Matilhas de cães podengos abandonadas preocupam associações de defesa dos animais em São Miguel

Está a causar grande apreensão junto das associações de defesa dos animais dos Açores e mesmo entre defensores dos animais em nome individual, a detecção de matilhas de cães podengos, algumas praticamente abandonadas em lugares recendidos da ilha de São Miguel e outras a quem os seus proprietários estão a dar pouca atenção. Alguns destes defensores dos animais falam em centenas de cães podengos nestas circunstâncias. 
Além disso, estão a aparecer na rua cães abandonados e muitos deles acabam por ser entregues nos canis, agora com o nome de centros de recolha de animais.
Desde logo, estas situações ocorrem com cães que não têm chip para a sua identificação devidamente registada nas Juntas de Freguesia e com as vacinas em dia.
Muitas destas matilhas de podengos vêm do tempo em que havia grande quantidade de coelhos na ilha de São Miguel. Chegava-se a juntar mais de 20 cães em matilhas e caçava-se 30 a 40 coelhos nos matos da maior ilha açoriana.

Falta de coelhos 
e abandono dos cães

A febre hemorrágica dos coelhos que surgiu em São Miguel, uns dizem que espalhada de propósito pela ilha, outros alegam que terá sido por acidente, e quelevou ao quase desaparecimento da espécie e as designadas caçadas de dezenas de coelhos aos Domingos passaram a fazer parte do passado da caça na ilha.
Vão longe os temos em que surgiam nas freguesias as carrinhas com os coelhos pendurados, com cada grupo de caçadores a mostrar as potencialidades da sua matilha de cães e os bons ‘espingardeiros’ que tinha. Cenários que sempre foram criticados pelos amigos dos animais (que ainda não tinham grande voz) e que hoje, com a sensibilidade que existe, seriam naturalmente proibidos.
As entidades governamentais responsáveis pela caça começaram a restringir drasticamente o número de coelhos que podiam ser abatidos por caçador, chegando mesmo – como acontece agora – a limitar a caça a um número de meses muito reduzido, para que não se chegue a uma situação de extinção do coelho.
Estas restrições, consideradas necessárias pelos técnicos e por alguns caçadores, são sempre consideradas “exageradas” por outros. 
O facto é que, sem coelhos para caçar, as muitas matilhas de cães podengos que havia e ainda existem na ilha de São Miguel começaram, em muitas situações, a não merecer a atenção dos seus proprietários. Desde logo porque os podengos passaram de ‘heróis de caça’ a animais desnecessários e a sua alimentação começou a ser fornecida pelos caçadores sem que recebessem nada em troca. Isto porque os cães podengos que, para algumas famílias, são animais de estimação (e muitas vezes se vê micaelenses a passear os seus podengos); para muitos caçadores só são úteis por servirem para caçar. E, não havendo caça, começam a ser um peso inútil no orçamento familiar. 
Por isso é que se detectam, com alguma facilidade, matilhas de cães podengos em terrenos com pouco abrigo e em condições precárias, longe da casa dos seus donos. Isto porque eles deixaram de ser necessários.
Mas este abandono não se pode generalizar por todos os caçadores proprietários de cães podengos em São Miguel. Há caçadores que, mesmo fazendo um esforço orçamental, mantém os seus cães podengos em boas condições, tratando-os devidamente e dando-lhes uso sempre que a legislação permite para que mantenham o seu porte atlético, e isto sem ter qualquer retorno em termos económicos, a não ser o prazer de ver a evolução dos cães a utilizar o faro na procura de coelhos e a actuarem em matilha sempre que um deles avista uma presa. E, quando se trata de dar uso aos cães, não se pode utilizar espingarda nem forçar o abate do coelho. 
Um dos casos de uma matilha de cães podengos praticamente abandonados que está a perpassar as redes sociais e que merece a atenção das autoridades policiais, foi detectada e fotografada pelo autor do blogue ‘Pelo fim dos maus tratos aos animais, eu denuncio – Açores’, num terreno da freguesia da Candelária. A maioria destes cães, alguns dos quais surgem na foto, não estão expostos à chuva mas não têm abrigo para se esconder do vento agreste de Inverno. 

Um caso na Candelária
entre muitos...

São cães que vivem isolados, quando uma parte significativa dos caçadores tem os seus cães perto de casa. Pelas imagens, é visível que estes cães têm uma alimentação mínima mas salta logo a evidência de que não estão a ser devidamente tratados, em termos de limpeza, nem estão – como deveriam estar – em canis enquanto espaços fechados com casa-abrigo da chuva e do vento para cada um deles. 
O bloguista, depois de comentar que este “é mais um caso entre tantos outros”, faz a descrição de “vários podengos, acorrentados, sem água, sem comida a aguardar sabe-se lá o quê. Um deles carrega um grande tumor, sem qualquer acompanhamento veterinário. Carregados de moscas, que moram nos imensos dejectos por ali espalhados. As taças estavam secas e eles ali... Naquela trampa”. 
“Este é o destino de muitos animais usados por caçadores. Tratados sem um pingo de dignidade. Esquecidos. Lembrados apenas quando precisos. Já foi enviado um email à GNR - sepna a denunciar a situação mas a esperança é pouca”, lê-se no texto.
“A revolta é muita e o cansaço da irresponsabilidade e insensibilidade também”, conclui.
Face às circunstâncias, a Guarda Nacional Republicana deveria, segundo alguns defensores dos animais, fazer uma investigação sobre as condições em que estão a viver muitas matilhas de cães podengos em São Miguel. E, como dizem, “certamente, chegaria à conclusão que existem muitos cães podengos que são alvo de maus tratos, sobretudo por desleixo e falta de sensibilidade por parte dos seus proprietários”.
O que não pode acontecer, como concluem, é que a GNR “não se pode desresponsabilizar desta sua missão” e “actuar com firmeza” junto de proprietários e cães que estão ao abandono”.
                                         

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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