1 de novembro de 2020

Dos Ginetes

Em Memória do Padre Evaristo

Este Domingo recordamos de um modo particular aqueles que já partiram para uma outra dimensão da vida que a fé nos diz ser melhor do que esta que vivemos. É o primeiro de Novembro, Festa de Todos os Santos, se nos for permitido porque já nada nos é garantido de avanço, estaremos um pouco recolhidos no nosso Cemitério que cada ano neste dia o colorido das flores parece possuir o condão de aproximar os entes queridos que partiram daqueles que ainda cá estão. É talvez a forma, mesmo que tardia, para nós que ainda cá vivemos de “aliviar um pouco a consciência” do peso que nos perturba quando a mente nos transporta ao passado e reconhecemos que magoámos, que não fizemos tudo o que poderíamos ter feito e pior ainda não existe mais tempo para uma autêntica reconciliação como tanto gostaríamos. 
Escolhi este Domingo, mais uma vez, falar de um antigo Pároco desta terra, o Padre Evaristo Máximo do Couto que durante trinta e nove anos poderei muito bem dizer que foi de certo modo a figura mais conhecida dos Ginetes. Estimado por uns, odiado talvez por outros, nunca se incomodou com a forma como o julgavam. Irreverente numa época em que a desigualdade entre as várias classes sociais era bem visível nestes meios pequenos, o Padre Evaristo enfrentou todos os que se colocavam no seu caminho o que lhe causou alguns problemas pessoais.Umas vezes vencedor, outras talvez humilhado por gente que na época usufruía de um estatuto especial que felizmente desapareceu.
Apesar de alguma mesquinhez era um homem que vivia sempre muito perto deste povo pois adoptou a freguesia de Ginetes como sua. Era senhor de um caracter que muitos consideravam provocante pois se julgava necessário não hesitava em desafiar a própria autoridade na hierarquia da Igreja. Sempre esteve presente onde a freguesia de Ginetes estava presente. Há alguns anos a minha cunhada que já partiu para um mundo melhor tinha no fundo de uma velha gaveta em sua casa uma antiga foto de emigrantes dos Ginetes que no dia da partida desta terra rumo ao Canadá se fizeram fotografar com o Padre Evaristo que os acompanhou até ao local de embarque no porto de Ponta Delgada de onde seguiram rumo a Santa Maria para daí continuarem viagem de avião para terras canadianas.
No hospital era assídua a sua presença a visitar doentes dos Ginetes. Conhecia praticamente toda a gente que poderia auxiliar a promover a nossa terra. Era capaz de no mais completo anonimato intervir para solucionar o problema de um pequeno amigo, da mesma forma que também podia complicar a vida a outro aparentemente grande amigo. Era o que podemos apelidar de uma pessoa “multifacetada” que neste caso só um psicólogo é capaz de avaliar. Como acima referi foi esta terra que adoptou após tantos anos ao serviço da Paróquia dos Ginetes. Mesmo após ter cessado as suas actividades oficiais ao serviço da Igreja local em 1958, sendo substituído pelo Padre António Ferreira Leite, cá ficou a residir até ao momento da sua morte em 1966.
Uma das maiores preocupações que guardou enquanto humanamente possível foi Celebrar a Eucaristia diariamente. A determinada altura tal insistência de sua parte tornou-se num problema complicado pois não conseguia fazê-lo sem o apoio de alguém. Tinha eu nesse tempo abandonado o Seminário de Angra e a seus olhos considerava-me a pessoa indicada para o ajudar, sobretudo que as Missas eram Celebradas em Latim. Nos últimos meses repetia exactamente as palavras que eu próprio lhe sussurrava ao ouvido, incluindo as da própria Consagração da Eucaristia pois não conseguia ler o que se encontrava no Missal. Foram momentos que me marcaram e que ainda hoje tenho bem presentes na memória.
Morreu pobre apesar de as pessoas na altura o considerarem homem rico, mas na realidade nada tinha. Foi a Paróquia de Ginetes quem pagou as despesas do seu funeral. Esteve em Câmara ardente durante uma noite na Igreja dos Ginetes. O povo esteve presente nesta última homenagem ao antigo pároco. A sua partida fez-se sentir, pois apesar das várias divergências existia o que habitualmente chamamos um “amor-ódio” entre o pastor e as ovelhas. Foi sepultado numa campa como qualquer humano, sem estrutura especial. Por lá ficou no mais completo anonimato, mas sabíamos todos que lá estava.
       No final de 1970 emigrei. Quando regressei definitivamente a esta minha terra dos Ginetes em 1996 notei que infelizmente tinham utilizado a sepultura para outra família.Interiormente senti uma certa revolta porque alguém não soube respeitar a memória de um homem que apesar das maiores divergências com o povo merecia ser sempre respeitado e recordado.
De quem a culpa ou falta de sensibilidade não sei, e também já não é mais importante.
É verdade que as homenagens não se fazem nos Cemitérios, mas também aí não se apagam as memórias. Solicitei à Junta de Freguesia de Ginetes em 1998, na alturapresidida pelo sr. Gualberto Cordeiro, infelizmente também já falecido,que pelo menos colocassem uma pequena foto no local onde tinha sido sepultado o Padre Evaristo.Imediatamente aceitou a sugestão. Durante vários anos aí permaneceu intacta até que há poucos anos alguém teve a triste ideia de a fazer desaparecer não sei se por amor ou apenas por vontade de fazer mal.  Há relativamente pouco tempo num gesto de compreensão e respeito por este homem que está ligado ao passado desta terra, a Junta de Freguesia actual decidiu colocar uma bonita “placa” com a mesma foto num dos muros principais do Cemitério dos Ginetes perpetuando desta forma a imagem de alguém que ainda é recordado por muita gente mais idosa desta terra.
       Espero que permaneça por muitas décadas e que a memória do Padre Evaristo seja respeitada tal como qualquer um de nós deseja para pais, irmãos ou amigos. 
       Não é difícil conseguir, apenas que cada qual respeite os mortos tal como merecem todos os que pertencem ainda ao mundo dos vivos.

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Categorias: Opinião

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