10 de novembro de 2020

Opinião

Alterar paradigmas

Um dia destes, indo eu a fazer a minha habitual caminhada matinal, encontrei uma pessoa amiga que cumprimentei. Na circunstância perguntei-lhe se a esposa dele já tinha conseguido arranjar trabalho ao que ele me respondeu que sim.
Fiquei então sabendo que a senhora trabalha numa escola primária na periferia desta nossa Ponta Delgada como auxiliar de educação. Congratulei-me pelo facto, porque esse meu amigo trabalha que se farta para, como diz o nosso povo, poder manter a casa. Mesmo nos momentos mais difíceis, nunca recorreu a esquemas nem a subsídios governamentais.
Contou-me ele que, na escola onde a esposa trabalha, há crianças que passam fome e que, muitas vezes, nem têm os 20 cêntimos para a refeição quente que a escola fornece aos seus alunos. É que, este custo, é de UM EURO por semana, bolas!
 Adiantou-me também que, normalmente, estas crianças são filhas de famílias desestruturadas, toxicodependentes e que ficaram sob responsabilidade dos avós que, também eles, necessitados de ajuda social por via das magras reformas que auferem.
A situação que acabo de relatar não acontece só naquela escola. Infelizmente é um facto que se repete um pouco por toda a ilha de S. Miguel, em especial nos maiores centros urbanos, uma vez que, nas escolas das freguesias rurais, não se ouve falar destas situações. 
Não entendo como é que, em 44 anos de democracia em que vivemos, não se tenha conseguido erradicar a fome que ainda se vive.
Sem querer meter “foice em seara alheia” penso que os sucessivos governantes têm feito vista grossa aos problemas que todos vêem, menos eles.
Também julgo que não é exigido aos profissionais da Segurança Social o necessário empenho, na contínua batalha para a melhoria das condições de vida nas nossas escolas. 
Diz-se que os quadros que actuam nesta área não saem (ou saem muito pouco) dos seus gabinetes para observar localmente o que realmente se passa. 
Se é verdade, ou mentira, desconheço. Todavia, uma coisa é certa, o caso de que tomei conhecimento não devia acontecer em nenhuma escola desta Região, que se diz autónoma e que tem na educação a responsabilidade total, desde a pré-primária ao ensino secundário.
Para quem está atento ao que se passa em sua volta, fica-se sabendo que nesta ilha do Arcanjo S. Miguel existem demasiados pobres. A grande maioria deles são carenciados de materiais, mas, também existem muitos pobres de espírito. 
Não se percebe que nunca tenha havido o cuidado de ensinar, a miúdos e graúdos, como gerir os seus recursos de modo a satisfazer as suas necessidades básicas. Isto deveria estar incluído nos programas escolares desde tenra idade.
É necessário incutir no espírito das pessoas que, um telemóvel, não é artigo de primeira necessidade. Todavia, quando não se tem essa percepção, há que ensinar que existem telemóveis de vários preços e que fazem e recebem chamadas como qualquer Smartphone.
Quem fala de telemóveis, fala de roupas e calçado de marca.
Como até aqui nada neste sentido foi feito pelos sucessivos governos regionais, penso que o novo governo encabeçado pelo Dr. José Manuel Bolieiro deverá mudar o paradigma, também nesta matéria, até como meio de combate à erradicação da pobreza nesta ilha e nas outras ilhas que tenham o mesmo problema.
Costumo dizer que S. Miguel é a maior ilha da Região. É realmente a maior em tudo, até na pobreza.
Julgo que já é mais do que tempo de se pôr os Serviços de Acção Social fora dos gabinetes e identificar os casos de maior cuidado para que proceda de modo a diminuir situações como aquela que relatei acima. Nem que para tal seja necessário admitir mais pessoal.
Não vai ser fácil porque é preciso ter dinheiro. Por isso, julgo que deve haver mais parcimónia nos investimentos públicos, deixar-se de megalomanias. Acudir ao necessário e deixar para trás o supérfluo deve, em minha opinião, ser palavra de ordem.
É uma questão de alterar os paradigmas de actuação.

P.S. 
Texto escrito pela antiga grafia.

8 de Novembro de 2020

Carlos Rezendes Cabral

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Categorias: Opinião

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