Rota das bandas filarmónicas da ilha de São Miguel

Filarmónicas da Fajã de Baixo e da Fajã de Cima admitem estar a passar “por tempos complicados”

Em Ponta Delgada e mais concretamente na freguesia da Fajã de Baixo encontra-se a mais jovem das bandas filarmónicas da ilha de São Miguel. Fundada em 2011, a Sociedade Recreativa Filarmónica Nossa Senhora dos Anjos teve como primeiro Presidente Aníbal Couto. Durante a quase década de existência, só nos últimos anos é que a banda da Fajã de Baixo começou a sair da sua ilha contando, tal como explica o seu actual maestro e Presidente, Luís Picanço, com deslocações “a São Jorge e a um concurso de bandas que é realizado no Faial”. 
Presentemente a Nossa Senhora dos Anjos conta com 24 música e 4 “aprendizes na escola de música”. A falta de músicos na freguesia é um dos maiores problemas da instituição, tal como explica Luís Picanço.
“A filarmónica da Fajã de Baixo é uma sociedade que será sempre difícil de trabalhar. A principal razão para isso tem a ver com o facto de termos de ir buscar músicos de fora da freguesia e até os 4 aprendizes que temos na escola de música são de fora da Fajã de Baixo”, lamenta.
O Presidente da Nossa Senhora dos Anjos conta como foram e estão a ser vividos os tempos de pandemia que obrigaram ao encerramento das actividades.
“Durante a pandemia estivemos fechados durante pouco tempo. Fomos dos últimos a fechar e dos primeiros a abrir. Começamos os ensaios em Julho e estivemos a ensaiar o hino para a nossa Padroeira e a partir daí nunca mais paramos”, destaca antes de revelar que devido à Covid-19, a banda tinha pensado uma saída da ilha que teve de ser adiada.
“Este ano estávamos para ir a São Jorge de novo, mais concretamente às Velas, mas com tudo isto da pandemia. Vamos ver se no próximo ano conseguimos concretizar uma viagem que temos já pensada para irmos às Festas de Santo Cristo na Graciosa”, conta.
No ano de 2020, onde foram realizados apenas dois serviços, a banda filarmónica da Fajã de Baixo está agora “a preparar o concerto de Natal”.
Quando o tema de conversa se direcciona para as finanças da Nossa Senhora dos Anjos, Luís Picanço admite que a banda está a atravessar por graves problemas nesta vertente e explica que uma das principais razões para isso prende-se com o facto de ser necessário pagar aos músicos.
“Na nossa banda temos dificuldades financeiras porque pagamos aos músicos. A banda não tem dinheiro este ano e eu é que tenho pago quase tudo do meu bolso”, admite o maestro e presidente da filarmónica.
Apesar de já ter recebido um apoio financeiro da Junta de Freguesia, Luís Picanço explica que isso não é suficiente.
“Recebemos a ajuda da Junta de Freguesia com a carrinha mas temos de pagar ao condutor e isso também está a sair do meu bolso”, refere.
Se o actual cenário se arrastar durante muito mais tempo, Luís Picanço admite que poderá ver-se obrigado a entregar as chaves e de encerrar as actividades da banda filarmónica da Fajão de Baixo.
“Não sei quanto mais tempo se pode aguentar assim. Se chegar o subsídio da Câmara que está previsto vou aguentar os 3 anos até ao fim do mandato, se não em Janeiro vou ter de resolver as coisas e entregar a chave. Não queria, mas não consigo aguentar tudo. Temos luz para pagar e também o condutor que é preciso pagar todas as semanas para ir buscar os músicos. Financeiramente e se não existirem subsídios não conseguimos aguentar a Filarmónica. Estamos à espera da verba do Governo Regional. Se conseguirmos ter essa verba conseguimos aguentar se não paciência”, explica.
Para além do problema financeiro com o qual se depara a Filarmónica Nossa Senhora da Oliveira, o maestro e presidente, lamenta a falta de interesse que os habitantes da freguesia de Fajã de Baixo demonstram pela banda.
“Já estou há 3 anos à frente da Banda e não consigo arranjar ninguém aqui na Freguesia que queria pegar na Filarmónica. A direcção é toda composta pelos meus familiares. Sou eu, a minha mulher e os meus filhos. Somos músicos, directores, somos tudo. Estamos a aguentar a Filarmónica da Fajã de Baixo e não somos Fajanenses. Na freguesia da Fajã de Baixo há muita falta de interesse pela instituição. Enquanto eu puder a Banda manter-se-á activa. Nunca pedi a minha demissão exactamente por ter medo que a instituição feche”, afirma Luís Picanço, Presidente da Sociedade Recreativa Filarmónica Nossa Senhora dos Anjos.

Filarmónica Lira Nossa 
Senhora da Oliveira
Ali perto, na Fajã de Cima, está sedeada a Lira Nossa Senhora da Oliveira, uma filarmónica fundada a 28 de Outubro de 1910. Nos seus 110 anos de vida, a banda da Fajã de Cima já efectou viagens a Portugal Continental e realizou viagens a outras ilhas dos Açores, como a Terceira, Santa Maria ou Pico. 
Nos dias que correm a Lira Nossa Senhora da Oliveira conta com a participação de 22 elementos e tem 3 alunos na sua escola de música. O actual Presidente da banda, Carlos Pacheco revela que os “ensaios foram retomados mais ou menos a meio do mês de Agosto e felizmente, nesse regresso não registamos nenhuma desistência”.
Carlos Pacheco admite que os tempos de encerramento das actividades devido à pandemia de Covid-19 foram complicados a nível motivacional para a banda, mas que após o regresso dos ensaios tudo foi feito para elevar o moral dos músicos.
“A motivação dos músicos está melhor. Quando nos reunimos para recomeçar apanhamos as nossas festas e fizemos um beberete para animar o pessoal que estava um pouco desanimado. Tivemos muito tempo afastados e sem tocar e nota-se que o ambiente está bom. Como não há serviços temos de animar os músicos de qualquer maneira”, explica antes de destacar a juventude da filarmónica a que preside.
“Somos uma banda muito jovem e penso até que o elemento mais velho da filarmónica é o maestro que tem 36 anos.”
Como sucedido com todas as restantes bandas filarmónicas da Região, a pandemia veio obrigar a um ‘apertar de cinto’ e muitos dos projectos e planos que antes estavam para se realizar tiveram de ser adiados.
“Este ano estávamos para comprar um novo fardamento. Já não mudamos de farda há cerca de 10 anos. Era esse o nosso plano para este ano mas infelizmente aconteceu a pandemia e tivemos de adiar essa intenção. Já estava tudo pronto, tínhamos escolhido até as cores e o tecido e foi bom não termos dado seguimento a esse investimento”. 
Sobre a vertente financeira, Carlos Pacheco revela que essa componente “está um pouco complicada”.
“Já não pagamos ao maestro há algum tempo mas felizmente ele é uma pessoa compreensível. Neste momento não entra dinheiro e apenas sai para o combustível para ir buscar músicos. Vamos andando devagarinho. Felizmente recebemos um subsídio de 2000 do Governo, da Direcção da Cultura, mas esse dinheiro vai-se embora rápido. O apoio da Câmara ainda não chegou”, revela.  
Para o Presidente da Lira Nossa Senhora da Oliveira, os apoios disponibilizados deviam ser de outra monta para que as bandas tenham condições para manter a sua actividade durante este período difícil.
“Penso que o valor dos apoios deviam ser superiores porque por exemplo e no nosso caso o maestro é que dá a escola de música, mas há outras bandas que tem professores específicos para as escolas e nesses casos esse dinheiro não chegará para suportar essas despesas”, explica.  
Relativamente ao futuro,não acredita que a filarmónica corra o risco de desparecer, apesar de admitir algum receio com o facto de, se o impedimento de actuar e realizar os seus serviços prolongar-se por muito mais tempo, poder existir alguma desmotivação por parte dos músicos.
“Não tenho receio que a banda despareça nos próximos tempos porque todos os anos recebe um subsídio monetário da Junta de Freguesia. Agora a nível de motivação e se estas restrições se mantiverem por muito mais tempo, vai ser complicado para os mais novos que poderão fugir da filarmónica. Esse é o meu grande medo”, admite Carlos Pacheco, Presidente da Filarmónica Lira Nossa Senhora da Oliveira.           
                                           

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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