Nova fábrica vai laborar em Maio

Bebida Bananika quer ser a solução para 40 toneladas de banana por ano desperdiçadas na ilha Terceira

 Tudo começou em 2018 quando Leon Biermann, natural da Alemanha e a viver em Lisboa, “através de um amigo em comum”, acaba por conhecer o produtor de banana da ilha Terceira Tibério Barbeito e começam a trabalhar juntos. Contam que durante esta experiência laboral descobriram ter vários interesses similares – “nomeadamente uma forte paixão pela apicultura e agricultura” e as bases para “uma grande amizade estavam estabelecidas”.
Além da relação laboral, as conversas entre os dois seguiam muitas vezes o rumo dos “problemas e potencialidades da produção” de banana na ilha e o produtor foi partilhando com Leon Biermann um projecto que já tinha em mente “há alguns anos” e que, embora não sendo ainda nada concreto, implicava várias ideias “de como criar um produto com o desperdício desta fruta”. 
As conversas entre ambos foram-se desenvolvendo e quando Leon Biermann estava a fazer o seu Mestrado em Business, na Universidade Católica Portuguesa, decide fazer a sua tese em “New Business Oportunities” com esta intenção que passou a ser de ambos. Surgia assim o projecto Bananika. 
Mais tarde, contam, a incubadora de empresas StartUp Angra, em colaboração com a Beta-i, organizou o curso de empreendedorismo “Ready to Start Angra – StartUp Angra” e ambos decidiram que “era o timming perfeito para participar com o projecto da bebida alcoólica Bananika”. Durante o evento criaram um modelo de negócio. “O know-how do Tibério na produção e fermentação de banana, juntamente com os business-insights do Leon provenientes de muito conhecimento técnico na área de produção de bebidas alcoólicas”, permitiu convencer o Júri do evento e ganhar essa edição do “Ready to Start Angra”. 
Os empreendedores queriam muito avançar com o projecto e já com o modelo de negócio realizado, lançam-se numa campanha de crowdfunding [angariação de fundos], em Abril de 2019. Pediam mil euros e em menos de um mês conseguiram terminar a campanha angariando até quatro vezes mais do que a proposta inicial. 
Leon e Tibério reconhecem que esta campanha de crowdfunding “teve bastante sucesso”, e que basicamente ficou a dever-se a duas situações. A primeira “devido à comunidade na Ilha Terceira que já tinha conhecimento do produto através da participação no concurso da StartUp Angra e do pré-lançamento que fizemos”. Depois, porque o projecto “despertou o interesse de muitas outras pessoas que tomaram conhecimento do mesmo através de outros concursos em que participámos, mas também amigos e familiares que estão a apoiar-nos desde o início”, referem. 

O que é a bananika
Esta boa resposta deu-lhes alento para concretizar o projecto e avançar enquanto “solução para vários problemas ecológicos e económicos ligados à produção de banana”. A dupla de empreendedores explica que a Bananika “é uma bebida leve, gaseificada e com 5% de álcool. É um produto sustentável feito à base do excesso de produção da banana que, se não fosse aproveitado, seria considerado desperdício”. E este foi o foco do projecto já que na ilha Terceira existe “um grande problema de excesso de produção de banana e os produtores não têm encontrado soluções pertinentes para escoar o produto”. Por isso, todos os Verões, “com a subida das temperaturas, a produção sobe drasticamente e repete-se o ciclo de desperdício. A banana é uma fruta fresca, cujo tempo de conservação é bastante limitado, não se mantendo boa para consumo por muito tempo em comparação com outros bens acabados”. Para além disso, na produção de banana também se perdem várias bananas cujo calibre não corresponde às exigências do mercado.

O desenvolvimento
Já com o plano e negócios nas mãos, foi preciso chegar à bebida propriamente dita e essa processo já vinha sendo preparado com base “em pesquisa e experimentação”. Contam que durante o processo de desenvolvimento “foram testados vários ingredientes, misturas e texturas, até chegar a um resultado que tanto nós como o público gostassem”.
Para dar a conhecer o produto acabado fizeram um pré-lançamento junto de alguns consumidores. Para isso “foi elaborado um lote “craft” [artesanal] bem como outros lotes que fizemos para testar várias receitas”. A reacção de quem provou “foi muito positiva e ajudou-nos imenso a melhorar a nossa receita”. Os empreendedores têm vindo a produzir “lotes de 30 litros com recursos muito artesanais” mas isso vai mudar em breve uma vez que estão em fase de acabamento de uma fábrica para dar seguimento ao projecto. A campanha de crowdfunding pretendia exactamente isso: “construir a primeira planta (fábrica) de produção profissional que nos permite controlar todos os parâmetros de fermentação e produzir uma bebida estável e de alta qualidade. A planta de produção pode produzir cerca de 1200 litros de Bananika por mês ou cerca de 3.600 garrafas (0,33 l). A capacidade pode ser facilmente aumentada apenas adicionando mais tanques de fermentação. O custo para esta planta de produção é de 17.195 €”, pode ler-se no apelo lançado para a campanha.
Neste momento os dois empreendedores estão a trabalhar para montar a fábrica. Estão actualmente a receber material e esperam que o processo esteja concluído “previsivelmente” em Maio de 2021. Depois, é “trabalhar no produto final para comercializar”. 
Por enquanto, “o produto encontra-se numa fase “craft” pelo que teremos de fazer testes com a maquinaria montada para chegar ao produto que chegará a restaurantes e superfícies comerciais com uma qualidade e experiência garantida e um prazo de validade adequado” e por isso ainda não é possível adquirir e provar uma refrescante Bananika.

Internacionalização?
Quando a fábrica começar a laborar, Leon Biermann e Tibério Barbeito querem manter a Bananika nos Açores. A Região “será o nosso primeiro mercado e o mercado preferencial”, garantem. Mas acreditam que numa segunda fase “faz sentido” exportar a Bananika para Portugal continental. Já a aposta na internacionalização “depende de uma questão de escala e sustentabilidade” do projecto.
Até porque a pandemia veio trocar as voltas aos empreendedores e houve necessidade de “colocar os planos em atraso, nomeadamente na criação da empresa, compra de material para a fábrica e compra de bens materiais”. Mas confirmam que os planos acabaram por não sair muito atrasados e mantêm a expectativa de ter os equipamentos principais (depósito de maduração, depósito de maceração e fermentação, e máquina de enchimento semi-automática) e o equipamento de laboratório prontos para começar a laborar em Maio de 2021. 
Até lá vão continuar a produzir lotes de 30 litros de forma muito artesanal, mas com a maquinaria que têm já a ser montados vai permitir produzir “até 10 hectolitros por mês num ambiente controlado. No entanto, durante o planeamento da linha de produção nós já previmos um crescimento futuro, que nos permitirá expandir a produção com pouco investimento adicionando apenas mais tanques de fermentação”.

Objectivos conseguidos?
Leon e Tibério começaram esta projecto com a intenção de reduzir o desperdício de banana na ilha Terceira. Mas a ilha terá capacidade para abastecer a fábrica só com bananas que seriam descartadas ou terá de haver sempre produtores que produzam para a fábrica?
“Sim, o volume de desperdício de bananas, que estimamos rondar pelo menos 40 toneladas por ano na ilha de Terceira, e irá constituir a nossa principal matéria-prima, em vez de as bananas serem deitadas fora e sem hipótese de serem comercializadas”, garantem.
Os benefícios económicos são por isso notórios. “Para além de criar postos de trabalho na fábrica acreditamos que os agricultores podem encontrar na Bananika uma solução para alguns dos seus problemas de escoamento”, garantem os empreendedores. Isto porque, a maior parte das bananas é comercializada a nível local “e o mercado regional não é suficiente para escoar e absorver toda a produção da fruta” e aqui evidenciam “uma necessidade de arranjar alternativas sustentáveis no sector”. Devido a problemas logísticos, garantem que “os produtores locais não têm capacidade de exportar as bananas frescas – o que limita as hipóteses de se ligarem a mercados mais atractivos”.
Com todos estes propósitos e vontade de avançar não será difícil prever onde Leon Biermann e Tibério Barbeito vêem a Bananika daqui a cinco anos: “depois de ter provado o conceito no mercado português continental gostaríamos, junto com novos sócios e parceiros, exportar o nosso modelo também para outros países como a Espanha. Entre 8 a 20% das bananas produzidas no mundo, nunca saem do campo. Ainda há muitas bananas solitárias à espera de nós e do consumidor”, concluem.
                                           
 Carla Dias

 

Frutaçor vai disponibilizar
gelados de banana em breve

 Questionado sobre este projecto que vai avançando na ilha Terceira, Carlos Araújo, Presidente do Conselho de Administração da Frutaçor, Cooperativa sediada em Vila Franca do Campo, começa por afirmar que “esta é uma iniciativa interessante e que se algo do género surgisse do sector empresarial privado cá em São Miguel, a nossa Cooperativa colaboraria com toda a certeza”.
Carlos Araújo que admite um desperdício de aproximadamente 200 toneladas de banana de segunda qualidade na Cooperativa, explica que a Frutaçor tem vindo a tentar, ao longo dos tempos, fazer um melhor aproveitamento desta banana, tendo inclusivamente há “alguns anos” entrado em contacto com o projecto que existe em Portugal continental, “Fruta Feia”, que adquire fruta em excesso, mas que a resposta “nunca chegou”. O responsável realça ainda que o desperdício de fruta não é caso único da banana, acontecendo “com todo o tipo de fruta”.
Carlos Araújo lembra que a Universidade do Minho já desenvolveu alguns estudos nos Açores com o objectivo de aproveitar melhor a fruta, nomeadamente sobre a folha da planta do ananás, mas que até ao momento nenhum dos referidos estudos chegou a “qualquer conclusão”. Sobre o ananás, destaca também que a Frutaçor “já produz geleia com a casca do ananás”. 
O Presidente do Conselho de Administração desta Cooperativa revelou que “para já”, a Frutaçor não está a pensar enveredar por nenhum projecto de grandes dimensões para aproveitar o excesso de fruta até porque, como refere, “ainda temos de consolidar melhor o mercado da banana de primeira qualidade, para depois começarmos a pensar no que fazer com a restante. Esse tipo de iniciativa é muito dispendioso e neste momento não temos capacidade económica para avançar”. Carlos Araújo explica igualmente que para avançar para a produção de bebidas, como por exemplos os licores, a banana como não tem muito sumo, é um fruto difícil de trabalhar e que exigiria um custo grande em água ou até em adição de açúcar. Também a opção, já pensada, da secagem e desidratação da banana é um processo que acarreta um elevado investimento e para o qual seria necessária a compra de desidratadores industriais. 
Apesar disso, garante que já foram feitas e continuam a ser desenvolvidas algumas experiências para o aproveitamento da banana e de outras frutas, referindo o exemplo da transformação e produção de alguma polpa que é vendida para a Yoçor colocar nos seus iogurtes gregos. 
A terminar, Carlos Araújo avança que a Frutaçor irá, brevemente, avançar com a produção de alguns gelados nas suas instalações, precisamente com o “intuito de transformar e aproveitar alguma da fruta que temos”.  

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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