Face a Face!... com o advogado Elias Pereira

“O Parlamento açoriano sairá das trevas em que está há décadas”


 Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores.
Luís Paulo Elias Pereira (advogado) – Em boa verdade não sei se existirá alguma identificação com os leitores, mas o dever será sempre tentar plagiar o bom cinema, isto é, suscitar questões que possam merecer alguma reflexão ou meditação.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Os percursos da vida são trilhados com muitas variáveis e condicionados pela fragilidade da condição humana. Quiçá teremos várias vidas numa vida.
Nos três segmentos que aponta, com toda a sinceridade, sou igual a muitos e diferente de outros tantos.

Como se define a nível profissional?
Como alguém consciente que a justiça não sendo absoluta deve merecer de todos uma tentativa de equidade e de equilíbrios a todos os níveis que permitam a calibragem das relações sociais.

Quais as suas responsabilidades?
As minhas responsabilidades são inerentes à profissão de advogado, que em síntese, são a defesa do Estado de direito com uma consciência cívica exigente e, por outro, colaborar com a justiça na proporção das minhas limitações.

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana?
A globalização, a revolução tecnológica e agora a pandemia modificaram os hábitos tradicionais de todos os cidadãos. Hoje, nas refeições, o pai, a mãe e os filhos às vezes estão conectados com as redes sociais e apesar de ali estarem é como não estivessem.
O distanciamento social, que não covidiano mesmo em famílias conservadoras como as açorianas, implica cada vez mais um menor diálogo e todas as emoções com ele ligadas.
A sociedade açoriana há-de adaptar-se a este novo mundo como as demais.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família tal como ontem é uma ancora emocional e afectiva que diminui os desequilíbrios sociais e muito relevante na nossa sociedade. 

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?
As relações sociais intra ou extra familiares são, desde a pré-história, susceptíveis de divergências e de tensões perfeitamente normais que resultam de diversas causas, mas a maior parte das vezes não constituem qualquer situação com relevância jurídico-social.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Nas várias vidas da nossa vida, por diversas circunstâncias-estudantis, laborais ou outras - cruzamo-nos com pessoas diferentes, com afinidades eletivas dependentes daqueles diferentes estados de alma, de inocência, de solidão ou outros. 
Creio que em todas as vidas há pessoas que, não tendo relações jus sanguinis connosco, são por vezes mais importantes que alguns elementos da nossa própria família no conceito tradicional alargado.

Reformado, mas nem tanto? Que actividades gostas de desenvolver no seu dia-a-dia?
A actividade profissional quando é sentida como uma verdadeira paixão absorve-nos totalmente e pouco tempo sobra para a manutenção da actividade física, o cinema ou a leitura.

Vê televisão? Quais os canais que mais o atraem?
Como toda a gente a televisão ainda é um meio de informação importante, pese embora menos que ontem. E sou atraído pelos canais de música, programas da natureza e informativos, mas nos últimos tempos assisto coercivamente ao Panda e ao Júnior.

Que sonhos alimentou em criança?
Já nem me lembro, mas combinando a oratória com a loucura das viagens pretendia ser padre missionário de uma religião universal.


Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho?
Claro, o Benfica. É uma das minhas grandes patologias, pelo tempo que dispenso a ver a minha equipa jogar.

 O que mais o incomoda nos outros?
A cobardia e a falta de carácter, a arrogância e a vaidade.

Que características mais admira no sexo oposto? 
A inteligência e a sensualidade.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Há vários livros de eleição que nos absorvem e que nos marcam nas nossas vidas. Há tantos, mas ocorre-me agora o “Guerra e Paz”, de Tolstoi; “As Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar; e claro as obras de Pessoa e de Eça; e a “Montanha Mágica”, de Thomas Mann.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Francamente não tenho o hábito de recolher informação nas redes sociais.

Costuma ler jornais?
Sim, claro, leio todos os jornais incluindo o vosso e faço-o muitas vezes durante a noite ou início da manhã.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Como toda a gente as viagens além de lazer são sempre uma fonte de conhecimento. Há viagens para toda a vida e sendo difícil a escolha, mas, porventura, a visita a França no bicentenário da Revolução Francesa, o seminário de uma semana sobre os jovens pobres que se realizou na Bacia do Ruhr, na Alemanha , as clássicas cidades de Nova Iorque, Londres mas também a modesta Cuba, pela especificidade política e social.
O cosmopolitismo de Istambul, o artificialismo do Dubai, o romantismo de Itália, a beleza da Croácia e do Adriático e a frieza da Rússia, o negócio de Marrocos ou a emoção e o calor do Brasil e ainda a irracionalidade Dinamarquesa e Sueca, além de outros apaixonantes lugares do mundo.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Em geral, todas as cozinhas por onde andei e como bom português os pratos preferidos são diversos, mas um cozido de porco à moda das Flores ou um feijão assado com pão de milho são a nossa melhor gastronomia açoriana.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que a pandemia tinha caído no último luar e que os açorianos seriam mais autónomas dentro da autonomia.

  Qual a máxima que o/a inspira?
“Talent de Bien Faire”, divisa do Infante D. Henrique

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Renascimento, pela iluminação das trevas, sendo certo que na nossa história ainda germina muita escuridão e que, verdadeiramente, nunca deixará de existir.

O que pensa da Política? 
Essencial para a gestão da vida em sociedade e mesmo após a modernidade com as fake news não há outra forma de convivência com paz entre os homens.

Que opinião tem sobre os políticos de hoje?
Não se pode incluir todos os políticos na mesma avaliação, como em todas as profissões, como a minha, há uns que têm melhor aptidão para o cargo que outros, e assim existem profundas diferenças o que não permite uma opinião genérica.

 Que análise faz aos resultados das eleições legislativas regionais do dia 25 de Outubro nos Açores?
Foram eleições relevantes porque a Assembleia Legislativa Regional entrou no epicentro da politica açoriana donde nunca deveria sair. A plural representação dos cidadãos enriquece a vontade colectiva e alinha-se com os novos modelos do governo ancorados com a concertação. Não vejo como instabilidade política, mas sim um período de responsabilidade para todos os dirigentes políticos, aceitando que o povo tem sempre razão.
Os ciclos políticos longos originam profunda erosão e levam a que o pragmatismo impere perante a derrogação de princípios ideológicos partidários. 

Quem deverá formar Poverno com base nos resultados eleitorais? Porquê?
A sociedade açoriana está dividida com ligeira vantagem da direita, o que poderá originar uma geringonça invertida da existente a nível nacional.
Não me parece que partidos como o PPM, CDS ou Iniciativa Liberal tenham espaço político para virarem à esquerda sob pena de serem engolidos no próximo acto eleitoral, que até poderá ser antecipado.

Que razões aponta para a implantação do CHEGA nos Açores?
O cansaço das pessoas em relação a 24 anos do mesmo partido originou uma revolta crescente e uma perda sucessiva de votos do PS acentuada desde 2012.
Na Andaluzia, desde a transição do ditador Franco, eram os socialistas quem mandavam e por paradoxo, ou talvez não, surgiu o Vox, que com o argumento anti sistémico teve uma implantação revelante em toda a região.
É preciso perceber que algumas das causas do Chega correspondem à vontade de muitos cidadãos e não só dos mais radicais anti-sistema. Porventura, seria avisado que os partidos clássicos levassem a sério algumas matérias que aquele partido defende e as submetessem a discussão pública sem o preconceito do radicalismo.

Em sua opinião qual a solução governativa que pode ser mais estável com base nos resultados eleitorais, proliferação de partidos e maioria de direita no Parlamento açoriano?
A solução mais estável é a que resultar de uma coligação não negociada taticamente, mas assente numa convergência substancial de propostas imbuídas num enquadramento politico e social que respeite os votos dos respectivos eleitores. 
Não vejo que a direita possa com coerência aliar-se ao PS, nem que o BE se possa aliar com o PSD. Creio que a solução mais razoável seria um governo maioritário com acordos parlamentares sucessivos.
O Parlamento açoriano sairá das trevas em que está há décadas.

Se desempenhasse hoje um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Sem dúvida, investia na educação, educação, educação e na cultura, muito com as poupanças com os desperdícios da Administração Pública Regional e do SPER.

Em sua opinião estamos a caminhar para uma crise económica e social sem precedentes devido à Covid-19? Quem vai sentir mais esta crise?  
Creio que todos vão sentir os impactos da crise económico-social incluindo os próprios ricos que também diminuirão os lucros.

As políticas adoptadas a Região para combater a pobreza têm sido suficientes e eficazes? Porquê?
A pobreza é um problema complexo composto por diversas variáveis, tal como a educação ou a saúde, a economia ou a solidariedade social e os números que existem nos Açores são alarmantes, mas traduzem a fragilidade da nossa economia e a nossa consciência cívica. Quando cerca de 70% da população vive com o salário mínimo regional não se pode esperar outros resultados.

Este período de pandemia travou o turismo e está a levar as empresas proprietárias de unidades hoteleiras, de agências de viagens, rent-a-car e de animação turística a situações económicas insustentáveis e mesmo a fechar as portas este Inverno. Devia-se ter pensado mais na volatilidade do turismo?  
A economia dos Açores viveu por ciclos desde a pastel, a laranja, ou a vaca, que à excepção desta última foram ao naufrágio, uma pelo vírus outra pela esperteza saloia. Apostar no turismo com intensidade e muita vez sem o planeamento desejável foi um risco tremendo que a Covid 19 atraiçoou.

Tem algo mais a acrescentar que considere interessante e/ou importante no âmbito desta entrevista?
Acrescento que não há autonomia sem cidadãos autónomos, seja profissionais liberais ou jornalistas, sejam lavradores ou pescadores.
                                                      

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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