Gilberto Rodrigues, Vice-Presidente do Centro Social e Paroquial de São Roque

“O Governo não valoriza as instituições de apoio social que trabalham bem mas sim as que são suas amigas”

O Centro Social e Paroquial de São Roque está em actividade desde quando?
Estamos a completar 30 anos. As actividades todas a funcionar não tem esse tempo todo porque o Centro foi inaugurado em 92, mas já em 90 havia uma certa dinâmica para a reconstrução do primeiro edifício e até o funcionamento das duas primeiras valências que foram o Apoio ao Domicílio e uma Ludoteca.

E o senhor está desde essa época ligado ao Centro?
Sim, estou desde a formação do Centro Social de São Roque. Havia um Centro Paroquial que estava apenas ligado a actividades da Igreja, mas que tinha um edifício bastante degradado e como era necessário fazer-se aqui um trabalho na área social, a Igreja foi convidada a colaborar e aí cedeu o edifício ao Centro Social e Paroquial de São Roque para iniciarmos as actividades sociais. Juntaram-se as duas componentes: a social e a paroquial.

Actualmente quantas valências tem o Centro e quantas pessoas trabalham para este Centro?
Temos 8 valências. Estamos direccionados para a primeira infância e para os mais velhos. Para os mais novos temos a creche, o jardim de infância e a Ludoteca. Para os mais velhos temos o SAD (Serviço de Apoio ao Domicilio) e o Centro de Convívio. Temos também uma Unidade Móvel de Reabilitação que faz até o transporte de idosos para Centros de Dia que são todos fora da freguesia, não temos nenhum cá. Temos depois uma outra valência, Vida Nova, que é também para gente com mais idade. A trabalhar no Centro temos 55 pessoas. Através do nosso Centro apoiamos directamente cerca de duas centenas de pessoas. Estas são as pessoas com quem trabalhamos directamente mas evidentemente que isto tem repercussão nas famílias. Obviamente que quando temos uma criança na Ludoteca ou mesmo na Creche é evidente que é a criança a beneficiada mas não é a única. Toda a família é beneficiada ou por que os pais trabalham e precisam de ter o filho à guarda de alguém ou então tem problemas sociais, em que os pais têm muitas dificuldades em educar esse filho. Os pais até podem não trabalhar, mas tendo problemas nós temos de salvaguardar o bem estar dessas crianças.

Quais são os principais problemas sociais da freguesia de São Roque?
Os problemas sociais aqui prendem-se com a falta de emprego. Há muita gente desempregada. No entanto há muita gente ligada ao RSI, uma ajuda que já vem há mais de 20 anos e nota-se que as primeiras famílias que começaram com o RSI ainda continuam. É preciso rever esta medida e tomar outras atitudes perante esses familiares.
Acostumaram-se?
Penso que sim. Falo neste assunto com muito à vontade porque sou um dos apologistas e defensor a 100% do RSI, no entanto não quer dizer que não tenha falhas e que essas mesmas falhas não tenham de ser ultrapassadas. Eu vejo que o Governo quer manter este modelo porque há dinheiro para dar a estas pessoas e julgo que estando esta gente ligada a este programa penso que o próprio Governo utiliza isto para retirar dividendos políticos. São pessoas que estão caladas, que estão satisfeitas e portanto são clientelas seguras depois para a votação. As medidas que têm de se tomar e que deviam ser um pouco mais drásticas, não no sentido de acabar com o RSI, mas de forma a responsabilizar essas famílias para que elas façam uma mudança nas suas vidas. Isso não tem acontecido e coloco todas as culpas no Governo que implementou esta medida. Por vezes temos ideias para implementar junto dessas pessoas e não é possível concretizar porque o Governo não deixa.

A falta de emprego é no seu entender o grande problema da freguesia?
Há falta de emprego e no entanto tenho encontrado muita gente, em determinadas situações, que tem dois empregos. Como é que existem pessoas que têm o seu emprego fixo e depois fazem outros serviços, tipo part-time e aqueles que não têm emprego nunca arranjam serviço? As pessoas que estão no RSI o grande problema que vejo neles é o facto de não estarem ocupados. Não estar a trabalhar é um problema muito grave. Perdem esse ritmo de trabalho, ficam com maus hábitos e se um dia iniciam um emprego não cumprem horas, não vem a tempo e horas para o serviço, não conseguem ter um ritmo normal de trabalho porque foram muitos anos sem fazer nada. Quem fica muito tempo sem fazer nada gera comportamentos que depois não são nada agradáveis.

Durante o período de pandemia notou um aumento da pobreza e de outros problemas sociais?
Notou-se principalmente naquelas famílias que foram para o lay off e outras que ficaram mesmo desempregadas. Houve um grande aumento de dificuldades em certas famílias e algumas foram socorridas até mesmo pelo Banco Alimentar e por outros programas e instituições. Durante a pandemia aconteceu o mesmo que aconteceu nas escolas e foram suspensas as actividades. O que continuou, mas com muitos cuidados foi o serviço de apoio ao domicílio. Os idosos não deixaram de ser tratados e graças a Deus correu tudo muito bem e não tivemos grandes constrangimentos na resposta. Quando recomeçaram as actividades, e para não estar muita gente nas salas, demos prioridade aos pais que precisavam de trabalhar.

Sentiu que nessa época o Centro era mais procurado?
Houve mais procura porque o apoio que se dava às famílias sofreu um acréscimo. Temos um programa que consiste em dar um cabaz às famílias todos os meses e neste programa estão incluídas 50 famílias. Antes esse número era mais reduzido.

Voltando à pobreza, o senhor já está ligado ao sector social há 30 anos e passado este tempo continuamos com números muito maus nesse aspecto.
Penso que um dos grandes problemas no combate à pobreza é o facto de estar muita gente a tratar da pobreza. Estar muita gente não quer dizer que se esteja a fazer o melhor trabalho. Se reparar temos os Centros Paroquiais, a Cáritas, as Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Assistentes Sociais, mas não há coordenação nesses serviços. Cada um está a trabalhar para si. Além do mais se alguém estiver a fazer um trabalho com alguma coordenação por vezes vem alguém do próprio Governo que desmancha tudo. O que conta para o Governo é manter as pessoas sem passar fome, isso tem sido conseguido porque não se pode dizer que há pessoas na região a passar fome, mas que as pessoas estejam a viver na dependência do Governo. Através dos subsídios e das doações e isso é que é o grande mal. O Governo tem de entregar esta responsabilidade a uma entidade e só tem de ouvir o que essa mesma entidade diz. Enquanto o Governo se andar a meter muitas vezes nisto as coisas não vão dar certo. Trabalho muito com as assistentes sociais e muitas vezes estão a tratar de um processo de uma família e pede todos os documentos que são necessários até por exemplo para adquirir uma habitação. É um processo que leva o seu tempo e as próprias famílias colaboram pouco. Pede-se um bilhete de entidade e eles vêm entregar quando querem e entendem, outras vezes dizem que não têm e no entanto, se eles forem ter com alguém do Governo, principalmente em épocas eleitorais, é lhes resolvido o caso através da Presidência do Governo e quem fica mal até é a assistente social, porque as pessoas depois vêm dizer que quem estava a empatar o processo era assistentes social. Isso é injusto até porque tanto as assistentes sociais e as psicólogas têm aqui uma outra questão que me deixa incomodado. Trabalham no sector privado, nas IPSS como é o nosso caso, e depois também para o Instituto de Acção Social ao lado de outros profissionais da área ganhando muito menos. Isso é claramente utilização de mão de obra barata por parte do Governo.

Considera no fundo que esta situação é favorável a quem está no poder?
Exactamente. Porque são muitas as pessoas que são dependentes do Governo. Penso que uma das prioridades é manter as pessoas sem passar fome e a viverem em condições mínimas e perceber depois se as verbas que foram gastas valeram a pena ou não para a reeleição do Governo. Investe-se tanto dinheiro num projecto qualquer que se faça, mas não há depois um estudo sobre aquilo que foi feito. Nunca vem ninguém a esta instituição perguntar vocês todos os anos recebem do Governo x dinheiro, o que é que houve de bom? Se não houve resultados satisfatórios de mudar ou então dizer que acabou porque esta instituição não tem resultado. Que se explique. Estas instituições são para o Governo uma forma de ir calando as pessoas. Por outro lado, o Governo não valoriza as instituições que trabalham bem mas sim as que são suas amigas.
Pode dar exemplos?
Esta instituição já pediu há muito tempo um mini lar aqui para São Roque. Fui ter com a senhora Secretária e a resposta foi que era impossível porque esses projectos eram subsidiados pela União Europeia que já não estava vocacionada para isso. Aceitei a explicação, mas no ano passado inaugurou-se numa determinada freguesia um lar. Para São Roque não era possível mas para outro sítio é? Porque é que não se diz de vez que não se quer fazer um lar em São Roque? Temos uma casa dos sem abrigo que tem capacidade para 13 utentes mas existem muitos sem abrigo na rua, principalmente em Ponta Delgada. Queremos aumentar a nossa capacidade e de uma forma muito simples. Temos uma casa contígua aqui ao Centro Paroquial que pertence ao Governo. Já foi pedido várias vezes ao Governo que cedesse essa casa ao Centro para aumentarmos a capacidade de resposta aos sem abrigo. Era quase a custo zero porque a cozinha e a lavandaria são as mesmas que funcionam para o que já existe. Porque é que esta questão já foi colocada várias vezes a vários Directores e Secretários Regionais e não se faz nada em relação a isto?

Pensa que é por ser de outra área política?
Às vezes penso que sim. Faço estas declarações agora porque estou à vontade para fazê-las. Se fosse antes sei que seria acusado de estar a fazer campanha eleitoral. Como essa fase já passou sinto-me à vontade para dizer tudo isto. A minha colaboração com o Instituto de Açcão Social é 100% positiva, com os técnicos e com o restante pessoal, mas quando avança para cima é que o caldo fica derramado. Vai-se lá, acham os nossos projectos muito bonitos e interessantes e depois nada fazem mas vemos que fazem noutras freguesias, com a agravante de sabermos que são pessoas muito amigas do Governo. Isto funciona da seguinte maneira. Numa freguesia se na Casa do Povo ou num Centro Paroquial está alguém ligado ao Governo é para aí que vai o dinheiro. Se não for do Governo e o da Junta for é para lá que é canalizado. Por isso é que há certas freguesias em que quem manda é a Junta e noutras são os Centros. Não há uma forma igualitária para todos.

Na sua opinião qual seria a melhor forma de resolver o problema da pobreza? Foi lançado há pouco tempo um Plano Regional de Combate à Pobreza.
Esses planos são todos à base de lançar dinheiro para cima dos problemas. Quem está a trabalhar no terreno e está a apresentar projectos com alguma mais valia, poucos desses são chamados para dar opinião. Nunca se vai às instituições saber o que se está a fazer e quais os resultados obtidos e cada uma dessas instituições está a trabalhar para si. Já se tentou várias vezes fazer uma Associação de Centros Paroquiais mas foi sempre impossível.

Porquê?
Porque cada um trabalhando para si e tendo as suas ‘amizades’ é mais fácil. Se for uma Associação seria igual para todos. Por isso concordei com a nova modalidade de comparticipação das ajudas às instituições serem por utente e não aquilo que cada uma das instituições pedia o que gerava muitas discriminações.

Sente que o Centro Social e Paroquial de São Roque é reconhecido pela Junta de Freguesia, pela Câmara Municipal e pelo Governo Regional?
É reconhecido. Estes meus desabafos vão no sentido de eu querer fazer ainda mais. O que está feito está feito, mas tinha possibilidade fazer ainda mais. Na questão do mini lar tinha aqui uma questão que penso ser inovadora; fazer no mesmo edifício um centro de dia e de noite, rentabilizando os recursos humanos e técnicos. Por exemplo, uma cama que estivesse durante o dia para um utente, quando a família o viesse buscar essa mesma cama poderia ficar para a outra pessoa que fosse acolhida durante a noite.

Já está ligado há três décadas ao Centro Social e Paroquial de São Roque qual é o seu grande objectivo e a sua grande visão de futuro para este Centro?
Para o Centro, as respostas que estamos a dar são boas dentro daquilo que é possível para as crianças e para o serviço de apoio ao domicílio. Não temos listas de espera nessa vertente e nas crianças a resposta estão praticamente a 100%. Queria era aumentar outras respostas e a minha preocupação é saber que chegando a certas zonas da freguesia e ver tanta gente sem fazer nada e não há nem programas nem projectos para esta gente. A minha preocupação é ver muita gente desocupada e ver que não há melhorias nenhuma apesar de haver um RSI com pessoas que já estão na terceira geração a receber esse apoio. Devia existir uma forma de ocupar as pessoas.   


Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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