Hoje é o Dia da Consciencialização do Stress

Saber lidar com o stress torna as pessoas “mais resistentes e resilientes perante os novos desafios”, explica o neuropsicólogo João Ribeira

Correio dos Açores - Para começar, como podemos definir o conceito de “stress”?
 João Ribeira, neuropsicólogo - Stress é, essencialmente, uma resposta neurofisiológica a uma situação na qual, por diversos motivos, sentimos que não temos as ferramentas necessárias para lidar com um determinado desafio que a vida nos coloca.

Que formas pode o stress assumir nas nossas vidas diárias?
O stress tem imensas manifestações possíveis, tanto físicas como mentais. Para enumerar apenas alguns exemplos: irritabilidade, fadiga, raiva, dor muscular, problemas digestivos, alterações do sono, taquicardia, hiperventilação, etc., etc., etc.

De que forma deve o stress ser distinguido (ou não) da ansiedade?
O stress e a ansiedade são, efectivamente, duas respostas emocionais. No entanto, o stress é, tendencialmente, causado por um qualquer factor externo, por exemplo, ser despedido, um prazo que temos de cumprir ou uma despesa que não conseguimos pagar.
Já a ansiedade é caracterizada por manifestação persistente de preocupações excessivas, que não desaparecem, ainda que na ausência de um estímulo que provoque stress. Curiosamente, os sintomas são muito parecidos com os do stress - insónia, fadiga, tensão muscular, irritabilidade, alterações da atenção e concentração.

Que impactos físicos pode ter o stress no nosso corpo?
A resposta de stress tem implicações cada vez mais estudadas e reconhecidas no nosso organismo. Estar sujeito a stress, sobretudo de forma continuada, tem diversas consequências negativas ao nível do funcionamento renal, cardíaco e pulmonar, já referi a fadiga muscular, prejudica significativamente o funcionamento do sistema imunitário, pelo que acabamos por adoecer mais frequentemente, mesmo com patologias menores que, normalmente, estariam “adormecidas”.

Há quem diga que o stress pode ser também visto como algo benéfico, algo que nos faz mover. De que forma é isto verdade - ou não?
É verdade. Um nível “adequado” de stress é evidentemente positivo. Sem “stress” não teríamos aquele empurrão para fazer as coisas o melhor possível.
Vejamos como exemplo um artista de palco - a enorme maioria refere que sente alguma forma de stress antes da sua performance. Mas é um stress que os mantém atentos e mais focados na tarefa que têm que desempenhar. É o que se chama o “Eustress” ou, se quisermos, o stress bom, o stress de nível óptimo, nem demais nem de menos.
E, depois, para mim ainda mais fascinante, há uma linha de investigação sobre as crenças relativas aos efeitos do stress. De forma muitíssimo resumida, existem diversas investigações que concluem que, se aprendermos a lidar com a nossa resposta de stress como algo que me prepara, que me activa e que me está, na verdade, a tornar mais capaz de actuar, em vez de algo que me vai prejudicar, que me acorrenta e me bloqueia, surge o que se chama a Neurobiologia da coragem.
É o que se associa àqueles relatos de pessoas que, em situações extremas, são capazes de feitos extraordinários (físicos ou outros).
Por isso, se eu for capaz de ver o stress como algo positivo, os meus vasos sanguíneos, por exemplo, ao invés de se contraírem como acontece na resposta negativa e associada a ocorrências como os enfartes, mantêm-se dilatados. Isto associado a uma maior frequência cardíaca e respiratória equivale a um enorme aumento da oxigenação dos tecidos do organismo e, por conseguinte, a benefícios evidentes quando preciso de actuar a um nível óptimo.
Se me permite, acrescento ainda que a visão do stress como algo essencialmente bom e positivo nos torna mais resistentes e resilientes perante novos desafios e, inclusivamente, nos torna mais sociais. A resposta positiva de stress está associada a um aumento da oxitocina no cérebro. Esta é a hormona da fidelidade, da ligação aos outros e que potencia as capacidades sociais do ser humano.

De que forma pode a inteligência emocional ajudar a combater o stress?
A inteligência emocional teria de permitir-nos, antes de mais, ver o stress como algo positivo. No entanto, e num patamar mais habitual, a inteligência emocional é extraordinariamente importante na nossa capacidade de reconhecer em nós mesmos e nos outros um eventual estado de stress e, claro, a podermos lidar com esta agressão da melhor forma possível. É a inteligência emocional que nos permite transformar a nossa visão das diversas situações e abordá-las da forma mais produtiva possível.

Tendo em conta o cenário em que vivemos actualmente, pode-se dizer que é impossível viver sem stress?
Repare, viver sem stress não é bom, como já dissemos. Temos é de tentar que o stress exista na nossa vida de forma doseada e temporária e não de forma tão prolongada, como vem acontecendo. Mas, sim, o stress é uma inevitabilidade.

Que novos desafios traz este período de pandemia a quem sofre de stress/ansiedade diariamente?
A pandemia trouxe um aumento de situações potencialmente causadoras de stress a toda a gente. A questão da incerteza, da perda de rendimento, do medo associado a este “fantasma da COVID-19”, as limitações que nos têm imposto na tentativa de evitar males maiores, são naturalmente causadores de grande desconforto à maioria de nós. Aos que já estavam fragilizados, evidentemente, agravou a sintomatologia e, em muitos casos, terá levado ao aparecimento de diversas patologias acessórias.

Que impactos causa o stress nas famílias agora em contexto de pandemia?
São enormes impactos! Como disse ainda agora, este novo contexto tem colocado às diversas sociedades um desafio praticamente sem precedentes a diversos níveis. A nível familiar não é diferente. O stress (negativo, cá está) ao causar os sintomas de que falei logo no início da conversa pode tornar mais complicada a harmonia familiar. Temos a experiência recente do confinamento e o choque que foi para muitas famílias terem que estar juntos 24h/dia.
É fundamental que as pessoas recebam ajuda para aprender a lidar melhor com esta nova configuração de sociedade, trabalho, família.

No mundo do trabalho há também  muito stress. De que forma está este fenómeno ligado ao Burnout?
Está intimamente ligado! Aliás, a síndrome de Burnout é, essencialmente, um problema que surge do âmbito laboral. De forma ultra simples, estar sujeito a muito stress, de forma prolongada, leva ao desgaste e, em último, a uma situação de esgotamento emocional (Burnout).

Na sua opinião, as empresas/organizações valorizam ou desvalorizam o stress dos seus funcionários/colaboradores?
Infelizmente, em Portugal, é um assunto que continua a passar “por debaixo do radar”. É verdade que já se tem feito muita reportagem, alguns documentários sobre a problemática do Burnout em certos sectores profissionais.
No entanto, pelo que vou observando, as empresas (Estado incluído) continuam muitíssimo mais preocupadas com o seu bem-estar financeiro (ou, pelo menos, em minimizar o seu mal estar financeiro) do que em propiciar aos seus trabalhadores condições de trabalho preventivas de situações de stress patológico.

É esta uma questão à qual se deve ter em conta nos próximos tempos?
Sem qualquer dúvida. Sobretudo com o estado de coisas actual e o que se vai prevendo para o futuro próximo é fulcral que possamos desenvolver estratégias para nos protegermos do stress negativo. Criarmos um dia a dia que inclua bem-estar, diversidade, interesses e prazer é um caminho que podemos e devemos buscar para conviver com o stress.
 

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