Tiago Silva, agircultor e produtor hortícola

“Noto que as pessoas procuram cada vez mais os produtos hortícolas regionais”

A conversa com Tiago Silva divide-se em dois momentos. O primeiro deles dá-se num dos terrenos que explora, na freguesia da Relva, onde nos mostra algum do trabalho que desenvolve. Dedicado à horticultura “praticamente desde o berço”, o interesse foi-lhe transmitido pelo pai, Paulo Moisés Silva. Com 30 anos de idade e há 12 “a tempo inteiro na agricultura”, Tiago Silva conta que ainda ingressou no Ensino Superior, mas o curso, que não era o mais desejado, pesou na decisão de desistir da Universidade e de se dedicar à vida agrícola.  
“Quando fui para o ensino superior não entrei no curso que queria. Queria Engenharia Agrónoma mas entrei em Gestão. Fiquei um bocado desiludido e acabei por desistir da Universidade. O Curso de Engenharia Agrónoma era também com o intuito de voltar aqui para a exploração com um outro nível de conhecimento”, afirma, destacando também que depois disso foi “tirando algumas formações que os Serviços Agrícolas iam disponibilizando. Foram algumas horas exaustivas mas consegui tirar delas bom proveito”.
Com uma área total de produção de 60 alqueires de terra, Tiago Silva explica como é feita a gestão dessa área e quais os produtos a que dedicam a sua produção.
“Não estão todos a produzir ao mesmo tempo e temos terrenos para várias estações. Temos terrenos para o inverno e para o verão. Temos praticamente todo o tipo de brássicas, que são todo o tipo de couves: repolho, couve lombarda, couve flor, brócolo, cenoura e também produzimos nabos”, refere.
Já no armazém situado nos Arrifes, Tiago Silva salienta que, para além desta produção, também as estufas passaram a merecer uma aposta.
“Dentro das estufas temos apostado no pimento. Naquilo a que chamamos o pimentão, o verde e o vermelho. Tem sido uma excelente aposta. Com as estufas que temos, conseguimos produzir à volta de 300 quilos de pimento por semana”, salienta.
Mas é na produção ao ar livre que Tiago Silva tem a grande fatia do negócio e com um foco muito concreto direcionado para a cenoura.
“Ao ar livre a nossa maior produção é de cenoura e este ano, de Janeiro a Setembro, conseguimos chegar às 37 toneladas. O objectivo no próximo ano passa por conseguirmos ultrapassar as 40 toneladas”, afirma.
Com a ajuda da esposa e do irmão e sem “funcionários a tempo inteiro”, Tiago Silva explica que anteriormente a produção era muito variada e que a família decidiu desistir da criação de novilhos de carne para se dedicar unicamente à produção hortícola.
“Antes tínhamos uma produção muito dispersa, fazíamos muita variedade e acabávamos por dispersar um bocadinho. Também tivemos alguns anos no mercado da carne, criávamos alguns novilhos para carne mas para conciliar as duas vidas não era fácil e então acabamos por desistir da carne e continuar com as hortícolas”, destacando que para além dos animais, também esta área de actividade “requer muita atenção”.
“As hortícolas também requerem esse cuidado especial todos os dias. O meu pai costuma dizer que “as hortaliças querem ver gente todos os dias” e realmente é verdade. Basta ficar um ou dois dias sem ver uma cultura para que quando regressamos já tenha aparecido uma doença ou uma praga. Isto é uma vida em que se tem de estar sempre em cima das coisas”, explica.
Tiago Silva que coloca a grande maioria dos seus produtos hortícolas nas grandes superfícies, para onde admite ter a sua produção mais direcionada, lamenta, já numa outra vertente, a falta de mão de obra existente para trabalhar na agricultura.
“A agricultura hoje está tão desenvolvida e já existe tanta ferramenta e tanta máquina para ajudar o produtor, mas também precisamos da mão de obra e não há. Vamos buscar pessoal que dizem que ganham mais em casa e por isso preferem lá ficar”, realça.
Este produtor hortícola destaca ainda que o agricultor já tem outro perfil e que desempenha um papel diferente do que há umas décadas atrás.
“O agricultor já não é aquele tipo de pessoa que não arranjava emprego e pegava num sacho e vinha para a terra. Já não é nada disso. Agora temos o processo de certificação que complica um bocado mas, ao fim ao cabo, essas práticas já existiam. As práticas de higiene, de controlo de qualidade, de rastreabilidade. Já fazíamos isso tudo”, destaca.
Sobre os tempos da primeira fase da pandemia de Covid-19, Tiago Silva admite que as suas vendas aumentaram durante esse período.
“Para minha surpresa as vendas para a Insco e para o Sol Mar subiram um bom bocado. Penso que as pessoas em casa dedicavam-se muito mais à cozinha e alimentavam-se mais e por incrível que pareça as vendas subiram (…) Podemos dizer que as nossas vendas subiram 20%. É uma boa subida, principalmente no caso específico da cenoura que subiu mesmo muito”, afirma.
Este produtor agrícola faz ainda questão de destacar o papel desempenhado pelos agricultores e por todos aqueles que fazem parte do sector primário, nesta época de pandemia. 
“Penso que o nosso papel durante a pandemia também foi muito importante ao garantir que as pessoas tivessem alimentos todos os dias e sempre frescos nas grandes superfícies. Durante a pandemia não subimos os preços (…) Falava-se muito no pessoal da linha de frente e referia-se sempre o pessoal da saúde. Concordo que são eles que lá estão no dia a dia a lidar com os doentes, mas por trás deles há um outro grande conjunto de pessoas que também estão nessa linha da frente. O sector primário, todo ele, está sempre na linha da frente e tudo começa no sector primário”, destaca este agricultor.
Relativamente aos apoios direcionados ao sector, Tiago Silva considera que de uma forma geral estão a ser “razoáveis ao nível de valores. No entanto, revela que existem algumas questões que poderiam ser revistas e melhoradas.
“No caso dos produtores de leite, agora no mês de Outubro e Novembro, eles recebem um adiantamento dos subsídios, porque tem muitas rendas para pagar. Nós, horticultores, também fazemos alguns terrenos de renda e era bom que também se lembrassem disso”, lembra.
Focando a conversa no futuro, Tiago Silva revela que tem um projecto “ambicioso em vista” que passa pela criação de uma marca própria para os seus produtos. Para além disso, garante que a grande aposta vai continuar a ser a cenoura e que também existe a intenção de “aumentar a área em estufa para começarmos a apostar na curgete, principalmente agora de inverno em que há muita procura”.
O aumento de produção nos próximos anos é igualmente outro dos seus grandes objectivos para o futuro.
“Gostava de crescer mais no sentido de aumentar as quantidades de produção e batalhar para que as importações reduzissem. Eu e os outros todos, porque sozinho não consigo fazer a diferença”, afirma.
A terminar, Tiago Silva deixa a garantia de que quer continuar a investir o seu trabalho neste sector e deixa um apelo à população. 
“Sinto-me com cada vez mais vontade de trabalhar porque noto que o consumo das pessoas tem aumentado e essas pessoas procuram cada vez mais o que é regional. Não tenham medo de consumir o que é regional porque nós, os produtores, conseguimos garantir a segurança alimentar”, refere este produtor hortícola.   
                                             
Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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