Ana Lopes, actriz açoriana em Los Angeles no Dia Mundial do Cinema

“Os Açores fazem parte da minha identidade e há muitas histórias que eu gostaria de contar sobre os Açores ou nos Açores”

 Correio dos Açores - Sempre desejou ser actriz?
Ana Lopes, actriz - Sempre. Cresci em São Miguel, tínhamos só a RTP Açores e era maluca pelos filmes da Disney. Imitava as cenas dos filmes com os meus colegas e na escola, na primeira ou segunda classe, fizemos uma peça de Natal e foi aí que eu percebi que isto é uma coisa que podemos criar de novo, porque até ali eu só imitava o que via na televisão.
Desde aí apercebi-me de que era onde melhor me exprimia, sendo uma criança muito tímida e calada, e que aquilo fazia com que me sentisse à vontade. (…) Foi também mais ou menos nessa altura que os meus pais compraram uma câmara de filmar e isso abriu várias janelas para mim porque tinha a ideia de fazer peças de teatro e o palco, mas também de aprender a mexer na câmara e o que se pode fazer com a câmara.
Desde cedo aprendi a fazer montagens e muitos dos meus trabalhos, mesmo para a escola, começaram a ser brincadeiras com filmes. Fui sempre experimentando e fui muito auto-didacta nesse sentido, ia aprendendo pela experiência e metia os meus amigos ao barulho.

Fazer filmes caseiros para a escola e fazer filmes de forma profissional são coisas diferentes...
Não tinha ninguém das artes na minha família e, portanto, este não era um percurso lógico para seguir. Era visto como algo que eu fazia na brincadeira, mas como criei esta paixão e comecei a ver mais filmes e séries comecei a perceber que poderia fazer disto uma carreira e, eventualmente, era o que queria seguir.
Uma vez que já estava um bocadinho incutido aquilo que seria o meu percurso profissional, o que ficou combinado com os meus pais era que quando fosse para a universidade iria tirar outro curso e se eventualmente continuasse com a ideia de seguir representação, aí me dariam largas para conseguir ir atrás disso.
Quando saí daqui para ir para Lisboa foi com o intuito de estudar Direito, mas ainda na faculdade, no primeiro ano, inscrevi-me no curso de teatro da faculdade, comecei a entrar em algumas curtas metragens e a fazer alguns castings.
Cada vez mais, por conta dessas peças de teatro que fui fazendo, fiquei com mais certeza ainda de que era isso que eu queria e não continuar na área de Direito. Depois de terminar o curso comecei a fazer pesquisa de como poderia seguir essa carreira e quais os passos que teria que dar a seguir.
Apenas me licenciei porque fazia parte do acordo que tinha feito com os meus pais, apesar de mal ter entrado para o grupo de teatro ter percebido que não era Direito que eu queria de certeza, mas gosto de acabar o que começo e pensei várias vezes se valeria a pena, pensei várias vezes em desistir, mas quis acabar porque senão iria ficar com este peso.
(…) No terceiro ano do curso eu não só estava lá como actriz mas passei a ser a directora de produção do grupo de teatro, e também comecei a produzir as nossas peças, organizei um festival de teatro e estava mesmo muito ocupada com este meu lado mais artístico e fui descuidando um pouco os estudos.
Apenas no quinto ano é que vi que para acabar o curso teria que me concentrar nisso e entrar no mundo jurídico de outra forma, por isso concentrei-me em acabar as cadeiras todas para depois ter a liberdade de seguir aquilo que queria.

Sente que teve que ir para fora para ser reconhecida “cá dentro”?
Nunca senti que o meu objectivo fosse ser conhecida. Descobri muito cedo a minha paixão e o que queria fazer. Em São Miguel tentei ver que oportunidades é que havia, mas existia poucos grupos de teatro, em Lisboa estava muito ocupada com o grupo de teatro e fui fazendo workshops, curtas metragens e castings, (…) mas mesmo durante o curso não estava a colocar a hipótese de ficar cá.
Ou seja, os Estados Unidos sempre foram, de certa forma, o meu objectivo, por isso não tenho aquela sensação de não ter conseguido chegar onde queria em Portugal e ter ido para fora por isso, identificava-me mais com o que se estava a fazer nos Estados Unidos da América do que aqui.
Em Portugal a aposta era maior nas novelas e ainda eram as primeiras telenovelas portuguesas na altura, e sendo dos Açores, sempre cresci com a ideia do “sonho americano”. Tinha também uma amiga em Los Angeles, uma das minhas melhores amigas, e de certa forma o mais lógico para mim foi ir para lá, por isso não explorei muitas oportunidades em Portugal, mal acabei o curso fui logo para lá.

Mas em Los Angeles é onde há maior concorrência entre actores e actrizes…
Sim, mas acho que a inocência é uma coisa muito boa (risos), porque é esta falta de noção das coisas que às vezes nos faz dar passos mais largos, e como na altura tudo era possível houve coisas que eu nem pesei.
Foi o que fez mais sentido, mas assim que cheguei lá primeiro fui para uma escola para conhecer a indústria e estudar representação para cinema, porque queria fazer a transição dos palcos para passar a estar em frente à câmara e é uma aprendizagem que tem que ser feita.
Estudei durante um ano, que foi o ano que me deu bases não só para representação em cinema mas também nas outras funções e cargos que são desempenhados quando se está a fazer um filme, como realização, produção e edição, e ainda na perspectiva do negócio, sabendo como gerir a carreira nesta indústria. Foi um curso muito útil.

Como foi o seu percurso nesta área?
O meu currículo neste momento é muito recheado porque fui para lá com muita sede e vontade de trabalhar, enquanto estava a estudar naquele ano, quando não estava nas aulas estava a gravar com outros estudantes e só nesse ano fiz muitas curtas-metragens.
No segundo ano, com visto de trabalho, também entrei em várias curtas, peças de teatro, publicidades, projectos mais pequenos mas que me permitiam trabalhar, aprender e estar nos sets das gravações.
(…) Depois desse ano ainda não tinha nenhum projecto que me tivesse lançado profissionalmente, por isso, não sabendo o que poderia fazer para continuar lá legalmente, decidi voltar para Portugal com a ideia de que como tinha experiência internacional seria mais fácil arranjar trabalho cá, mas deparei-me com uma indústria muito diferente daquela a que habituada, mas continuei a fazer castings, curtas metragens e cinema independente e aí já tive uma agente que me arranjou algumas participações em algumas novelas, como na “Podia acabar o mundo”, da SIC e fiz também telefilmes para a RTP 1 e para a TVI.

Quais os projectos que mais a marcaram?
Em Portugal foi “Uma cidade entre nós”, da Maria João Ferreira e o “Artur” do Flávio Pires, porque foram filmes que me deixaram orgulhosa quanto ao resultado, em que tive papéis desafiantes e que foram a festivais, ou seja, tiveram um percurso para além das gravações.
“Uma cidade entre nós” ganhou ainda no ano passado o prémio de melhor filme estrangeiro num festival dos Estados Unidos, e fui a protagonista dessa longa metragem, é um projecto que me orgulha.
Nos Estados Unidos, (…) as longas metragens em que tenho papéis mais desafiantes estão ainda a ser gravados e outro está em pré-produção. Orgulho-me da curta-metragem chamada “Separar”, da qual fui protagonista, e também ganhou vários prémios e esteve em vários festivais de cinema que são considerados para os Óscares.
(…) Fiz também uma série de comédia que passou na MTV, e fiz outro filme gravado em Londres, chamado “Whereis SheN ow”, que ganhou mais de 30 prémios a nível internacional, muito cinema independente, que é mais a minha praia.

É ao cinema independente que procura continuar a dedicar-se no futuro?
Sim. Num dos filmes que está agora em produção e em que tenho papel de protagonista, que é o “The Horizonis a Scar, My Love”, é cinema independente, mas obviamente que o meu objectivo é trabalhar com pessoas cada vez mais interessantes, experientes e com uma visão muito própria, e acho que no cinema independente há mais essa liberdade.
Interessa-me mais, na minha arte de representar, explorar as relações humanas e projectos mais intimistas. Não recusaria fazer um filme de acção ou de terror, mas considero-me mais uma actriz de drama ou de thrillers, que exploram mais o lado psicológico, emocional e vulnerável dos humanos, e acho que no cinema independente temos mais espaço para explorar isso de uma forma não tão comercial, estruturada, tão preocupada com as audiências ou com o dinheiro que se vai fazer.
Claro que para estar bem a nível financeiro contam mais esses projectos mais comerciais, mas no sentir-me preenchida a nível artístico confesso que tenho inclinação para acabar sempre a trabalhar com pessoas mais artísticas e mais profundas.

De que forma a pandemia afectou o seu trabalho?
Nos Estados Unidos estava a gravar uma longa -metragem e um piloto de uma série, para além do filme que estava em pré-produção.A longa-metragem estava já num ritmo bastante lento, por isso podemos esperar mais um bocado, mas o episódio piloto da série, chamada “Killer Dana”, com um papel interessantíssimo e para o qual estava muito entusiasmada e por acaso foi uma pena porque ainda no dia antes de tudo fechar nós estávamos todos juntos a discutir o projecto.
Aguardámos uma semana, duas semanas, um mês, até percebermos que não saberíamos quando iríamos voltar a gravar. Fiquei bastante triste por não podermos ter continuado porque sendo um piloto o objectivo era que este fosse vendido e nós pudéssemos gravar o resto da temporada e nem conseguimos acabar as gravações do primeiro episódio.

É um projecto a retomar?
Sim, o produtor e criador da série está muito entusiasmado e duvido muito que seja um projecto que fique por aqui. Mas não sei em que termos irá continuar.

A pandemia trouxe-a aos Açores...
Tentei ficar por lá, mas a indústria de cinema parou quase por completo e ainda fiquei por lá durante dois meses a ponderar o que haveria de fazer. Mas por estar nos Estados Unidos por motivos única e exclusivamente profissionais, e não podendo estar a exercer a minha profissão lá e tendo a minha família em São Miguel numa situação tão crítica como esta foi, fazendo o balanço percebi que não fazia sentido continuar lá nas condições actuais.
Decidi voltar, o que foi uma situação complicada por ter construído a minha vida lá, mas foi o que fez mais sentido. Regressei a Portugal em Junho e reparei que havia mais filmagens a acontecer do que lá, ou pelo menos assim me pareceu. Desde que cheguei já fiz uns trabalhos por aqui, e se calhar se tivesse ficado lá nem isso teria feito.
A decisão foi voltar até esta situação acalmar, mas também temos a questão das eleições hoje, que acho que também vai afectar um pouco a minha decisão sobre o quando e como regressar para os Estados Unidos.
Apesar de estar cá, mesmo assim, vou participar em dois projectos que estão a acontecer lá. As gravações lá já retomaram e há uma longa metragem a ser retomada este mês, onde me ofereceram um papel secundário que vou poder gravar a partir de cá, e também num episódio de uma série onde também escreveram a minha cena de maneira a que possa gravá-la de longe. É também esta a magia do cinema (…).

Quais os aspectos positivos que destaca desta nova fase?
Estou menos “stressada” em relação à forma como vou atrás das oportunidades. Aprendi a relaxar, continuo a candidatar-me a castings e a entrar em contacto com pessoas, mas não sinto a pressão de ter que estar sempre a trabalhar. Já tenho contactos na indústria que permitem que seja o trabalho a vir ter comigo em vez de ser ao contrário, e isso dá-me uma sensação de realização.

Para além de actriz é também produtora...
Sim. Este é outro lado positivo da pandemia, o finalmente ter tempo para fazer pesquisa para os temas que quero abordar nos meus projectos cá. 
Tenho estado a ler mais do que o normal, tenho estado a fazer pesquisa e não sabia antes quando é que ia arranjar esse tempo na minha vida para me sentar, ler e pesquisar, experimentar com a escrita, e finalmente estou a ter esta oportunidade e sim, os Açores fazem parte da minha identidade e há muitas histórias que eu gostaria de contar sobre os Açores ou nos Açores.    

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