3 de novembro de 2020

Futuro incerto

Começo este trabalho com uma rectificação. Provavelmente, os meus hipotéticos leitores notaram que o título do meu último trabalho – Mais do Mesmo  – não condizia com o desenvolvimento do texto. 
Foi um lapso na paginação do jornal que deveria ter sido rectificado. O título correcto da minha colaboração da passada semana é Mudar de Rumo. Pelo facto, embora alheio, peço desculpas aos leitores.
Vamos então ao que me proponho analisar esta semana que é, como que uma continuação do que escrevi a passada semana. 
Passadas que estão as eleições é tempo de conseguir consensos quer à esquerda quer à direita. Em boa verdade, o povo já estava farto de tanta arrogância por parte do PS tanto na assembleia como no governo. 
Contudo, foi o PS que teve mais deputados eleitos, graças à disparidade do número de deputados das ilhas mais pequenas que, quanto a mim, distorce a realidade representativa.
Porém, lá se foi a tão desejada maioria absoluta!
Nos mandatos em que o PS teve maioria absoluta, mesmo que algumas vezes se meter pelos olhos dentro que a oposição tinha razão, a atitude, tanto do governo como do seu grupo parlamentar na Assembleia Legislativa Regional era de negar tal facto e argumentar qualquer coisa, nem que fosse a falta de oportunidade, naquele preciso momento, para se discutir a matéria.
Quando tomava conhecimento de tais factos através dos O.C.S. pensava para comigo:- bolas, isto já chateia! E lembrava-me logo da estória do soldado com o passo trocado e da sua mãe a dizer: só o meu filho vai com o passo certo…!
Evidentemente que, quem formar o próximo governo, seja o PS seja o PSD, vai ter que possuir uma enorme elasticidade de cintura, se não quiser cair daqui a poucos meses provocando, em consequência, novas eleições regionais.
Mas, ainda bem que isto está assim porque irá pôr a democracia a funcionar; todavia, espera-se que os pequenos partidos tenham o discernimento suficiente para saber separar aquilo que é útil e necessário para a Região daquilo que, como tem sido opção do PS até aqui, fazer as coisas com a mania das grandezas.
Por outro lado, penso absolutamente necessário fazer uma limpeza geral na organização das empresas públicas, eliminando aquelas que são absolutamente dispensáveis, porque improdutivas e repetitivas do que deveriam ser atribuições das direcções regionais e cuja criação só serviu para alojar os boys partidários. 
Julgo também que vai ser absolutamente necessário repensar os investimentos em curso, e a efectuar, observando o princípio do útil e necessário se sobrepor ao supérfluo.
Diz o povo que o óptimo é inimigo do bom. Optemos por fazer as coisas bem, sem megalomanias e “obras de regime”.
Na esfera estritamente política, quem vier a governar esta Região tem a obrigação de reivindicar a Lisboa o fim da obrigatoriedade de obedecer às leis gerais da república que distorcem, por completo, o sentido da autonomia.
Para mim, foi doloroso ver como estamos, politicamente, cada vez mais integrados no rectângulo português. Nunca vi, como nesta campanha eleitoral, tantos atropelos à autonomia.
Para além de se permitir candidatos à Assembleia Legislativa Regional que não residem na Região, o que para mim é um ultraje, chega-se ao ponto de ser os líderes partidários nacionais a se pronunciar, publicamente, sobre a possibilidade dos líderes regionais dos seus partidos fazerem, ou não, coligações à direita ou à esquerda nesta Região.
Não caberá aos líderes regionais falar à comunicação social sobre estas matérias?
Pelo que me é dado observar, já não se diferenciam os partidos que actuam nos Açôres, dos partidos que actuam no Minho ou no Algarve. Para os líderes nacionais, as extensões partidárias das suas forças políticas são todas iguais, não reconhecendo, aos Açôres e à Madeira a diferença e a força para decidirem por si próprios. Será este o conceito que têm da autonomia?
Pelo que atrás referi, considero que os Açôres têm um futuro incerto, e não vislumbro gente com coragem suficiente para se manifestar publicamente contra as prepotências que “paulatinamente” vão acontecendo com o assentimento dos políticos locais.
O princípio de libertação das amarras a Lisboa pelo qual, há mais de 40 anos, me arrisquei apanhar 22 anos de cadeia, tem vindo, de ano para ano, a ser substituído pela anuência sistemática às leis gerais da república.
É uma constatação que muito me penaliza!
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
1 de Novembro de 2020  
 

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Categorias: Opinião

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