José Bernardo, Presidente da Associação de Produtores Açorianos de Café (APAC)

Os Açores podem passar de 50 a 500 produtores de café nos próximos três anos com o apoio da empresa Delta Cafés

 O objectivo, conta José Bernardo, Presidente da APAC, passa então, mais tarde, por chegar a um acordo com a empresa portuguesa, de modo a que esta consiga vender o único café produzido, até à data, na Europa. Numa entrevista recente, Rui Miguel Nabeiro, responsável pela Delta Cafés em Portugal, afirmou que, dentro de três anos, já existirão condições para que o café açoriano possa ser comercializado em força no mercado.
Assim, tendo em conta as possibilidades existentes, tem vindo a aumentar, em todo o arquipélago, tanto o número de produtores de café, como a área utilizada para a produção do mesmo que ao longo do último ano terá, conforme indicam os números disponíveis, crescido em cerca de 40%, contando actualmente com mais de 50 produtores nas nove ilhas dos Açores.
Conforme nos conta o presidente da associação açoriana, o objectivo passa por, nos próximos anos, conseguir uma delegação em cada uma das ilhas – de forma a acompanhar mais de perto a produção que é feita em cada uma delas –, encontrando-se de momento a formalizar parcerias com associações a nível local, como aconteceu com a Associação Terra Verde, em São Miguel, para conseguir representação local.
Actualmente, o café que é produzido no arquipélago dos Açores, por ter ainda pouca expressão, é vendido essencialmente para locais, “pessoas conhecidas ou amigos” dos produtores, reservando ainda uma pequena quantia para o turista amante de café, motivando assim os produtores locais a aumentarem as suas produções.

Correio dos Açores – Em primeiro lugar, o que motivou a criação da Associação de Produtores Açorianos de Café?
José Bernardo – Criámos a Associação dos Produtores Açorianos de Café (APAC) porque, individualmente, cada um de nós produtores não teria capacidade para adquirir os equipamentos para tratar o café após a sua colheita. Pensou-se que com todos juntos seria mais fácil e, com a ajuda do Governo Regional, já adquirimos alguns equipamentos para a despolpa e descasca do café, e estamos então a dar os primeiros passos.

De que forma tem crescido a Associação?
Começámos com uma dúzia de produtores e agora temos cerca de 50 associados, mas alguns deles estão ainda numa fase muito inicial e com poucas plantas, o que significa que os produtores que têm grandes volumes de café sejam talvez metade desse número.
De salientar que há duas vertentes de café, há aquele café que já tínhamos e que continuamos a produzir e há os plantios novos que estão a crescer e que, provavelmente, dentro de dois ou três anos possamos ter uma produção três, quatro, cinco ou dez vezes maior do que a que temos agora.

A Delta Cafés comprometeu-se a ajudar até 500 produtores de café nos Açores...?
Temos uma parceria com a Delta, com o senhor Rui Miguel Nabeiro, uma pessoa por quem temos muita estima e consideração, (…) e temos uma parceria com técnicos brasileiros que já se deslocaram à ilha por duas vezes, patrocinados pela Delta. A associação está grata por isso, porque a Delta nos tem ajudado bastante.
A terceira fase desta parceria foi adiada devido ao novo coronavírus. Os técnicos estavam para vir e para fazer experimentações, ou seja, um campo de ensaios de novas variedades mais actuais que existem no Brasil e noutras partes do mundo, mas isso tem sido adiado devido às restrições do novo coronavírus.
Entretanto, temos optado por outras vias, como as conferências e a formação via internet. Recentemente tivemos uma formação, eles lá e nós aqui, onde estiveram inscritos mais de 50 produtores de café.

A Delta Cafés está a dar o know-how?
É exactamente esse know-how que nós pretendemos ter, um passo de cada vez, embora tenhamos já café torrado mas em pequenas quantidades. Neste momento, a procura é superior à oferta e nós não temos café suficiente para satisfazer a procura, por isso é que a estamos a aumentar.

Qual é o objectivo final desta parceria?
A Delta Cafés foi a primeira empresa a nível nacional e internacional que chegou ao pé de nós, e desde então tem-nos ajudado principalmente na vertente agronómica, que é aquilo que estamos a trabalhar neste momento, ou seja, a plantação, variedades, etc., e depois há a outra parte da transformação do café em que nós – associação – pretendemos transformar o nosso café e, depois, a Delta poderá vender pontualmente algum do nosso café, dentro daquilo que nós acertarmos, porque daqui até lá muita água correrá debaixo da ponte.
Até à data, a parceria com Rui Miguel Nabeiro tem funcionado bem, e pretendemos continuar nessa perspectiva.

O que diferencia o café dos Açores? 
O café dos Açores já é diferente dos outros, devido às nossas condições de solo vulcânico, às temperaturas marítimas, às brisas demasiado agrestes do mar que fustigam o café e que, às vezes, criam algum stress às plantas. Mas se, por um lado, a fustigam e dão-lhe algum stress, por outro lado, melhora as qualidades organolépticas do próprio grão em si.
Essa é uma das nossas vantagens e nós estamos a apostar num mercado especializado de café em que nos interessa a qualidade e não a quantidade. No que diz respeito à quantidade, não há possibilidade nenhuma de nós competirmos com outros produtores de café a nível mundial, está fora de hipótese.

Há diferenças no sabor do café?
Nós pretendemos criar, talvez com o apoio da Delta, um pequeno laboratório para analisarmos e determinarmos as características organolépticas e físico-químicas do café, mas isso será o próximo passo.
Neste momento, o que podemos afirmar já é que o café é muito aromático, de muito boa qualidade e diferente dos outros. E, cada vez mais, à semelhança daquilo que acontece nos vinhos, há os apreciadores de café genuíno, e esses sim, são pessoas que não se importam de pagar um preço diferenciado por produtos diferenciados, e essa é que é a nossa aposta.
(…) Há dois grandes ramos de café. O nosso café é umarábica, um café saboroso, de qualidade, de chávena, preferido pelos americanos e pelo norte da Europa, e depois há outra variedade de café, o robusta, preferida no sul da Europa e que dá aquela bica curta e forte, e que não temos cá na Região.
A variedade de café em que estamos a apostar são os arábicas, os mais procurados. No entanto, embora o café arábica seja muito saboroso, muito frutado, tem pouca cafeína. O outro, que por enquanto não temos, é um café mais áspero e amargo mas com muita cafeína. 
Pretendemos, mais tarde, ter também este café robusta para satisfazer diferentes gostos, mas, neste momento, estamos a apostar nos arábicas, cafés de qualidade.

Embora o café produzido nos Açores tenha menos cafeína, isso significa que acaba por ser mais saudável?
Exactamente. Se ter menos cafeína é, para alguns, uma desvantagem, para a grande maioria é uma vantagem.

Como justifica o interesse crescente nas plantações de café?
O interesse vem do facto de esta ser a única parte da Europa a produzir café, o que faz dele o único café produzido no Continente Europeu. E é exactamente esse o nicho de mercado que queremos explorar. 
Estamos a trabalhar afincadamente nisso, com o apoio da Delta Cafés e dos técnicos, neste momento na parte agronómica, das variedades, das plantas, etc., e posteriormente todo o processo que há depois da apanha, que tem os seus segredos e as suas técnicas para preparar o café para o consumidor final.
(…) Estamos a aumentar não só o número de associados interessados na produção de café, como também a área de cada produtor. (…) A APAC tem âmbito regional e já temos associados em todas as ilhas. Foi criada na ilha Terceira mas é de cariz regional, temos produtores de café em todas as ilhas, embora algumas delas ainda não estejam a produzir, já temos café em todas as ilhas.

E no que diz respeito ao processo após a apanha, este é feito todo na mesma ilha?
De momento o núcleo central está todo na ilha Terceira, mas já temos sócios em todas as ilhas. O que está preconizado é que esses nossos associados, depois da apanha do café, o sequem e que depois o mandem para a Terceira. 
Aí será descascado, torrado e vendido ou devolvido ao produtor, como ele assim o entender, e mais tarde, com a anuência do Secretário Regional da Agricultura, sempre que cada uma das ilhas justifique nós criaremos um núcleo com os equipamentos para preparação do café em cada uma dessas ilhas. Mas primeiro é preciso que haja quantidade suficiente de café que justifique esse investimento.
Neste momento este investimento está a ser implantado como piloto aqui na Terceira, mas o objectivo é criar delegações em todas as ilhas dos Açores. Até na ilha do Corvo já temos dois produtores de café.

Quem compra hoje o café?
O café que actualmente existe é para consumo local e vende-se a pessoas conhecidas e a amigos que vêm aqui e que querem, ou ao turismo, mas é muito pouca a quantidade de café. Infelizmente, ainda não temos café suficiente para satisfazer a procura.

Actualmente estão em algum tipo de negociações com a Associação Terra Verde?
Como já disse, pretendemos criar delegações em todas as ilhas, e como neste momento ainda não temos delegação na ilha de São Miguel, houve um acordo verbal com a Associação Terra Verde para que ela nos represente temporariamente até nós criarmos uma delegação em São Miguel. 
Enquanto não houver essa delegação da APAC em São Miguel, é a Terra Verde que nos representa. A grande maioria dos produtores ainda está na Terceira, depois temos São Jorge que tem já uma produção significativa, e depois temos as outras ilhas. Sei que nas Flores há um ou dois produtores em grande escala, com 2 mil plantas de café.

Quais os maiores desafios que existem na produção de café em concreto?
Tenho plantas de café com mais de 40 anos e que continuam produtivas. A produção dá-se uma vez por ano, embora com algumas desvantagens porque a colheita não é uniforme, ou seja, o café não amadurece todo ao mesmo tempo.
No meu caso em particular, começo a apanhar café em Março e vou até Junho ou Julho. Se por um lado não é conveniente devido ao aumento da mão-de-obra, por outro lado tenho café a amadurecer em diferentes fases do ano, o que me permite ter um leque mais alargado de café novo a entrar no mercado.
Mas em termos de mão-de-obra é mais difícil, porque como pretendemos ter café de qualidade, a colheita tem que ser manual e de grão a grão, não podemos apanhar os grãos que não estão maduros.
                                            

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