Jovem jornalista açoriana de sucesso afirma trabalhar “no melhor de dois mundos” entre o digital e o papel

Foi com surpresa que a família de Mariana Botelho, hoje com 29 anos de idade, recebeu a notícia de que a jovem – a mais “tímida e acanhada” da família – optara pelo curso de Comunicação Social e Cultura da Universidade dos Açores, opção esta que, mais tarde, lhe viria a abrir as portas para se tornar numa das jornalistas que integra hoje a redacção das revistas Women’s Health e Men’s Health.
Apesar de este ter sido um curso que desafiou a sua timidez, afirma ter “acertado na área” que hoje lhe permite conhecer e partilhar “as várias vertentes com que se constrói um estilo de vida saudável”, permitindo-lhe estar em contacto com uma das áreas do jornalismo que mais popularidade tem vindo a ganhar ao longo do tempo, sobretudo com o reforço no digital.
Assim, para além de trabalhar na área de lifestyle (estilo de vida), através desta experiência profissional a jornalista micaelense ganhou ainda a possibilidade de “poder trabalhar no melhor dos dois mundos – papel e online – considerando que este último é “essencial para os jovens jornalistas”.
Depois da licenciatura nos Açores, de onde afirma ter saído apenas por saber que fora do arquipélago a esperavam novas experiências com grande valor, Mariana Botelho prosseguiu para o Porto onde escolheu investigar o jornalismo de moda para a sua tese de Mestrado, sendo esta a vertente onde “idealmente” gostaria de trabalhar, acabando depois por procurar emprego nas duas maiores cidades do país.
A sua primeira experiência profissional seria, no entanto, na NiT (New in Town), conhecida pelo dinamismo do seu conteúdo e por cativar essencialmente um público mais jovem.
Ali chegou, conta, “batendo-lhes à porta” como fez em tantas outras redacções, sendo no entanto recebida com a boa notícia de que precisavam de um estagiário para a área de saúde e fitness, experiência esta que “acabou por ser uma mais-valia”, uma vez que fez com que a jovem jornalista “explorasse uma área que via apenas como um passatempo” e tomasse conhecimento em primeira mão daquilo que é necessário para trabalhar no jornalismo online.

Uma pausa forçada e
um regresso em grande

No entanto, depois de terminado este seu primeiro contrato de trabalho, a micaelense determinou que não poderia ficar sem nenhuma actividade profissional, acabando por isso por trabalhar numa loja de roupa durante vários meses, embora sem nunca desistir de procurar trabalho dentro da área do jornalismo.
“Era-me impensável ficar parada enquanto não encontrasse uma nova oportunidade na minha área. O objectivo foi e sempre será manter-me na área da comunicação, se pelo caminho tiver de fazer alguns desvios, está tudo bem, também servem para crescer. Sinto que aprendi muito a trabalhar com o público, é uma experiência bem diferente, mas enriquecedora enquanto pessoa”, recorda.
Para que o seu nome fosse conhecido por mais pessoas, mesmo longe da área, Mariana Botelho voluntariou-se para escrever um conjunto de quatro entrevistas para a revista Umbigo, algo que acabaria por acontecer numa “altura certa para explorar as várias vertentes da área da cultura e lifestyle”.
Questionada se esta é uma área onde é mais difícil trabalhar, a jornalista açoriana refere que não: “É claro que quando se fala em jornalismo o que se pensa em primeiro lugar é nos jornais generalistas e canais televisivos, mas a área do lazer, seja lifestyle, desporto ou cultura, também têm lugar nesta área. O público é mais restrito, é certo, mas também podemos falar (ou escrever) de uma forma mais precisa, pois o nosso público é mais específico”, diz.

A chegada à Women’s Health

Depois de trabalhar numa loja de roupa, nunca tendo deixado de procurar emprego na área do jornalismo, Mariana Botelho acabaria por entrar para a equipa de lifestyle do site Notícias ao Minuto, salientando que esta foi “uma experiência incrível”, compondo uma redacção da qual não se via a sair nos anos seguintes.
Contudo, assim que tomou conhecimento de que a equipa da revista Women’s Helth procurava por um jornalista, Mariana Botelho decidiu arriscar em “algo diferente”, podendo “finalmente” passar “pela experiência do papel impresso e de escrever para uma revista portuguesa que integra uma marca internacional”, tornando-se na jornalista escolhida para passar por uma experiência que tem “adorado” e que tem “aproveitado ao máximo”.
Entre os desafios por que passam os jornalistas actualmente, Mariana Botelho destaca o ter que “provar constantemente que a informação verdadeira e fidedigna é aquela dada pelos meios de comunicação social de referência”, uma vez que independentemente da informação de qualidade gratuita que é disponibilizada “há quem prefira “informar-se” em blogues ou sites escritos por quem não é da área do jornalismo e não goza de fontes credíveis”.
No que diz respeito às expectativas que teria em relação ao sector, Mariana Botelho considera-se “uma pessoa com os pés bem assentes na terra”, não tendo escolhido o jornalismo com a ideia de assinar “artigos de capa em jornais de referência no primeiro ano de trabalho”.
E prossegue dizendo que embora para alguns possa ser “aborrecido”, os seus objectivos profissionais não colocam “as expectativas muito acima do real”, preferindo “explorar e criar o caminho com base no que sabe que é possível”, afirmando por isso que todo o seu percurso “não ficou muito aquém” das suas expectativas.
Em acréscimo, garante ainda que todas as decisões tomadas neste domínio são sobretudo racionais, tanto no que diz respeito ao local da sua licenciatura – tendo inclusive passado um semestre em Erasmus em Itália para ultrapassar a sua timidez e ser mais independente – como no seu mestrado.
“Todas as decisões que tomo têm por base a razão, por isso nenhum passo que dei baseou-se em sair da ilha ou ficar nela. Se, em alternativa, tomasse decisões com o coração, não sei se o meu percurso seria diferente. O certo é que, até hoje, não me arrependo de nenhuma decisão tomada neste sentido e os ‘culpados’ disso são os meus pais, que sempre me incentivaram a procurar o melhor para mim”, refere.

A certeza no regresso

Apesar de não se arrepender de ter deixado São Miguel, Mariana Botelho não esconde as certezas de que um dia irá “voltar a morar onde o seu coração sempre morou”, esperando por isso conseguir voltar para a ilha de onde apenas saiu em busca de melhores oportunidades.
Isto porque sempre que ouve a palavra Açores é na palavra “casa” que pensa em primeiro lugar, acreditando – à semelhança da cantora Sara Cruz quando foi entrevistada para a série da RTP Açores intitulada os “Mal Amanhados” – que “o verdadeiro açoriano” (mais do que aquele que vai ou aquele que fica) “é aquele que leva”.
Para além de ser a sua casa, o único sítio até agora que lhe garantiu uma grande proximidade com o mar, os Açores serão sempre a melhor memória dos momentos que passou com as suas duas irmãs, com quem mantém e manterá sempre uma relação muito próxima, “nos Açores ou em Marte”.
De momento, apesar dos milhares de casos positivos activos anunciados diariamente pela Direcção Geral da Saúde em Portugal continental, Mariana Botelho adianta que para além de ser “assustador viver nesta incerteza”, receia mais pelo aumento de casos positivos nos Açores, uma vez que é onde tem toda a sua família, incluindo “pessoas com mais idade e mais vulneráveis”.
Na grande cidade, conta, resta então “seguir à risca todas as directrizes” e continuar a resguardar-se do mundo exterior o mais possível, sobretudo para garantir que conseguirá passar o Natal em São Miguel e em segurança, rodeada pela família mais próxima.

 

“A melhor viagem será sempre aquela de volta a São Miguel”

 

Que sonhos mais alimentou em criança?
Quis ser educadora de infância, bailarina, nutricionista e só no secundário decidi ir para comunicação. Nunca senti que não podia sonhar, ser o que eu quisesse. Fui uma menina muito realizada e acho que foi isso que mais alimentei desde pequenina: ser realizada.

O que mais a incomoda nos outros? E o que mais admira?
Admiro muito a honestidade e respeito. Fui educada assim e tenho a sorte de me ter cruzado com estas características, também, no mundo laboral. A superioridade, o ‘poder’, não têm de desrespeitar os outros.

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Como não ser cliché nesta resposta? Gostava de escrever um livro, correr uma maratona e visitar todos os continentes. Mas se for sempre fiel aos meus princípios, nunca parar de me auto superar e partilhar a vida com os meus, já fico feliz.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição
Gosto! O último que li, e achei relevante para os dias de hoje, foi ‘O fim do armário’, de Bruno Bimbi. Activista argentino que defende a comunidade LGBT e faz uma análise à liberdade – ou falta dela – por parte das minorias no século XXI.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Acho que as redes sociais servem para entreter, aproximar e informar. Há meios de comunicação que sabem muito bem tirar proveito destas ferramentas. Cabe-nos a nós, consumidores, saber o que reter e o que ignorar.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Mas para quê? Nos últimos tempos a internet provou ser um apoio bastante grande às relações humanas e ao próprio trabalho (ainda hoje estou em teletrabalho). Se há quem viva demasiado pelo ecrã? Há. E estes sim, podem precisar de um detox digital.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Há muita pouca coisa melhor do que conhecer mais mundo. Ainda que o muito ou pouco seja relativo, também, neste aspecto, sinto que me falta viajar muito. Ainda assim, a melhor viagem será sempre aquela de volta a São Miguel.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Chocolate, de qualquer tipo e em qualquer forma! Exageros à parte, e embora não pense tornar-se vegetariana a 100%, faço por experimentar cada vez mais pratos de origem vegetal. É um equilíbrio saudável, para mim e para o planeta.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Aquela que informasse que, afinal, a vida animal não está tão gravemente afectada como sabemos que está. Que o planeta, afinal, não está com os níveis de poluição com que realmente vivemos e que, afinal, o plástico não está perto de ultrapassar a quantidade de peixes nos mares.

Qual a máxima que a inspira?
“Temos duas casas: o nosso corpo e o nosso planeta. Cuidemos bem delas”. Cada vez mais acredito que ser saudável pressupõe um bem-estar como um todo, que obriga atenção e cuidados a vários níveis, que começam dentro de nós.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Embora 2020 seja um ano para esquecer, gosto do momento em que vivo. A minha geração teve uma infância de brincar na rua, sem ecrãs, e goza hoje de um conforto que era impensável aos nossos avós. Acho que é uma boa época, onde podemos criar as nossas próprias oportunidades.

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima