Tenente Hélio Soares, maestro da Banda Militar dos Açores

“Espero que sejamos um ponto de foco para as filarmónicas tentarem seguir”

 Donde vem o seu interesse pela música?
Entrei na Filarmónica Nossa Senhora das Neves, da Relva, com cerca de 8 anos. O chefe da Banda na altura era militar e o contra mestre também era militar. Há medida que fui crescendo, fui estudando música e ingressei no Conservatório de Ponta Delgada, também incentivado pelas pessoas que estavam na banda há época, Sargentos-Chefes, como foi o caso do senhor Nuno Almeida, que me incentivaram a ir para a tropa. Optei por seguir este caminho.

Penso que a Banda Militar é a mais antiga filarmónica dos Açores? 
Se formos analisar pelas origens de todas as bandas, esta tem muitos anos e surgiu por volta de 1830. Mas neste momento, a banda tem oficialmente 83 anos. Foi a data em que foi decretado que devia existir uma banda militar em cada zona do país. Isso é muito mais recente e remonta a 1937. Mas já temos música militar nos Açores há quase 200 anos. 

Presentemente a Banda Militar dos Açores é composta por quantos elementos?
A Banda Militar neste momento tem cerca de 40 elementos, entre Sargentos, Soldados e um Oficial. 

Este ano foi um ano bastante diferente devido à pandemia. Como têm sido estes tempos com esta nova realidade?
Têm sido tempos difíceis para a cultura em geral e nós também estamos incluídos nisso. No entanto, temos tentado manter algum trabalho dentro das normas que são impostas. Temos feito música de câmara em pequenos agrupamentos aqui dentro para manter a forma dos músicos, para que, quando isto acabe, possamos retomar a nossa actividade musical. Naturalmente também tivemos os nossos ensaios cancelados e retomamos os ensaios por grupos, em quartetos e em quintetos. É assim que temos feito a gestão do nosso serviço e, de vez em quando, conseguimos realizar alguns ensaios de naipes um pouco maiores, mas nunca com a banda na sua totalidade.

Que programação e actividades tinham planeadas e que tiveram de ser canceladas?
Todos os anos costumamos fazer alguns concertos didáticos e masterclasses mas claro que, este ano, com estas restrições todas isso não será possível de concretizar. Estamos a aguardar por melhores tempos para podermos continuar com esse tipo de trabalho que realizamos na ilha toda e também, por vezes, fora da própria ilha. 

Têm algum serviço agendado?
Neste momento ainda não temos nada agendado. 

A Banda Militar dos Açores tem muita importância na formação de jovens músicos.
Sim, é verdade. A maioria dos maestros das bandas ainda é militar e leva esse know-how do seu trabalho para as filarmónicas. Isso é algo que nos orgulha muito, o facto de podermos contribuir assim para uma das tradições culturais mais antigas da população açoriana, que são as filarmónicas. Apesar de já existirem muitos vindos do Conservatório, a grande maioria ainda é militar.

Qual é no fundo a grande diferença da Banda Militar para as outras bandas filarmónicas?
A grande diferença prende-se desde logo por ser o único agrupamento profissional dos Açores do género, aliás em termos musicais, é o único agrupamento profissional. Temos músicos que são formados mesmo na área e claro que isso faz uma grande diferença para as bandas filarmónicas civis.

O vosso reportório difere muito das filarmónicas civis?
O reportório que apresentamos depende do contexto do nosso serviço. Nós adaptamos o nosso reportório mediante o público para quem vamos tocar. Se for o caso de um concerto didático tocamos coisas direcionadas para crianças, mas os nossos concertos em geral, para a população, são de um nível e difiuldade muito alto e que não é executada por qualquer filarmónica. As músicas são de elevada dificuldade e apesar de haver já muito boas filarmónicas nos Açores, não conseguem tocar o repertório que nós conseguimos. A qualidade dos nossos músicos permite-nos apresentar um repertório que as bandas civis não conseguem. 
  
Que significado tem para si pertencer à Banda Militar e ser o Maestro da Banda actualmente?
Para mim é um orgulho servir o exército português e servir Portugal através da música. Isso é algo com que sonhava desde criança e que acabei por conseguir concretizar. Seja como músico, seja igualmente como Maestro neste momento. O mais importante é servir Portugal e neste caso o Exército, através da música que é uma paixão que todos nós na banda temos.

Olhando para o futuro, que planos e que objectivos gostava de ver atingidos pela Banda Militar?
Primeiramente gostaria que esta pandemia se fosse embora para podermos retomar os nossos concertos e principalmente, algo que tenho uma paixão particular que são os concertos didáticos que a Banda Militar realiza. São uma aproximação à população e muitas vezes constituem-se como a primeira experiência e contacto das crianças com a música ao vivo. Ensinamos algumas coisas sobre os instrumentos e existe uma interacção fantástica entre os músicos da banda e as crianças. Isso é do que sinto mais falta neste momento e é isso que espero que voltemos a ter dentro de pouco tempo.

Vocês vêm-se como um exemplo?
Essa é uma pergunta difícil. Mais do que um exemplo espero que nós sejamos um ponto de foco para as filarmónicas tentarem seguir. A Banda Militar dos Açores vai tentar sempre estar na vanguarda e ser a ‘estrela do norte’ das outras filarmónicas.     
                                               

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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