19 de novembro de 2020

Ipinião - Bilhetes Postais

O Barracão do Peixe

Até ao princípio do séc. XIX, a cidade de Ponta Delgada não tem um local apropriado para feira ou mercado. É nas Arcadas “da Feira” e na Praça do Município, por entre barcos de pesca e de carregação varados a esmo, na Praça e ao longo da Rua do Areal, que se mercancia os produtos da terra e do mar.
Em Janeiro de 1822, tendo em vista “o bem publico e o asseio da praça desta cidade, onde até ao presente se tem vendido o peixe”, o Município delibera que se remova o seu mercado “para o largo que fica ao lado do Ponente do Corpo Santo, onde se deve fazer uma praça com telheiro e desaguadouros para o mar, a fim de ser conservado o peixe com todo o asseio”. E tratou-se de obter a proposta de um plano e orçamento da despesa para se construir o mercado do peixe – o Barracão –, à ilharga da ermida do Corpo Santo, na rocha sobranceira ao Areal de S. Francisco. No séc. XIX, é este o principal e mais importante porto de pesca de S. Miguel, conforme o relatório, de 1890, “Estado, condições e necessidades da indústria de pesca nos Açores centrais e orientaes”, do capitão-tenente Faria e Silva.
A construção arrasta-se, pois, em 1845, “está a nova câmara mandando concluir o barracão que a antecessora não acabara. Não sabemos a razão, porque se deixaram ficar expostas à deterioração do tempo as excelentes madeiras de que ia construído”. Mas este mercado já funcionava antes daquela data, pois, em 1838, a Câmara arrecada 540$975 réis “do Barracão do peixe”.
Nas invernias, a braveza do mar, tal como vai destruindo a Doca, também galga e fustiga o paredão natural do porto. Em Outubro de 1846, um temporal alui a quase totalidade do Barracão; não só as paredes ameaçam ruir como o pavimento apresenta fissuras de duas e três polegadas.
Em 1847, os operários da Doca apressam-se a demolir parte do edifício para evitar maior prejuízo no Inverno que se aproxima.
É cada vez mais premente o Município construir um novo mercado do peixe, e as obras em curso na Doca do Areal vão pressionar uma tomada de decisão. Em Maio de 1847, o Governo Civil comunica à Câmara Municipal que não pode dar continuidade às obras de reparação e ampliação da bacia da Doca sem “a demolição da Rocha sobre que assenta o Barracão do Peixe  . . . sendo uma necessidade por todos reconhecida que não pára a dita obra; exige da Camara, urgentemente, a dezignação  do Local para onde se mude o dito Barracão á custa da Fazenda”.
A Câmara escolhe o local da ermida de S. Pedro Gonçalves, “próximo ao logar, onde desembarcão os Barcos de Pesca”, apropriado e central “para que os habitantes da cidade não soffram o menor incommodo”.  Acresce haver ali abundância de água para a lavagem e limpeza dos barcos. Tal decisão vai bulir com a confraria dos pescadores, sedeada na ermida desde o séc. XVII.  Mas, “aos interesses particulares da Confraria do mesmo Santo devem preferir os geraes de uma população inteira”, como opinava o Açoriano Oriental em Outubro de 1846. 
O Município anui à mudança, com a condição de todas as diligências para a aquisição do terreno e despesas da construção do novo mercado de peixe serem por conta da Fazenda, e sob a sua inspecção. “E só neste termo deliberão se faça a dita mudança, e pelo contrario, será mantida pelos meios legáes a posse, em que a Camara se acha do seu estabelecimento”. 
Entretanto, o Barracão continua a degradar-se. Em 1847, “pelas 8 horas da manhã do dia de Santa Eufémia [dia 16 de Setembro], dezabarão dois enormes penedos da rocha do Barracão”; em Fevereiro de 1848 há outro temporal, e “a rua do Arial abrio brexa completa desde o Barracão até o Tilheiro . . .”
Ao invés da supracitada condição e termo, é o Município que, em 1871, compra o terreno à confraria, por dois contos de réis, e vai contrair um empréstimo para o Cais da Sardinha e Mercado do Peixe. “Da sardinha”, em referência à vereação municipal que constrói e inaugura a obra em 16 de Setembro de 1877, correligionária do partido político da governação alcunhado “da sardinha”, por ter a sua grande base de apoio nas classes populares, em oposição ao partido “dos tubarões”, constituído por gente poderosa da terra. 
Em 1948, o Mercado do Peixe é demolido para o prolongamento da Avenida Antero de Quental – o Aterro, inaugurado em 1891 –, ou seja, a construção da 1.ª fase da Avenida Marginal, do castelo de S. Brás à Calheta.
Fontes: 
Supico, “Escavações”; J. Andrade, “Ponta Delgada, 500 anos de história”; M. Ferreira, “As voltas que Santa Clara deu”; “Açoriano Oriental”.
 

Ferreira Almeida

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Categorias: Opinião

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