29 de outubro de 2020

A talho de foice…

Dois num só corpo

Dentro de nós, haverá sempre dois de nós. Um, é aquele que se manifesta e rege-se pelas leis, pela ordem, e pela razão, enquanto que o outro, prima pela emoção, pelo surreal, pela desordem, e pelo desconhecido. Por vezes as pessoas acham, que somos o que elas vêem em nós, se bem que na verdade, somos quem demostramos ser pela forma como interagimos com elas, e não o que somos na realidade. Podemos apresentar uma boa figura física, bom porte e elegância, mas por dentro apenas existir o vazio. Aceitar a realidade de que, em cada um de nós existe duas pessoas, torna tudo mais fácil, sendo a maior virtude, conseguirmos ser apenas um, o que raramente acontece. O poeta, na sua loucura escreve a poesia, que na manhã seguinte o deixa surpreendido pela forma como foi capaz de transmitir pela escrita o que sente ou o que vê, certamente, porque não foi ele que escreveu aquilo, mas sim o outro eu, que existe dentro dele. Por vezes, só queremos entender, como se faz para se ser uma pessoa diferente, ou igual, ao outro, que vive dentro de nós, que ama, que sente, que chora, em vez de sermos aquele indivíduo frio e materialista. Cada um de nós, tem com toda a certeza algo, ou seja, uma atitude ou uma tarefa, onde se cruza com o outro eu. Eu, porém, confesso que quando escrevo, liberto-me. Conseguindo focar a minha mente num lugar longe e suave, entrando numa viajem, o que traduz-se numa sensação boa, que por vezes me emociona, sentido que o meu corpo deixa de existir e que ao ser transportado para uma nova dimensão, esta, concede-me paz e tranquilidade.
Antes de entendermos porque sonhamos e sentimo-nos como sendo o outro eu, faz sentido entender que sonhar é uma atividade cerebral, consciente ou não, que ocorre durante o sono, embora seja comum sonharmos acordados ao longo do dia. Certamente muitos já deram conta que, passam o dia a imaginar coisas, actos, tarefas, ações e até mesmo diálogos, noutras situações, vestindo a pele do outro eu, vivemos em silêncio a personagem que gostaríamos de ser. Havendo quem goste de sonhar e havendo quem defenda que essa atividade não permite que se tenha uma vida em pleno em todo o seu sentido. Porém, é no sonhar, e na vivência do outro eu, que todos nós crescemos e despertamos os sentidos para novas experiências, sejam elas físicas ou intelectuais. Quantas vezes ao longo da nossa vida conhecemos pessoas, que aparentemente não detinham determinados dons, ou virtudes ou até mesmo, mantinham uma postura serena e séria, e que do nada, encontrámos estas pessoas envolvidas em projetos culturais da mais variada ordem, com uma dinâmica e empenho de fazer inveja. Estas mudanças ocorrem, quando o outroeu se torna mais forte e determinado, vencendo o eu da construção básica da vida e tornando-as em pessoas felizes. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir a sua força pessoal, reconhecer o outro que coabita dentro de si, compreendê-lo e aceitá-lo. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele e não a partir do outro, e é nesta dimensão que tudo muda, umas vezes quase radical, noutras, é através de um processo passivo de ajuda e de acompanhamento.
Lidar com pessoas que só se focam em si, não é tarefa fácil, mas também não significa que não tenham dentro de si o outro eu, estarão demasiadamente agarrados a compromissos, responsabilidades, a medos e sobretudo ao que os outros possam pensar deles, e assim optam por viver em sacrifício do que viver em felicidade. Não serem quem querem ser genuinamente, converte-os em manequins, que ao jeito do freguês vão mudando de posição, até que um dia, acabam num canto de um armazém sombrio e frio. Contudo, antes de se adentrar mais especificamente no que tange às perspetivas sociológicas propriamente ditas, opta-se, por fazer uma definição abordando o tema, em que, em cada um de nós, vive dois de nós. O homem, é sem dúvida alguma, um ser eminentemente social, isto é, tem inerente em si a perpétua tendência de ser agrupar, de unir-se aos seus semelhantes, não só para lograr e atender aos fins que busca e deseja, mas também para identificar o outro eu, comparando-o com os outros, com as outras posturas, procurando incessantemente quem se encontre na mesma situação, para que, sentindo-se como um todo, aceitar o eu, e reconvertendo a sua vida em torno do que ele sempre quis ser. Merece recordar, que, para manter uma boa relação interpessoal e a sanidade mental, é preciso manter ambas as partes ativas, caminhando, interagindo, sentindo-nos acolhidos e desejados, para que a sombra que existe dentro de cada um, incorpore num todo, ou para que seja tida em conta e aproveitada as suas mais-valias, acrescentando valor á nossa existência e a quem nos rodeia.

 

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Categorias: Opinião

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