Prejuízos em ourivesarias de Ponta Delgada foram superiores a 50% devido à pandemia

Para além do sector em que trabalham, os dois ourives com quem o Correio dos Açores conversou a propósito dos impactos gerados pela pandemia, Mário Botelho e Liberal Carreiro, têm em comum o facto de se terem tornado sócio-gerentes das suas ourivesarias em 2007, antes de se abater sobre o mundo uma das maiores crises financeiras das últimas décadas.
No entanto, apesar de a crise económica que actualmente existe ser “a pior de sempre”, estes empresários responsáveis pela Ourivesaria Aliança e pela Ourivesaria Ónix, respectivamente, consideram que “nunca se ultrapassou a crise” de outrora, embora o crescimento da economia regional e os números de 2019 fizessem prever resultados extraordinários no ano de 2020.
Havendo ainda rastos da anterior crise, e apesar da resiliência dos empresários que mantêm as portas abertas para os poucos clientes que surgem numa Ponta Delgada quase deserta, Mário Botelho refere que as quebras de negócio vão além dos 50%.
Conforme conta, estes resultados existem devido ao facto de “não ter havido facturação nos melhores meses”, o que faz com que até ao final do ano – e durante a época baixa – o empresário continue “a trabalhar mais na expectativa do que outra coisa”, poupando-se assim a “ilusões”.
Para fazer face aos prejuízos elencados pelos empresários mais afectados pelos impactos directos da pandemia na economia regional, o ourives refere que concorreu a vários dos apoios criados pelo Governo Regional para as empresas que, por sua vez, “não foram os melhores” que poderiam ter sido criados mas que “permitiram trabalhar com algumas contas um pouco mais estáveis”.
Em acréscimo, precisamente por considerar que estes apoios não são suficientes, aponta que as “reservas” da sua pequena empresa estão a ser utilizadas para combater os actuais prejuízos, sendo esta “a única forma” de a manter, tendo em conta os vários “compromissos assumidos com as várias entidades e fornecedores”.  
Assim, tendo em conta as prioridades existentes no momento, foram “muitos os investimentos que ficaram para trás”, refere o empresário, nomeadamente no que diz respeito a novas “compras e a investimentos na própria casa”, impensáveis num momento em que “fazer um plano para amanhã é impossível”.
Por outro lado, acresce ainda o facto de os sócios-gerentes não terem tido o apoio desejado, uma vez que as linhas de crédito divulgadas não são a solução ideal para estes negócios, tal como as moratórias existentes.
A haver expectativas para o melhorar da situação resta o Natal, celebrado dentro de pouco mais de um mês, uma época que apesar de “alegrar as pessoas” não gera nenhum tipo de expectativas no comerciante, sendo apenas possível fazer uma estimativa daquilo que será a época festiva a partir do dia 8 de Dezembro, quando o volume de compras costuma aumentar quando em comparação com anos anteriores.
Actualmente, a par dos dias em que o movimento no interior da loja é praticamente inexistente, afirmando Mário Botelho que existem dias em que os seus funcionários estão “praticamente parados”, no dia-a-dia “as pessoas procuram uma prenda mínima para oferta”, excluindo também as ofertas que as pessoas faziam para si com mais regularidade do que agora.
De acordo com o seu relato, foi a partir de Fevereiro que as vendas “começaram a cair abruptamente”, algo que foi depois intensificado pela ausência de turistas e de emigrantes, uma vez que estes últimos representam, por norma, cerca de 50% a 60% dos consumidores do comércio local, onde se inserem as ourivesarias existentes no centro de Ponta Delgada.

“Não houve nenhum mês em que a quebra de negócio fosse inferior a 45%”
Na caso de Liberal Carreiro, sócio-gerente da ourivesaria Ónix, resta esperar que “não se tomem as piores medidas possíveis”, temendo que – à semelhança da anterior crise – sejam necessários pelo menos dez anos para recuperar de alguns dos estragos provocados pelo novo coronavírus na economia e nos empresários ligados ao comércio local regional.
Apesar de afirmar que a empresa que gere tem “alguma solidez”, o que lhe permite continuar o negócio que decidiu abraçar em 2007 por sua conta e risco, relembra que “como em todas as empresas a solidez vai-se desgastando e chega-se a uma altura em que não há hipótese de sobrevivência”. Para continuar a “fazer os possíveis para sobreviver”, uma vez que este é o seu “ganha-pão”, este ourives ressalva que mensalmente é necessária – pelo menos – uma facturação de 5 mil euros, de modo a fazer face às despesas fixas que todos os meses devem ser asseguradas, tal como os ordenados dos funcionários e o respectivo arrendamento do espaço, sendo que apenas a partir daí é possível pensar em comprar artigos novos.
Em acréscimo, salienta que “a aflição” que neste momento é sentida pelos empresários do comércio local advém, sobretudo, do facto de 2019 ter sido “um ano muito bom e com muitas perspectivas”, o que levou a que “muitos gastassem para além do que deviam na aposta em 2020”, o que resultou “num prejuízo terrível”.
Desde a reabertura da sua ourivesaria, refere que “não houve nenhum mês em que a quebra de negócio fosse inferior a 45%”, o que justifica também pela quebra acentuada de turismo que se deu este ano.
No entanto, apesar do importante papel que o turista e o emigrante têm no desenvolvimento do comércio local, sendo o tipo de cliente que “faz mais mossa”, Liberal Carreiro realça a importância do cliente local que “compra pequenas coisas” diariamente, mas que “com as restrições que existem” começa a sentir “algum medo” para comprar no comércio local.
No que diz respeito à aproximação do Natal, o empresário adianta que o mais provável é que esta seja “outra vez uma desgraça” devido aos “condicionalismos previstos que serão mais apertados”. Por outro lado, refere que “o mais importante é controlar a pandemia”, tendo em conta os impactos positivos que isso poderá ter na população de uma forma geral.
Resta-lhe lamentar a forma como o Estado apoiou os seus empresários, tendo em conta o esforço financeiro que as empresas em funcionamento têm que fazer para pagarem os seus impostos, considerando por isso que o esforço feito pelo governo de uma forma geral não foi directamente proporcional.
“Em qualquer ramo de negócio, hoje em dia, deve-se encarar o facto de que apesar de ser algo que gostamos de fazer, é também um sacrifício porque trabalhamos muito para o Estado que, neste momento, não está a olhar para isso nem está a fazer tudo o que devia pelas empresas”, afirma.
Em acréscimo, e apesar de ter havido uma reversão nos apoios previstos para os sócios-gerentes, Liberal Carreiro salienta que estes foram recebidos “tardiamente”, uma vez que apesar de terem sido requeridos em Abril, foram apenas recebidos “há poucos dias”.

Joana Medeiros
 

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