Pedro Medeiros, produtor hortícola e frutícola

“Durante a pandemia as minhas vendas cresceram à volta de 20 a 25%”

A um mês de completar 48 anos de idade, Pedro Medeiros é agricultor “há volta de 35 anos”. Com ligações familiares à actividade, este produtor agrícola da Ribeira Seca, na Ribeira Grande, conta um pouco da sua história pessoal.  
“O meu avô, Manuel Medeiros Amaro, era um dos homens mais fortes aqui da Ribeira Grande e esta também era a vida do meu pai. Nunca gostei da escola. A verdade é esta e com 13 anos fugi e não quis estudar mais. O meu pai tinha uma fábrica de telha, aí em 1985 ou 1986, e fui para lá trabalhar. O meu pai é agricultor desde que se conhece e eu continuei neste ramo”, explica.
Feitas as apresentações, Pedro Medeiros admite que “gosta desta vida” apesar de também dizer que “estamos sempre com o coração nas mãos”. Este agricultor da Ribeira Seca diz mesmo, em jeito de brincadeira, que “a vida de agricultor é uma forma de empobrecer alegremente”.
Com actividade aberta desde 2001 e com todos os seus terrenos ao ar livre, já que “não trabalha com estufas”, Pedro Medeiros que fornece “cerca de 90%” dos seus produtos à Insco revela que as exigências de qualidade são cada vez maiores neste sector de negócio. 
“Cada vez há mais exigência e uma pessoa tem de ir acompanhando o mercado. O consumidor está cada vez mais exigente embora por vezes não tenha razão. Nem sempre o produto bonito é o melhor. Sou daquelas pessoas que não usam muitos pesticidas ou insecticidas, só mesmo em último recurso”, destaca.
Com 6 hectares de área de produção, este agricultor enumera os produtos hortícolas e frutícolas que comercializa.
“Durante o verão, até Julho, tenho as couves, o repolho, os brócolos ou a couve-flor. Como os meus terrenos não têm água, de Verão produzo mais a melancia, o melão ou curgete. Também produzo um bocado de cebola, cenoura, couve coração, couve lombarda, couve rouxa, couve portuguesa, salsa, agrião, nabiça, rúcula ou o coentro”. Nesta vertente das aromáticas admite que realiza vendas “à volta de uns 400 quilos por mês”. 
Questionado sobre quais os outros produtos que vende em mais quantidade, Pedro Medeiros começa por explicar que fornece o que a Insco precisa “porque quando o cliente não come eles não me compram”, dizendo depois que as vendas estão naturalmente dependentes da época do ano.
“De verão pedem muita melancia, meloa e curgete. A cenoura é uma coisa que se vende muito embora por vezes os preços não sejam muito atractivos para nós. Não temos maquinaria nem terrenos suficientes para investir em grandes máquinas e portanto é quase tudo feito  mão. Gastamos muita mão de obra e às vezes eles não querem pagar por esse preço que achamos ser justo”, lamenta apesar de também admitir que, por comprarem em grandes quantidades, “isso vai- nos ajudando mais do que o preço que pagam”. 
Recentemente com o certificado ‘Local GAP’, o agricultor considera que esta certificação de qualidade é muito importante e constitui-se como algo relevante para o futuro do sector.
“Hoje em dia se queremos temos de nos levantar e andar para a frente, se não for assim não chegamos a lado nenhum. Fiz um investimento e construi um quarto para a preparação dos produtos e de armazenamento. Tenho os produtos armazenados, no máximo, de um dia para o outro para ir sempre frescos. Acho muito bem esta questão da certificação porque é uma segurança para o consumidor”, afirma.
Pedro Medeiros lamenta, por outro lado, que muitos consumidores valorizem mais a vertente estética dos produtos ao invés do seu sabor.
“Se o consumidor vir uma lagartazinha numa couve, num repolho ou num brócolo vai dizer que está mal. Mas na minha opinião, eu crie-me com isso, é melhor e é sinal que não levou insecticidas. O consumidor não percebe isso. Quer é um produto todo bonito e todo brilhante”, refere.
Relativamente à pandemia de Covid-19, o produtor revela com sinceridade que não sentiu quebras durante a pandemia e explica a principal razão para que tal tenha acontecido.
“Fecharam os restaurantes, os snack bars, fechou isso tudo. As pessoas que estavam acostumadas a comer o prato do dia, a baguete ou hambúrguer, passaram a comer em casa e para isso tiveram de comprar os produtos. Falo por mim quando digo que as vendas cresceram à volta de 20 a 25%. As pessoas tiveram de ir buscar comida às grandes superfícies e aos outros estabelecimentos. Penso que mesmo os pequenos supermercados e frutarias aumentaram muito as suas vendas”, afirma.
Com toda uma vida ligada à agricultura, Pedro Medeiros aponta alguns dos principais problemas com que se deparam os produtores deste sector.
“Uma das maiores dificuldades é a mão de obra e, sinceramente, penso que o Governo tem muita culpa disso. Conheço muita gente que recebe o rendimento mínimo e quando vamos falar com eles não querem vir trabalhar. Devia haver uma maior fiscalização neste aspecto”, salienta.
Numa outra vertente, existe igualmente o problema relacionado com o clima explicando que “por vezes a gente anoitece ricos e amanhece pobres”. 
“Como tenho os terrenos todos ao ar livre e se, por exemplo, faz vento, o coentro fica malhado, a nabiça velha e já não tem apresentação comercial embora ainda esteja bom para comer. Isso é rejeitado nas grandes superfícies e nem apanhamos porque já sabemos disso”, refere.
Também a dificuldade em encontrar terrenos com água canalizada é outro dos problemas que este produtor de hortícolas e frutícolas destaca. 
“A gente quer uma terra de rega e não há. Se quisermos colocar água numa terra é um dinheirão. No meu caso, como as terras não são minhas, vou fazer um investimento num terreno de renda para daqui a 2 ou 3 anos o dono ‘pegar’ no terreno. Deviam canalizar água, incentivar o agricultor e dar uns apoios para se poder puxar água para os terrenos”, considera.
Pedro Medeiros aponta também a uma questão relacionada com as grandes superfícies e refere que estas “deviam dar uma formação mais rigorosa aos seus funcionários sobre como tratar bem os produtos agrícolas”.
Sobre o futuro, o agricultor admite que não está “a pensar plantar nada de novo” e revela quais os seus objectivos e sonhos.
“O meu grande sonho não é ser rico, mas sim não dever nada a ninguém. Claro que gostava de crescer e aumentar mais um pouco as minhas vendas”, afirma Pedro Medeiros.    
                                          
Luís Lobão

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima