Cláudia Cunha, naturopata e especialista em nutrição

“Comer mais do que vem da nossa terra e menos do que vem de uma fábrica é o princípio para sermos mais saudáveis”

Foi há cerca de 12 anos que Cláudia Cunha decidiu aplicar na sua vida quotidiana um pensamento que sempre a acompanhou desde criança, deixando assim, em alguns meses, de comer qualquer produto de origem animal e manter, até hoje, uma dieta à base de plantas.
Assim, ao sair dos Açores para estudar e viver em Lisboa, seguindo depois para Londres, a naturopata especialista em nutrição, hoje com 33 anos de idade, conseguiu iniciar a sua transição para o vegetarianismo (diferente de veganismo), deixando assim de procurar talhos ou peixarias na grande cidade.
“Comi algumas vezes camarão e lulas, mas era só isso e legumes. Até que dois meses depois, fui a um aniversário onde me ofereceram arroz de frango, e percebi que era incapaz de o comer. A partir daí decidi não comer mais nenhum animal, pois nessa altura já tinha mais informação sobre o vegetarianismo”, conta.
No seu corpo, apenas um mês depois de começar a cortar com os produtos de origem animal, as mudanças foram incríveis, conforme conta, pois sentia-se “mais leve, mais sorridente, mais positiva e cheia de energia pela manhã, como se já não precisasse de dormir tantas horas para ter um sono reparador”.
Estas mudanças positivas que ocorrem, por norma, em quem opta por se alimentar à base de plantas, explica a especialista em nutrição e naturoparia, ocorrem porque “as plantas são ricas em antioxidantes, vitaminas e minerais”, sem esquecer também as capacidades medicinais de cada planta.
“É curioso de se ver como os alimentos em geral se assemelham a partes do nosso corpo, quase que como uma mensagem divina para nos avisar de como estes poderiam ser beneficiais. O exemplo das nozes - têm a forma de um cérebro e, realmente, por serem ricas em Omega 3, são óptimas para o nosso cérebro; o tomate - que quando cortamos ao meio, é o desenho perfeito das cavidades do nosso coração e é rico em licopeno que, sabemos hoje, pode ajudar a reduzir os factores de risco de doenças cardiovasculares. Comecem a reparar na cenoura como se assemelha a um olho; feijões semelhantes aos rins; abacate ao útero, aipo aos ossos, entre outros”, diz.
Entre as razões que levam a que o veganismo seja algo perante o qual ainda existe alguma resistência, Cláudia Cunha, recuando até aos dias em que ainda comia produtos de origem animal, salienta que existem várias, incluindo uma que é particularmente inconsciente.
“Entre a pressão social; a vergonha de ser diferente; os mitos da possibilidade de ser nocivo; o não haver muitas opções fora de casa; e a razão que só descobri depois de estudar nutrição: uma proteína existente nos lacticínios, a caseína, que é viciante. Isto claro, deixa-nos com pouca vontade de fazer qualquer mudança alimentar, principalmente no que toca a lacticínios”, explica a naturopata.
Assim, tendo em conta os estudos que existem sobre esta matéria, Cláudia Cunha refere que a indústria alimentar arranjou uma forma de adicionar caseína (ou seja, leite em pó) nos derivados de leite e em certos alimentos, “com o intuito de levar os consumidores a querem mais e mais”.
Um bom exemplo, segundo conta, é o facto “de alguns fabricantes de batatas fritas de pacote, batatas pré-fritas, puré de batata, barras de cereais, sopas instantâneas, começarem a adicionar leite em pó nos ingredientes das mesmas”.
Neste sentido, tendo em conta a oferta de alimentos mais saudáveis e a forma como funcionava a indústria alimentar anteriormente, a naturopata refere que dar “um passo atrás é, na realidade, dar um passo à frente, e comer mais do que vem da nossa terra e menos do que vem de uma fábrica, é o princípio para estarmos mais ligados à nossa essência e sermos mais saudáveis”, refere.

Aspectos a ter em conta na mudança

Para aqueles que desejam começar uma alimentação à base de plantas, a naturopata especialista também em nutrição avança que é importante, em primeiro lugar, que as pessoas vigiem o seu organismo, por intermédio de análises clínicas, durante pelo menos os primeiros dois anos.
“Diria que uma forma de ir monitorizando seria, apenas nos primeiros dois anos, fazer testes à Ferritina, Vitamina D e Vitamina B12 a cada seis meses, de forma a conhecer o seu corpo e necessidades e, já agora, testar o colesterol total e LDL e notar como os níveis descem rapidamente”, diz Cláudia Cunha salientando que, no seu caso específico, já se passaram 11 anos sem que tenha tido qualquer défice de nutrientes.
Para além desta monitorização, a especialista afirma que é importante que as pessoas procurem consultar informação actualizada, “quer seja visitar sites veganos, ver receitas no Youtube, ou até mesmo tornar-se membro de um grupo vegano no Facebook, são algumas formas de aprender mais sobre o estilo de vida e estilo de alimentação. 
Para além disto, “Forks over knifes”, “EARTHLINGS”, “What the Health”, “THE GAME CHANGERS” são apenas alguns documentários enunciados pela nossa entrevistada e que podem ajudar a obter mais informação sobre este assunto.
Em acréscimo, é ainda importante que as pessoas evitem alimentar-se “apenas de açúcar processado e carboidratos simples, uma vez que o veganismo para ser saudável deve também ser uma “dieta equilibrada e variada”, na qual se comerá mais do que “apenas arroz branco e tofu”, algo que a longo prazo “traria bastantes carências nutricionais”, explica Cláudia Cunha, tal como aconteceria se alguém com uma dieta omnívora se alimentasse durante muito tempo apenas com arroz ou frango, diz ainda.
Aliás, um dos preconceitos que mais frequentemente existe em relação às dietas à base de plantas prende-se, precisamente, na ideia de que não existem combinações suficientes para tornar este regime alimentar diversificado o suficiente para evitar carências nutricionais ou aborrecimentos, no entanto, Cláudia Cunha explica que as carências nutricionais não dependem apenas do tipo de dieta que é feita, mas sim da variedade de alimentos ingeridos. Quanto ao resto, apenas é necessário dar asas à criatividade na cozinha.
“Este é um dos mitos, e quase ofensivo para quem segue uma dieta à base de plantas. (…) A verdade é que quando decidimos ter uma alimentação à base de plantas, temos de dar vida ao nosso “bichinho criativo”. 
Se pesquisarem “comida vegana” no google-imagens, vão aparecer nada mais do que milhares de comidas diferentes que nem nunca imaginaríamos. “Comida linda” é um termo muito usado pelos veganos, devido às cores e criatividade com que os pratos são decorados, com folhas e até flores comestíveis”, diz.
Contudo, é claro que existem fontes mais ricas de certos nutrientes, explicando por isso que apesar de a proteína existir em todos os alimentos, “a proteína de origem vegetal existe em maiores quantidades nas leguminas, nozes e sementes; ferro e cálcio estão mais presentes nas leguminosas e verduras, na nossa couve-galega e espinafres. 
Quanto à Vitamina B12, a naturopata afirma que esta pode encontrar-se “em comidas fermentadas, tempeh, algas e alimentos enriquecidos, como alguns cereais e leites vegetais”, e que a suplementação “normalmente só é necessária se houver sintomas de deficiência de algum ou mais destes nutrientes e após análises feitas, um profissional de saúde saberá que doses serão as adequadas para o indivíduo em questão”. 
Explicando um pouco daquele que é o seu trabalho, Cláudia Cunha refere que este passa por “analisar um indivíduo como um todo”, e que os tratamentos de medicina natural/alternativa utilizados destinam-se a atenuar os efeitos de problemas como stress crónico, depressão, ansiedade e insônia, bem como problemas hormonais ou de fertilidade, diabetes, artrite, fibromialgia, asma e outras.
Ao longo dos anos, conta, trocando experiências com outros naturopatas e nutricionistas, Cláudia Cunha refere que é possível constatar que “as patologias mais incidentes em indivíduos com dieta omnívora, seriam diabetes; asma e alergias; infertilidade e doenças cardiovasculares”.
De momento, refere, são “milhares os estudos feitos e que comprovam o impacto degradante, que os lacticínios têm nos vários sistemas do corpo”, salientando também que são muitos os doentes “recuperados destas e de outras patologias devido a uma dieta vegana”, salientando que estes devem sempre ser acompanhados por médicos e nutricionistas, por mais fortes que sejam os indícios de que uma alimentação rica em carnes é também sinónimo de doenças cardiovasculares.
Joana Medeiros

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