17 de novembro de 2020

Opinião

Sempre eles, os Pobres…

O acordo entre a já denominada “Aliança Democrática Açores” e os seus parceiros à direita incluía a redução para metade do número de utentes do RSI – rendimento social de inserção durante os 4 anos da legislatura. 
Para o partido Chega, um dos subscritores do acordo, para além doutros pontos, este foi o que mereceu a sua pronta adesão. Aliás, em coerência com uma das suas outras “ideias força” constantes do seu programa, como seja acabar com o paradigma de “existir metade da população a trabalhar e pagar impostos, para a outra metade viver em ociosidade e do subsídio dependência”.
O governo anterior do PS, que durante 24 anos esteve no poder, embora a cada legislatura inscrevesse nos respectivos programas o tema da pobreza e do RSI, os resultados, a analisarem-se as estatísticas, foram insignificantes.
Será porque as verbas para custear a medida provinham do orçamento do governo central?
Ou dava alguns votos a cada acto eleitoral? A confirmar-se seria duma enorme falta de ética, que só a muito custo se poderá acreditar em tal desaforo.   
Ou terá sido porque guardaram na gaveta os valores da Social-Democracia, sua matriz identitária, perdendo-se em encontrar formas de manutenção do poder, a que não faltaram as chamadas “obras de regime”, assim como ensaiar projectos corporativos e megalómanos de feição “peronista”, mesmo que isso leva-se ao afastamento dos militantes que se atreveram a dizer não ao “chefe”?
 Pode não ter sido assim, mas como “em política o que parece é”, por vezes até parecia. 
Estavam criadas as condições para o Dr. André Ventura, Chefe do Chega, repetir nos Açores o sucesso eleitoral que tem averbado em Portugal, sabendo, com eficaz oportunismo populista e anti sistémico, federar o descontentamento, para além de, com mestria, por em prática a célebre máxima de Lenine “ os fins justificam os meios”.
Tivessem tido, os responsáveis governamentais, o bom senso e a humildade de juntar na mesa de trabalho, para além do livro de Maquiavel “ O Príncipe”, a obra de Monsenhor Weber Machado Pereira, “Denunciar, Formar e Amar”, e os números da nossa vergonha, não só da pobreza como dos beneficiários do RSI, talvez não fossem tão escandalosos.
Haja esperança no novo governo liderado pelo social-democrata Bolieiro, e nas suas convicções de socialista humanista e reformista. Contudo, uma certeza temos, o livro de Monsenhor Weber faz parte da sua bibliografia, por ter estado presente no seu lançamento e um exemplar lhe ter sido ofertado. 
  “Para que a luta contra a pobreza possa ter algum sucesso tem de ser combatida nas suas causas e neste aspecto pouco se tem feito. Tentar enxugar a água dentro de um quarto inundado sem fechar a torneira responsável pela inundação não será, certamente, tarefa fácil! Tem de ser feito um esforço muito grande para tentar fechar a torneira”. 
Assim se pronunciava Monsenhor Weber numa entrevista em Junho 2016, e acrescentava, “o RSI é um indicador bastante seguro do índice de pobreza. Se a taxa de pobreza na Região é a mais alta de todas as regiões de Portugal é óbvio que temos de ter a maior taxa de beneficiários do RSI. Já ouvi altos responsáveis do nosso governo regional afirmarem que não somos a região mais pobre do País. Isto é muito interessante mas traz-nos responsabilidades acrescidas na distribuição justa da riqueza existente”.
Manda o bom senso que não se possa acompanhar os que só conseguem ver no RSI um mal. Concorde-se com a medida. Contudo, existem casos de beneficiários que não “cumprem as regras”.
 Como acontece com outros apoios e subsídios de avultados montantes. 
Há que incrementar a fiscalização, quer nuns casos quer noutros.
Mas os exemplos positivos são muitos. O que não falta é gente trabalhadora que “endireitou” as suas vidas por via do RSI. 
Custa admitir a tese ultra liberal dos que, reconhecendo os princípios solidários do RSI, acham impossível a sua aplicação em povos de matriz latina. Curiosamente, ou talvez não, nada dizem sobre os subsídios de milhões, muitos dos quais estão na raiz de fenómenos de corrupção, igualmente, com predominância nos países latinos. Portugal é exemplo. 
”…Aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza...”. Lembrava o Papa Francisco no dia 15 de Novembro “Dia Mundial dos Pobres”.
Será por estas afirmações que o Líder – Chefe do movimento Chega André Ventura, referindo-se ao Papa Francisco afirmava “Este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo e está a destruir as bases do que é a Igreja Católica na Europa”.
Ou então será porque o Papa ousou visitar os refugiados na ilha de Lampedusa, merecendo duras críticas do seu “camarada” italiano Salvini, já conhecido como o novo Duce, herdeiro histórico de Mussolini. A isto costuma chamar-se Xenofobia.
Cabe aqui uma palavra de gratidão e reconhecimento ao “Correio dos Açores”, pela coragem e coerência em alinharem em sucessivas edições, a Encíclica “ Todos Irmãos”, precisamente a última do tão criticado, também por estas terras do Senhor Santo Cristo dos Milagres e do Divino Espírito Santo, Sua Santidade o Papa Francisco. 
Afinal Jorge Mário Bergoglio tem-se limitado a ser um Papa Cristão, na opinião de crentes e até de não crentes, admiradores da coragem missionária do já conhecido como o Papa dos Pobres, tal como S. Francisco de Assis, que lhe inspirou o nome.
 

António Benjamim

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