Número de clientes é insuficiente para fazer face a todas as despesas fixas

Restaurante mexicano Arriba teria fechado sem os apoios do Estado e do Governo Regional

À semelhança de muitos marienses, Paulo Sousa passou a viver na ilha de São Miguel com o intuito de prosseguir estudos no ensino secundário, na Escola Secundária Domingos Rebelo, acabando depois por completar o serviço militar obrigatório e por trabalhar no mundo da aviação, que lhe permitiu conhecer melhor a cidade de Lisboa e o Algarve.
No entanto, desde cedo que se recorda de sentir o desejo de ter o seu próprio emprego e de ser capaz de assegurar o seu próprio salário no final de cada mês, ideia que acabaria por colocar em prática há cerca de 24 anos, e que resultaria na abertura do primeiro restaurante mexicano em São Miguel, o Arriba, fazendo uma parceria com uma empresária que tinha um restaurante do mesmo conceito gastronómico no Algarve.
Depois de cinco anos a explorar o conceito, Paulo Sousa acabou por vender a sua parte do negócio e por ir para a ilha Terceira, onde viveu durante vários anos, voltando apenas em 2016 para retomar o negócio e explorar o mesmo restaurante, algo que considera não ser muito comum ou “muito provável”.
Entre 2016 e os anos 90, o empresário considera que existe “uma diferença brutal” na forma como as pessoas se agarraram a este conceito gastronómico, relembrando que numa altura em que existia pouca oferta ao nível da restauração em Ponta Delgada, em que eram servidos apenas jantares e em que existia pouco turismo, chegavam a existir grandes filas de pessoas que aguardavam a sua vez para jantar “no mexicano”.
Durante os primeiros três anos do restaurante foi sempre assim, relembra, o que considera ter sido uma experiência “extraordinária” para a altura, chegando a contar com dez funcionários assíduos na casa, que depois dos jantares davam o apoio necessário àquele que era também um bar dançante.
Apesar de estar confiante nas potencialidades do negócio, no ano de 2016 tinha já consciência do trabalho que seria necessário fazer para recuperar o restaurante, tendo em conta que o país e as regiões autónomas começavam apenas então a restabelecer-se da grande crise que se iniciou em 2007 e que afectou todo o mundo.
“Foi completamente diferente. Em 2016, quando peguei novamente no negócio, tive que ir devagarinho para começarmos a recuperar, e é preciso não esquecer que a nossa recuperação de turismo e de economia é muito recente. 
Começámos a recuperar em 2016 aquilo que vinha de 2009. Em 2017 melhorou, 2018 também, 2019 então foi muito bom, mas em 2020, quando estávamos a contar com o melhor ano de sempre, veio um dos piores anos de sempre”, diz.
A par do restaurante, conta, Paulo Sousa contava também investir numa nova área em conjunto com um amigo, planeando assim começar também a oferecer um serviço de passeios turísticos, algo que “foi por terra” com a chegada imprevisível da Covid, ainda no final de 2019.
Entretanto, depois de reaberto o restaurante em Julho, o empresário adianta que o Arriba não voltou à estaca zero graças a dois factores importantes: à fidelidade dos clientes locais que continuam a procurar outras opções gastronómicas para além das convencionais mesmo em tempos de pandemia, e aos apoios que foram estabelecidos para este sector quer pelo Governo Regional dos Açores, quer pelo Governo da República, uma vez que – mesmo assim – o número de clientes não é suficiente para fazer face a todas as despesas. 
“Nós não voltámos à estaca zero, temos estado a funcionar razoavelmente porque o mexicano o Arriba não dependia totalmente do turismo. Aliás, o turismo desde que peguei no restaurante em 2016 está à volta dos 30% a 40%, no máximo, dos nossos clientes.
(…) Os locais têm-nos ajudado a manter e estamos razoáveis, mas se não fossem os apoios que apareceram pela parte do Estado central da República, bem como dos Açores, que ajudaram a fazer face a algumas despesas, já teríamos fechado”, afirma Paulo Sousa, adiantando que o encerramento poderia ter ocorrido ainda durante a pandemia.
Nestes termos, o proprietário do restaurante mexicano em causa refere-se ao lay-off, que considera essencial para ajudar a manter os postos de trabalho e a equipa de trabalho que existe, e também às linhas de crédito que, embora sejam o que permite que o restaurante esteja a funcionar, não deixou de ser uma espécie de balde de água fria por ser sinónimo de endividamento durante os próximos anos, que deveriam ser de prosperidade.

Futuro visto com “muita apreensão”

Os próximos tempos são vistos pelo próprio com “muita apreensão” por ser impossível prever o que irá acontecer no futuro, quer a curto ou a longo prazo, o que traz “medo e instabilidade, não só para mim mas também para a minha equipa de trabalho e para todos nós”, sendo apenas possível “viver um dia de cada vez”.
No entanto, apesar de não ser um factor decisivo, reconhece que o Arriba continua a beneficiar do facto de oferecer um conjunto de experiências gastronómicas diferentes daquelas que existem na ilha, contando com uma concorrência reduzida actualmente e com a curiosidade dos locais e turistas.
“Não diria que o meu lugar está seguro, mas tenho que reconhecer que o facto de ser um conceito gastronómico diferente tem ajudado. Como a maior parte das pessoas não tem viajado, e se viaja fica apenas dentro da região ou do país, claro que isso trouxe um mercado interno mais forte.
Além disso, as pessoas acabam por estar mais confinadas, ao passar muito tempo em casa, e quando saem ao fim-de-semana procuram coisas diferentes, divertir-se um pouco e o restaurante mexicano Arriba é precisamente isso. Tem sempre música latina, algum tipo de animação com shots de tequila ou com margaritas, e por isso as pessoas saem sempre alegres e contentes”, diz entre risos.
No que diz respeito aos produtos que são essenciais para manter o carácter do restaurante, Paulo Sousa refere que não tem tido problemas em ter acesso aos produtos necessários, contando com fornecedores em Lisboa e com as lojas americanas que vendem também muitos produtos hispânicos.
Em acréscimo, realça também a vantagem de poder contar com os produtos regionais, utilizando sobretudo as carnes e os queijos que “dão logo outro sabor” aos pratos confeccionados.

Verão com quebras de mais de 50%

Do Verão, regista uma quebra de mais de 50%, que atribui ao facto de os Açores não terem tido um número tão elevado de casos diagnosticados de Covid-19, como noutros países ou regiões: “Apesar de mais de 50% de quebra, o Verão foi razoável. Como não tivemos demasiados casos nos Açores, e acabámos por controlar mais ou menos a pandemia, dentro do possível, penso que as pessoas também acabaram por estar um pouco mais à vontade e acabaram por sair um pouco e aproveitar também nos restaurantes para se divertirem um pouco”.
Nos parâmetros positivos esteve o aumento da procura pelo take away, que “aumentou bastante e reflecte uma fatia maior das vendas, comparado com antes, mas que não se reflecte na experiência de gastronomia ideal.
“(O take away) sempre ajuda um pouco, embora o ideal seja que as pessoas venham ao restaurante porque é uma experiência completamente diferente, com os vinhos, com as margaritas, porque já se sabe que aí é que está uma boa fatia do lucro na restauração”, diz.
Apesar disto, estima que esta margem piore com a chegada da época baixa, salientando que espera “um mês de Novembro e de Dezembro maus”, e embora espere estar enganado, afirma preferir “esperar pelo pior” e ser surpreendido com um cenário mais positivo do que o oposto.

É ainda cedo para prever 2021

Em relação a 2021, adianta que é ainda muito cedo para pensar nas consequências que podem advir para o comércio local, mantendo apenas a certeza de que nem todos os empresários irão conseguir manter os seus negócios de pé, mesmo fora da restauração, devido à diminuição prevista no turismo.
“Nem sequer quero pensar já nisso, a incógnita é muito grande e tem que ser um dia de cada vez. Não depende só de nós, depende de toda a Europa e do país, depende de tantas coisas que não é possível fazer qualquer previsão. Resta-nos reduzir as despesas ao máximo, tanto familiares como de negócio, para aguentarmos esta tormenta neste próximo Inverno que estamos à espera que seja bastante duro.
(…) É bem provável que já estejam a fechar restaurantes e acredito que muitos façam o mesmo, mas não apenas na área da restauração, porque, quer se queira quer não, nós dependíamos muito do turismo que estava a aparecer, era a nossa galinha dos ovos de ouro”, conclui Paulo Sousa.

 

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