Nuno Silva, responsável pelo projecto “Luvas pela vida” em São Roque

Nuno Silva, responsável pelo projecto “Luvas pela vida” em São Roque

Com pouco mais cinco meses de existência este clube de boxe situado na antiga sede da banda filarmónica da freguesia de São Roque, em Ponta Delgada, é responsabilidade de Nuno Silva, praticante de artes marciais e desportos de combate desde os 9 anos, que começa por explicar como surgiu este interesse na sua vida
“Podia ter sido futebol ou outra coisa qualquer mas na altura o meu pai colocou-me no karaté e a partir daí dediquei-me sempre às artes marciais. Comecei pelo karaté, depois estive no kickboxing muitos anos, nos Arrifes”, conta. 
Mais tarde decidiu abrir uma associação de desportos de combates, “no geral e não tinha assim nada específico, mas como sempre gostei do boxe, este ano fui ao continente no início do ano e fiz o curso de treinador de boxe, Grau I do IPDJ. Abri o primeiro clube de boxe dos Açores”, lembra com orgulho. 
Depois da fundação da Associação em 2017, só em Junho deste ano é que foi aberto oficialmente o clube de boxe. Nuno Silva revela o que levou à criação do clube e quais os principais objectivos por detrás deste projecto.
“Em São Roque implementamos o “Luvas para a Vida”. Um projecto onde os jovens dos 9 aos 18 anos não pagam mensalidade e treinam gratuitamente. Foi uma forma de ocupar as crianças, digamos assim. São Roque é uma zona um pouco complicada e, infelizmente, com toxicodependência e tudo o mais. Por isso é que decidimos instalar o clube mesmo virado para a formação infantil”, afirma.
Apesar de ainda estarem numa fase inicial, o responsável por este clube de boxe refere que as actividades têm tido uma grande procura por parte das crianças.
“Damos aulas às crianças às segundas, quartas e sextas sempre ao fim do dia, das 18h30 às 19h30. Temos um grupo de 15 crianças a treinar, quase todas elas de São Roque que tem entre os 9 e os 17 anos”, destaca.
Nuno Silva conta igualmente o que os mais novos procuram quando entram no clube pela primeira vez e explica os métodos que são aplicados nos treinos.
“Elas querem dar porrada (risos). À partida é isso que elas querem. Pensam que o boxe é para dar porrada e o boxe não é isso. Tentamos ensinar às crianças que o boxe não é agressivo, é um jogo. Tem de se pensar muito bem antes de atacar e principalmente é preciso respeitar o adversário, os colegas, o treinador e o espaço em si. É isso que lhes tentamos ensinar”, realça o treinador para depois especificar a metodologia de treino que é direccionada para as cerca de 15 crianças que frequentam o espaço.
“Vamos fazendo algumas actividades e no boxe infantil fazemos muitos jogos com a intenção de eles interagirem entre si. Para eles rirem e divertirem-se. Fazemos muitos jogos que depois têm transferência paro o boxe, mesmo ao nível de movimento para depois se poderem aplicar nos próprios movimentos do boxe. Depois também temos a outra parte de treinar no saco, os socos, as combinações e os deslocamentos”, explica, confessando que já se vislumbram “muitos diamantes em bruto que precisam de ser limados” nesta modalidade. 
Nuno Silva realça igualmente que apesar da disciplina e o respeito serem algumas das principais características do boxe, é preciso enquadrar estas questões quando estamos a falar de “crianças com 9 e 10 anos onde é normal que a disciplina para o boxe não seja tão rigorosa. Eles estão no boxe para se divertirem, para se ocuparem e para desenvolverem também a parte física. Mesmo assim penso que alguns deles já começam a disciplinar-se e direccionar-se para a modalidade. Chegam a tempo e horas, começam a organizar o seu equipamento de treino como a água e as luvas de boxe. Vão ganhando interesse e depois começam a dedicar-se para poderem mostrar aos outros que já sabem fazer um directo, um uppercut ou um cruzado”.
Para além das crianças, a Lion Gate Boxing Academy tem também atletas na idade da adolescência (duas raparigas e dois rapazes) a quem lhes é transmitida “uma mensagem de persistência”.
“Nada é fácil e só com trabalho e dedicação é que se conseguem as coisas (…) A pré adolescência é uma fase complicada porque começa-se com as drogas leves e com os cigarros. É também uma idade em que eles ao treinarem com os adultos e verem o que esses adultos fazem, também os leva a dedicarem-se e a mentalizarem-se que o caminho certo é aquele. Trabalhar, ser honesto, ser persistente, ter confiança naquilo que faz e não se deixar levar por maus caminhos”, afirma.
Nuno Silva resume em poucas palavras o sentido deste projecto destacando o papel social que entende estar por detrás do mesmo.
“Em vez de andarem na rua nos maus caminhos oferecemos umas luvas para eles usarem. O “Luvas para a Vida” é um projecto de combatividade contra a exclusão social. Queremos que eles sejam combativos tanto no boxe como na sua vida pessoal”, realça. 
A dar os primeiros passos desde Junho deste ano, o responsável pela Lion Gate Boxing Academy admite que este é um projeto em que “praticamente todo o material que lá está saiu do meu bolso. Temos a mensalidade que os adultos pagam, que não é muito, mas já da para ir pagando algumas despesas e ir comprando material”. Para além da necessidade de material de treino para todos os escalões, Nuno Silva admite que mesmo em termos de espaço este já começa a ser pequeno para a crescente procura do clube de boxe.
“Também começamos a ficar com pouco espaço. Devido às restrições por causa do COVID começa a ficar apertado e já temos 3 aulas por dia em horas diferentes. Precisávamos de um espaço diferente mas sabemos que é difícil e não existem assim espaços muito grandes. Estamos a começar, estamos com a formação e só para o ano é que vamos mostrar o nosso trabalho através da realização de torneios e de competições”, adianta, explicando também que ao contrário do que muitas vezes se pensa, o boxe é uma modalidade segura.
“No boxe olímpico, que é a nossa área da formação, são 3 assaltos de 3 minutos onde os atletas usam capacete, bocal e protecções quando combatem. Para também não falar de um árbitro que pode interromper a qualquer momento quando considerar que a segurança e a saúde dos atletas possam estar a ser postas em causa. É uma modalidade clássica onde os atletas se cumprimentam entre si e onde há sempre muito respeito”, realça.
Questionado sobre qual é o seu grande sonho para este clube, Nuno Silva afirma que, para além da vertente do sucesso desportivo, tem a pretensão que este clube seja uma ‘escola de vida’ que encaminhe os mais jovens para boas escolhas pessoais no futuro
“O grande objectivo é que daqui a um, dois ou três anos, ver todos, crianças, jovens e adultos, terem sucesso desportivo. Vê-los a participar em torneios e conhecerem outros mundos e outras pessoas. Vê-los daqui a uns anos a terminar os seus estudos e a entrarem na vida profissional. É isso que nos interessa, ver o sucesso das pessoas tanto a nível desportivo como a nível pessoal”, afirma Nuno Silva, treinador da Lion Gate Boxing Academy, em São Roque.        

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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