Soprano Lírico micaelense Helena Castro Ferreira

“Preocupa-me muito o ensino artístico em Portugal...”

 Correio dos Açores - Antes de seguir a formação em canto lírico, tinha em mente alguma outra profissão? 
Helena Castro Ferreira - Não. Nunca soube o que queria ser no futuro, até descobrir que se podia estudar música nas universidades. Assim que soube que poderia seguir a carreira de música, nunca mais tive dúvida de que era o que iria fazer. 

Porque e apaixonou pelo canto?
Porque o considero um desafio constante. Ao contrário do que normalmente se pensa, cantar não é fácil. A ideia de que se nasce com um dom não é realista. Tem que haver, naturalmente, aptidão e algum talento natural, mas acima de tudo há muito trabalho que tem de ser feito. Muitas horas de prática, muitos exercícios corporais e de voz. O canto lírico tem uma técnica exigente. É suposto cantarmos sem microfones e sermos ouvidos até à última fila de espectadores enquanto uma orquestra inteira nos acompanha. Além disso, é um trabalho individual que parece não ter fim. Sempre que se resolve um problema técnico parece que surgem outros três. Eu gosto de me sentir desafiada e adoro superar desafios.

Foi estudar para a Hamburgo. A formação que era oferecida cá não era suficiente?
Nos Açores a formação oferecida é a equivalente ao 12º ano e em Portugal Continental, onde estudei 2 anos, achei a formação demasiado teórica para um trabalho que é prático. Não fazia sentido para mim ter apenas uma hora de aula de canto semanal e outras tantas de disciplinas cuja matéria facilmente se encontra disponível em livros ou através de uma simples pesquisa no google. Preocupa-me muito o ensino artístico em Portugal neste momento. No que diz respeito ao canto lírico, os alunos entram no curso superior com apenas 18 anos (quando finalmente começam a ter voz suficiente para iniciarem as aulas de canto), têm uma hora semanal de técnica vocal por 3 anos e já se dizem licenciados. Depois fazem um mestrado no qual durante o primeiro ano continuam a ter novamente apenas uma aula semanal prática (em algumas universidades e escolas superiores de música têm ainda menos que isto), fazem um estágio e “puff!” transformam-se em professores de canto. O canto lírico, por si só, exige uma certa maturidade vocal que não está normalmente presente ainda em pessoas tão jovens.
Em Hamburgo passávamos o tempo em cima do palco. A única cadeira realmente teórica que tive era “História da Ópera” e era opcional. Saí a sentir-me bem preparada e confiante do que tinha aprendido nos 4 anos e meio que passei naquela escola superior.

O ambiente por lá era muito competitivo?
Sim. Mas ao contrário do que já vi e vivi em Portugal, a competição em Hamburgo era muito positiva. Faz-nos mais trabalhadores e consequentemente melhores e conscientes do nosso valor. Éramos 5 na minha turma de mestrado em ópera mas uns 50 na escola toda, a contar com os bacharelatos e os outros mestrados de canto e sempre nos apoiámos. Se alguém tinha uma dúvida ou se alguém se sentia mais desanimado estávamos lá uns para os outros. Se havia audições para algum papel que pudesse interessar a algum colega, nós enviávamos a informação. Em Portugal não conheço nenhuma escola com tantos cantores mas vivi na pele algumas situações desconfortáveis. Os cantores escondem informações sobre audições e castings, por exemplo, e estamos cada um por si próprio. É muito difícil conseguir trabalho sem se conhecer as pessoas certas. 

Como é a agenda de trabalho, quando prepara um espectáculo?
Agora com a pandemia a minha agenda está bastante livre. Tinha intenções de ir fazer uma ronda de audições pela Europa em Setembro passado e ver que teatros e papéis me calhavam mas acho que vou aguardar mais um aninho antes de me colocar em aviões e outros transportes públicos. De momento estou a dar aulas no Conservatório Regional de Ponta Delgada e espero conseguir desenvolver junto com os actuais e antigos alunos um total de 3 óperas pequenas até Julho de 2021.

Quando não tem espectáculos, como divide ou tempo?
A aprender outros papéis para audicionar para outros espectáculos, a organizar aulas e a pensar e desenvolver as encenações das produções que vou fazendo com os meus alunos.

Que tipo de repertório lhe dá mais satisfação fazer?
Gosto muito de cantar Donizetti, Mozart e agora que a voz está mais “madura” um pouco, sinto-me muito bem a cantar Verdi.
Ainda que muitos papéis para a minha voz sejam de mulheres a sofrer de amor e a morrer no final da ópera, a verdade é que sempre tive um lado meio “galhofeiro” que me faz adorar os papéis cómicos. 

Quais são os seus compositores preferidos?
Esta é fácil: Bach, Mozart e Poulenc!

Que papéis em ópera sonha fazer?
É uma boa questão mas a verdade é que não sei. O papel que mais queria fazer há vários anos atrás era o de Tirésias em “Lesmamelles de Tirésias”. Fiquei muito feliz quando o consegui mas depois fiquei imensamente desiludida quando soube que teria que o fazer em alemão em vez de francês, o que na minha opinião era um autêntico assalto e estrago à obra já que se perderam imensas conotações na tradução. Bem que se diz para termos cuidado com o que se deseja. Desde aí que não sonho com mais papéis. 

Quais os aspectos mais desafiantes da profissão?
Manter-me positiva. A taxa de sucesso de um bom cantor em audições é de 10%, se tanto. Lidamos com muita negação e às vezes é difícil continuarmo-nos a convencer de que não é nada pessoal, de que fizemos um bom trabalho na mesma e de que somos capazes. Já perdi papéis por coisas simples como ser mais alta do que o tenor que teria que contracenar comigo nas cenas românticas, por exemplo. Como também já fiquei com um papel porque o encenador “embirrou” que queria que a protagonista fosse morena e não loira e com o meu tipo de físico. O problema é que é difícil desconectarmo-nos da nossa voz. Quando o piano está desafinado, ele ESTÁ desafinado mas se eu desafinar eu SOU desafinada. Portanto, quando não somos escolhidos para um papel, principalmente um que queremos muito fazer, às vezes é complicado ser imparcial e conseguir pensar que simplesmente não temos o som que o maestro procura, ou o look que o encenador está a visualizar para a cena. A tendência, muitas vezes, é tentar procurar o que fizemos de errado na audição e nos ficarmos a culpar de tal.

Que grandes mitos o público ainda tem sobre as cantoras líricas?
Eu reparo que as pessoas se admiram por eu não ter peso a mais, por exemplo. O facto é que hoje em dia é muito difícil fazer carreira quando se tem peso a mais. Adoeci no final de 2015 e ganhei muitos quilos até voltar a ficar bem a meio de 2016. A minha manager andou a ligar para os Teatros a dizer que eu já tinha perdido os tais kilos para me voltarem a chamar para as audições.
Outro mito ainda é o de julgarem que nasci com a voz que tenho em palco e que não devo conseguir cantar de outra forma que não aquela. Surpreendem-se quando me ouvem cantar pop, por exemplo, com “voz normal”.
No entanto o maior mito ainda diz respeito à ópera em si. As pessoas não sabem que a ópera é teatro cantado e que hoje em dia vem com legendas ao vivo permitindo que se siga o enredo com maior facilidade, já que normalmente estamos a cantar em língua estranha ao público. Quando pensam em ópera imaginam uma mulher forte aos berros e que não se entende o que diz.

O que faz antes de entrar em cena?
Depois da voz aquecida, relaxo.

Que cuidados temcom a voz?
Principalmente: Evito bebida/comida muito quente ou muito fria. Tento dormir sempre bem. Evito falar nas primeiras duas horas a seguir a acordar. Bebo muita água. Evito locais com fumo e locais com muito barulho que me obriguem a falar alto.

Que conselhos daria a uma jovem que quer seguir esta carreira?
O melhor mesmo é perguntar-lhe se acha que pode ser feliz a fazer outra coisa pois é uma carreira muito difícil e de pouca estabilidade. Se a resposta for “não”, digo-lhe que vá o quanto antes para o estrangeiro. Seja sociável (os colegas são os futuros maestros, músicos, managers, etc.), tenha disciplina, paciência pois os resultados levam tempo a chegar e estude de forma inteligente para não gastar tempo, já que não se deve cantar demasiado por dia. Ouça muita música, procure conhecer ao máximo a sua voz, os seus limites e os seus pontos fortes. Não dê ouvidos a toda a gente e acima de tudo, não diga a si própria aquilo que não diria aos colegas. Se somos capazes de encontrar coisas boas para lhes dizer quando o concerto não lhes corre bem, devemos ser capazes de fazer o mesmo connosco. Somos humanos, não somos robôs e não existem concertos/performances perfeitas.

Que projectos a esperam em 2021?
Vai depender muito de conseguir ir ou não fazer as audições. Ainda é cedo para saber. Além disso, há cada vez mais Teatros a fechar por tempo indeterminado… 
Em São Miguel estou muito entusiasmada com a possibilidade de apresentar em Março a “Suor Angelica” de G. Puccini, juntamente com antigas alunas e colegas do Conservatório Regional de Ponta Delgada. Estou também a desenvolver um espectáculo com música de cabaret com compositores como Kurt Weil, E. Satie e F. Poulenc, juntamente com o pianista, André Costa, que teve de ser adiado devido à pandemia. Ainda não sei quando estreará. Espero que em breve!

Como vive esta pandemia?
Com muitas saudades de cantar em público e com muito receio de os Teatros ficarem fechados por muito tempo. Tenho a sorte de ter, paralelamente, uma carreira como professora de canto e interpretação cénica, senão estava a passar, tal como muitos artistas, grandes dificuldades financeiras.

Como correu o último espectáculo no Coliseu Micaelense?
Eu acho que correu bem. Lá está: tenho que me lembrar de que sou humana e não um robô e perdoar-me por umas coisinhas que, pelo menos na minha cabeça, foram menos boas. De qualquer forma, cantar acompanhada por uma orquestra, neste caso a Sinfonietta de Ponta Delgada, é um enorme prazer e algo raro na nossa terra. Fiquei muito feliz com o convite do maestro, Amâncio Cabral, e por cantar W. A. Mozart. Pelo menos uma das árias era muito desafiante. Ando a trabalhá-la há 10 anos e, embora já esteja em condições de ser apresentada, continua a ser um grande “calhau” que exige um trabalho e estudo constante. Outubro, como mês da música, foi bem celebrado, considerando o estado actual: além do Concerto no Coliseu, tive a sorte de me juntar aos colegas do Conservatório para um concerto no Teatro Micaelense e, em dueto com o pianista, Tiago Dias, apresentar várias canções do repertório erudito português. Foi o regresso ao palco após tanto tempo “parada”. Soube-me tão bem, ainda para mais podendo cantar poemas de Camões e do nosso Antero de Quental. Tenho poucas oportunidades de cantar em português, o que é uma pena pois os nossos compositores não ficam de forma alguma aquém dos estrangeiros. Também tive a honra de cantar com o coral de São José, a convite do maestro Luís Filipe Carreiro, e acompanhada pela pianista Svetlana Pascoal, na reabertura do Teatro Ribeiragrandense. Fizemos um repertório que me dá muito gozo cantar. Muito animado e divertido, passando por musicais e operetas. Enfim, um programa que creio que deixa qualquer ouvinte bem-disposto. Espero que 2020 não fique por aqui e que se continue a adoptar medidas e a encontrar alternativas para se manter a cultura activa. Cancelar é o passo mais fácil mas há formas, como se viu nestes três, muito diferentes, concertos de Outubro, de se fazer cultura de forma segura e garantir a subsistência aos nossos artistas. É, claro, estranho saber-se que se tem a casa cheia e ver tantos lugares vazios na audiência e ter-se um público meio escondido por trás das máscaras. No entanto, quanto à energia que nos chega ao palco, sinto-a igual. Acho que o público, tal como nós, já sente a necessidade de assistir a espectáculos e concertos.
                                     

António Pedro Costa

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Autor: CA

Categorias: Regional

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