi, por exemplo, o caso da construção civil, da lavoura e da agricultura que não pararam embora tivessem problemas de escoamento de alguns produtos, sobretudo ao nível da carne, tendo alguns estrangulamentos, uma vez que a procura também está a diminuir em todo o lado, tal como o consumo”, explica ainda, deixando crer que o ano de 2021 será “muito exigente”.
“Enquanto não houver uma vacina e essa vacina não estiver testada, não estiver acessível a toda a gente, esta pandemia estará em cima da nossa cabeça. (…) Os números estão a disparar de forma assustadora e isso preocupa-nos porque a saúde é fundamental para a economia e os bancos não vivem sozinhos. Estão melhor preparados do que estavam há uns anos, têm mais capital, limparam os seus balanços, mas isso vai tudo depender do tempo que isto durar”, conclui Gualter Furtado.

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