Entre a dor e a chicana política

1- Há oito dias atrás, o Representante da República ouviu os partidos políticos com assento parlamentar na legislatura que se inicia a 16 de Novembro, isto na sequência das eleições do dia 25 de Outubro. 
2- Essa audição serviu para o Representante da República aquilatar que propostas apresentariam os partidos mais votados, PS e PSD, que permitissem uma solução de governo que garantisse estabilidade, evitando o que aconteceu em 2015 com o II governo de Passos Coelho/Portas, que tinha sido investido por ter mais votos e mais deputados, mas que depois foi derrubado por uma moção de censura proposta pela “geringonça” entretanto formada pelo Partido Socialista, pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista, num arranjo em que foi seu cabouqueiro o Presidente do PS, Carlos César.
3- O PSD/A, tal como havia o seu líder anunciado na noite de 25 de Outubro, cedo começou a preparar uma aliança de governo, com o CDS e o PPM, o que lhe permitiu apresentar-se na Madre de Deus perante o Representante da República, com uma coligação formada pelos três partidos, que por junto têm mais um deputado do que o PS/A.
4- Como se sabe, essa coligação foi mais longe e garantiu o apoio parlamentar para a legislatura de dois partidos estreantes, o Chega e a Iniciativa Liberal.
5- O PS/A parece ter apostado numa estratégia de se apresentar só, convicto que seria indigitado para formar o novo governo, porque tinha mais deputados do que o PSD/A, e negociar depois na Assembleia Legislativa o apoio casuístico com o Bloco de Esquerda, com o PAN e com o IL. 
6- Acabou traído pela sua estratégia porque a coligação liderada pelo PSD/A, perante os acordos firmados, apresentou ao Representante da República mais garantias de estabilidade, respondendo à mudança que foi pedida pelos eleitores.
7- O PS/A reagiu mal à opção do Representante da República, mas a decisão por este tomada está de acordo com o que determina a Constituição e o Estatuto, embora também fosse possível indigitar o Presidente do PS/A a formar Governo, sabendo-se de antemão que o acordo parlamentar da coligação que foi entregue ao Representante da República levaria à sua rejeição, tal como, dias antes, já admitia o Presidente honorário do PS/A, Carlos César.
8- Assim, a opção do Representante da República foi realista e prática porque evita o arrastar do processo de formação do novo governo numa altura tão difícil como aquela que atravessamos em termos sociais e económicos sem se saber como será o dia de amanhã.
9- Abre-se um novo ciclo, que é desejável em termos de alternância democrática, e começa com o partido que lidera a coligação a apresentar publicamente os objectivos que tem, e as políticas que unem a plataforma parlamentar e que o ‘Correio dos Açores’ publica nesta edição.
10- Todas as propostas vão na linha de tudo fazer pelos Açores, reafirmando os acordos escritos dos partidos que vão formar e apoiar o governo, e nelas não se enxerga os extremismos que foram nacionalmente e regionalmente propalados e diabolizados. 
11- Os Açores estiveram no olho do furacão político nacional, com ilustres figurantes e ignorantes a falarem e a opinarem do que não sabem e do que em boa verdade não lhes interessa, a não ser arranjar tema para fazerem a chicana que alimenta as notícias da imprensa nacional.
12- O Primeiro-ministro António Costa também entrou no “baile”, mas esse é desculpável porque estava em causa o seu partido. 
13- Coisa diferente foi a análise política do Presidente da República, quanto à solução de incluir o apoio de um partido que ele classifica como de anti-sistema, querendo agradar a Gregos e a Troianos.
14- Ainda há pouco tempo, na Grécia, o partido xenófobo Aurora Dourada foi extinto pelo Tribunal e vários dos seus dirigentes condenados a prisão.
15- Se o Presidente da República entende que o Chega é anti-sistema, então tem a obrigação de requerer ao Tribunal Constitucional que decida extinguir o partido Chega, assim como todos os demais partidos anti-sistema, e não se esqueça que há partidos enquadrados no sistema que rejeitam políticas do sistema, como a União Europeia e a NATO e têm merecido o aplauso presidencial.
                                                                                                 
Américo Natalino Viveiros
 

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Categorias: Editorial

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