10 de novembro de 2020

Opinião - Crónica da Madeira

Diário de Bordo: As ilhas vistas do céu


A sensação que se experimenta
quando aterramos num mar de
nuvens é de que estamos suspensos
no céu.

Como uma cortina de um teatro 
as nuvens fazem-se farrapos. 
abrem-se: aí tem-se um espetáculo mágico
de duas ilhas plantadas no oceano atlântico.
Dos seus sonhos, das aventuras e da loucura...

Gentes que se deitam e acordam
com o mar da saudade
e o olhar que se perde 
na distância da linha do horizonte.

Tinha-me afundado nos meus pensamentos: sentado nas nuvens vi a ilha do alto. A minha ilha: aquele onde nasci e vivo. Os telhados vermelhos misturados com os verdes de uma vegetação exuberante, vistos de cima, ganham perspetivas irreais. O mar matizado de azuis invade a terra, bordando de espuma branca as pedras negras de calhaus roliços. As praias da minha infância e da minha loucura...
A minha ilha adormece, à noite, por entre milhares de luzes que sobem as montanhas e acorda de manhã, espreguiçando-se no roxo, no vermelho, no branco das buganvílias em flor. Foi este mar imenso que me fez acreditar que as ilhoas e os ilhéus são mais universais: estendem o olhar nesta imensidão oceânica e encontram, porque acreditam, as razões de serem como são: timoneiros de navios de saudades à procura de novas terras. À descoberta do desconhecido...
Há séculos, gentes diferentes, chegaram e saíram da ilha. Tempo houve que os oficiais ingleses, a caminho da Índia, faziam aqui uma paragem obrigatória para se adaptarem ao clima tropical da Índia. Curiosamente no regresso, esses mesmos oficiais, paravam, de novo na ilha, para se readaptarem ao clima da Europa. Depois vieram os mercadores, os comerciantes, os navegadores que arribavam com os seus objetivos. O convívio com toda esta gente, mesmo temporário, foi bastante enriquecedor.
O avião treme mais forte. Baixa de altitude. Entro num verdadeiro mar de nuvens. Experimento a sensação de estar suspenso no céu. O avião sacode e continua a baixar. De repente rompem-se as nuvens e um sol resplandecente ilumina o Funchal, a cidade romântica à beira mar plantada. Urbe de velhas tradições. Ruas que se cruzam com travessas ostentando nomes interessantíssimos: do pimenta, do descanso, dos arrependidos, dos aranhas, do avista navios, do hospital velho, dos moinhos e tantos outros que bem podiam ser catalogados num livro. Olho, através da pequena janela e ressalta-me a torre da velha Catedral – Sé do Funchal, estilo Manuelino, com o altar central riquíssimo e um teto mudéjar. No adro um monumento que assinala a visita do Papa João Paulo II, em 1991, ao Funchal. Uma escultura, de Lagoa Henriques, do Pontífice em tamanho natural. A avenida que se estende da porta da catedral até a Avenida do Infante, está povoada de jacarandás. Na primavera veste-se de roxo. Repuxos de água jorram de uma fonte circular que ostenta ao centro, uma enorme esfera armilar. Por detrás, sob um altíssimo arco em pedra, a estátua do Infante D. Henrique. Sobe-se por uma ladeira ligeira. De um lado e do outro os jardins lindíssimos: Santa Catarina, Quinta Vigia, Hospício da Princesa Dona Amélia e Casino Park Hotel. Uma variedade de plantas e flores a colorirem os famosos jardins românticos. 
Vagueando nos meus pensamentos, sou interrompido para ouvir a voz, de falsete, da senhora que ao meu lado me põe uma questão: Existe uma cultura madeirense? Penso que os poetas, os escritores que nascem, vivem e morrem na Madeira, sem deixarem de estar desligados do continente, têm forçosamente um sentir diferente. O isolamento físico-geográfico que caracteriza a insularidade tem grande influência. São esses isolamento e distância que uma vez interiorizados numa mundo-vivência geram sentimentos vários.
São muitas as influências que envolvem os madeirenses. Não é só a paisagem espetacular que arrasta paixões, tal é a beleza estonteante em que se esbarra, mas também a epopeia da transformação das rochas. A coragem destemida que caracteriza o povo em fazer do basalto duro cidades vivas. O madeirense destrói raivosamente a rocha e, à beira de um abismo medonho, transforma-la num poio cultivado. Mais: ele desafia a morte para construir o futuro. A Senhora olhou-me com espanto e perguntou-me se podíamos continuar a conversa, mais tarde, quando chegássemos ao Funchal.
Volto aos meus pensamentos. Finjo-me, por momentos, adormecido: os madeirenses beberam de todos os povos do mundo as suas culturas o que os libertou de tantos silêncios e medos.
O comandante anuncia que o avião desviou para o Porto Santo, terra onde os poetas se refugiam e, às escondidas, encontram-se com as suas musas. Espreito e lá em baixo o areal imenso, 9 quilómetros de praia dourada, mistura-se com o mar calmo, transparente. Pequenos barcos à vela parados, preparam-se para uma competição, mas a calmaria do mar e o calor de um sol que se reflete nas águas, não dá aragem suficiente para empurrar as pequenas embarcações. A ilha adormecida na espetacular paisagem, porque diferente, desenhada nas suas rochas com formas que obrigam os visitantes a decifra-las como se fosse um jogo. Esta pequena ilha que não se deixou poluir, tem recantos onde só vivem o silêncio e o cantar dos pássaros encaixados na paisagem. O “Ilhéu da Cal” surge como se fosse uma pequeníssima ilha desabitada. Os bons nadadores alcançam-na facilmente e ali se escondem com promessas de amor que voam nas asas das gaivotas.Os Porto-santenses, porque isolados, trazem nos olhos navios carregados de uma nostalgia inexplicável. Brilhantes, banhados de mar. Olhos de desejos interrompidos, às vezes, pela solidão.
O comandante anuncia que vamos regressar à Madeira: passa-se por cima da Ponta de São Lourenço. Entra-se no Vale de Machico feericamente iluminado. Vale que o Poeta Câmara Leme cantou num dos seus livros, como ninguém foi capaz de fazê-lo. Quando julgava que íamos aterrar, o comandante volta à esquerda e dirige-se para o Funchal. Sobrevoa a inigualável baía. Única no mundo pela sua configuração e beleza. Havia um céu cheio de estrelas. Um céu deitado sobre a baía, cobrindo-a de pontos luminosos. O porto com os grandes paquetes retratados no mar. Sombras que se movimentavam ao sabor de uma ondulação ligeira.
Antes de aterrar pego nas palavras e coloca-as, apressadamente, umas com as outras, sem qualquer preocupação gramatical ou poética. É a minha alma em êxtase que se liberta. São os meus olhos mais enriquecidos que me obrigam a escrever, no silêncio em que mergulhei, e o meu pensamento repete: 
Vem 
de séculos
este saudar amigo
daqueles
que trazem em si
roupagens de países distantes

Vem
de séculos 
este transportar
constante
destas 
duas ilhas
nas asas das gaivotas
peregrinas sem abrigo

Vem 
de séculos 
esta força de amar
que
se derrama na terra
e
floresce
no cântico
das mães recolhidas
que adormecem os seus filhos

Vem 
de séculos
a doçura do olhar
de gentes erguidas
nas praias 
à
espera dos pescadores
barcos a remos e velas
que bailam ao cair da noite
com fachos de lumes
estampados no mar
como se fossem 
pedaços de linho
bordados 
entre lágrimas e 
desejos

Vem de séculos 
estepatrimónio sagrado 
Ilhas feitas mar e rochas
que passa
de geração em geração
como um sonho 
quese agiganta no tempo 
adequando-se a esse
para ser colocado 
todos os dias 
no altar dos seus ideais
 

João Carlos Abreu

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Categorias: Opinião

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