AçoresMel cria velas natalícias a partir de cera de abelha para fazer face aos prejuízos de 2020

A ideia existia já desde o ano de 2019, mas foi apenas com o decorrer da pandemia que José Gomes reuniu as condições necessárias para criar um novo produto derivado das colmeias que pudesse, de alguma forma ,ajudar a contornar os prejuízos de cerca de 90% registados na AçoresMel no último trimestre.
Assim, e aproveitando o facto de se aproximar a celebração do Natal, o empresário colocou no mercado local um conjunto de mais de 30 velas diferentes feitas a partir de cera de abelha, todas elas remetendo de alguma forma para a temática natalícia.
De acordo com o proprietário da AçoresMel, este foi o resultado da transformação do subaproveitamento de um produto da colmeia, consistindo “numa forma de valorizar o produto e fazer face à crise”, encontrando-se de momento a estudar novos produtos que pretende colocar no mercado no próximo ano.
No que diz respeito aos moldes das velas, trouxe-os de um intercâmbio com outros produtores realizado no leste europeu, ainda no ano de 2019. Contudo, conforme explica, acabou por não ter tempo suficiente para se dedicar ao projecto no ano passado, uma vez que conta com um projecto maior em andamento, uma melaria industrial.
Apesar de ser o único encarregado de fazer estas velas chegarem às lojas, podendo ser encontradas no Rei dos Queijos e no Príncipe dos Queijos, José Gomes não consegue precisar quantas velas já fez, sabendo apenas que este é um produto em que deposita “grandes expectativas” devido à procura que está a ter.
Para além das lojas locais onde este produto está disponível actualmente, refere ter já sido também contactado por empresas localizadas em Portugal continental que pretendem adquirir estas velas feitas a partir da cera produzida pelas suas abelhas.
Mesmo sendo este um produto que existe também no continente português, José Gomes refere que nos Açores há a vantagem de as abelhas não terem doenças graves, ao contrário daquilo que acontecerá no resto do mundo, tendo em conta que estas efermidades também se reflectem nas ceras.
“Aqui nós temos a vantagem de não ter doenças graves nas abelhas, ao contrário do resto do mundo, e essas doenças também se afectam as ceras. As nossas ceras estão isentas de químicos e isso tem vantagens para o consumidor. A cera de abelha, quando em vela e queimada em casa tem fins terapêuticos, faz-nos bem, principalmente ao sistema respiratório. Não servem apenas como enfeite, embora sejam muito bonitas e muito bem conseguidas, mas são velas para nós utilizarmos”, explica.
Apesar do momento difícil por que se encontra a passar enquanto empresário, certo é que “as encomendas sobem de dia para dia”,  salientando ainda que “quando as pessoas vêem as velas ficam encantadas com as formas que têm, e mesmo sabendo que é cera de abelha as pessoas apreciam muito este produto”.
Esta boa aceitação deste novo produto irá, conforme refere, “ajudar neste fim de ano e no ano de 2021”, considerando que nesta fase “tudo o que existir de novo e tiver boa aceitação irá ajudar bastante porque está tudo muito difícil actualmente”, referindo-se às enormes quebras registadas sobretudo nos meses de Julho, Agosto e Setembro, devido à ausência do turismo, sector para o qual estava muito vocacionado.
Apesar de admitir não se ter dedicado tanto ao escoamento dos seus produtos no mercado local, José Gomes afirma que não se arrepende de ter optado por orientar o seu negócio para o turismo, uma vez que 90% dos seus produtos eram adquiridos para e por este sector, quer pelos próprios turistas, quer por unidades de alojamento local na ilha de São Miguel, lojas de souvenirs e, ainda, nas fábricas de chá existentes na ilha.
Tendo isto em conta, o empresário espera que a ausência do turismo seja passageira, considerando que o arquipélago beneficiará do facto de estar “numa posição privilegiada em relação ao resto do mundo, pelo menos por enquanto”, devido ao número mais reduzido de casos positivos existentes: “Julgo que em 2021 tudo melhorará e que em 2022, se tudo correr bem, se conseguirmos ultrapassar a pandemia, começaremos com os valores de 2019”.
Porém, mesmo com este pensamento positivo, e uma vez que se prepara para aumentar a sua produção, José Gomes admite começar a procurar por fazer uma maior distribuição dos seus produtos, tanto na ilha de São Miguel como nos Açores em geral. 
“Não tinha necessidade de ir para outros concelhos nem de percorrer a ilha toda porque o meu produto era escoado aqui e o turismo levava 90% da produção (…), mas agora vou ter que me dedicar um bocadinho à distribuição na ilha e nos Açores. Vou ter que ir para os pequenos mercados.
Não estou arrependido de ter apostado tanto no turismo porque foi uma excelente aposta e vai continuar a ser, especialmente com este aumento de produção que estou a prever, e se nos deixarem, porque o mel também está muito dependente das condições climáticas e da flora existente”, salienta.

Melaria industrial permitirá 
aumento da produção

Este aumento de produção a que se refere será possível graças à construção de uma melaria industrial, que se encontra a decorrer num armazém no Parque Industrial da Ribeira Grande, onde será possível fazer “todo o processo de extracção de mel, de acondicionamento, de embalamento e de rotulagem”, esperando conseguir inaugurar o projecto até ao final deste ano, uma vez que este é também um dos projectos que o empresário pretendia ter levado a cabo há mais tempo.
Para além de permitir triplicar a sua actual produção de mel, uma vez que enquanto Unidade de Produção Primária pode apenas produzir 650 quilos de mel anulmente, a melaria industrial irá permitir aumentar também a produção de outros produtos da colmeia, permitindo ainda “chegar a novos mercados” e fazer exportação como deseja.
Em acréscimo, pretende associar à sua melaria uma experiência nova, destinada quer ao turista quer ao local, permitindo uma espécie de visita guiada pela unidade industrial, onde o visitante poderá aprender e conhecer mais sobre como funciona todo o processo de apicultura, havendo ainda espaço para que as pessoas possam também ter acesso às abelhas, desde que devidamente equipadas.
Para colocar este projecto em andamento, José Gomes espera também reunir as condições para contratar “no mínimo dois funcionários”, sendo este um plano que tinha para concretizar no ano de 2020 graças às proporções que a AçoresMel tem vindo a ganhar desde a sua criação, esclarecendo ainda que – ao contrário do que se possa pensar – a apicultura é “um trabalho para todo o ano”.
Tendo em conta os planos que tinha para este ano, e o facto de “tudo estar a correr às mil maravilhas”, não esconde que o seu negócio foi muito afectado pela pandemia, adiantando que apenas conseguiu beneficiar das moratórias existentes que, no seu entender, “ajudaram imenso devido às quebras de negócio”.
No entanto, salienta, não conseguiu ainda beneficiar de nenhum apoio direccionado para a apicultura, uma vez que existem “poucos ou nenhuns”, uma falta que poderia ser colmatada, conclui.
 

Joana Medeiros

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima