Ricardo Rodrigues preocupado com circulação de pessoas entre os concelhos de São Miguel devido à evolução da pandemia da Covid-19

(Correio dos Açores) Qual a análise que faz acerca da evolução da situação epidemiológica no concelho de Vila Franca do Campo?
(Ricardo Rodrigues) Se ligarmos só aos casos que Vila Franca do Campo tem, não posso dizer que seja uma matéria preocupante, embora todos nós saibamos que quer para fazer compras, quer para trabalhar, os vilafranquenses se deslocam na ilha de São Miguel com especial incidência em Ponta Delgada, onde existe o maior número de casos. Estou preocupado com a evolução da pandemia nos Açores, não ignorando que essa evolução decorre daquilo que tem sido a evolução ao nível de Portugal continental, da Europa e do mundo.
Esta segunda vaga tem trazido um maior número de preocupações, porquanto os números da segunda vaga são muito superiores aos números da primeira vaga. Analisando e vendo o que se passa na Europa e no mundo, não me custava a acreditar que mais cedo ou mais tarde o mesmo se viria a passar em São Miguel e nos Açores em geral. Estamos a assistir ao incremento do número de casos, Vila Franca do Campo não tem essa preocupação, embora – como disse – derivado das movimentações e da circulação das pessoas na ilha, a câmara municipal já tenha adoptado medidas atendendo a proteger não só os seus funcionários como também a população em geral.

O facto de a escola ter fechado em Vila Franca do Campo deixou o concelho mais descansado?
Sim. Nós tivemos em isolamento profilático quase duas dezenas de professores com apenas três casos activos nas escolas, mas não deixa de preocupar porque tendo três casos activos, esses três casos contactaram com muitas pessoas. As crianças circulam na escola, como é normal, e por isso contactaram com muitas pessoas.
Essa preocupação existiu no sentido de avaliar o que se estava a passar, e este não é um encerramento para o resto do período nem para o resto do ano, mas um compasso de espera para termos a noção do que se estava a passar na escola e para que a disseminação da pandemia não fosse incontrolável. 
Desde logo pedi, e fui ouvido, no sentido de nós, o conselho executivo e os pais de uma forma geral solicitaram o encerramento da escola para tranquilizar as famílias, os pais e os alunos para tomarmos conta e tomarmos pulso da situação e tomarmos melhores decisões com melhor garantia de tranquilidade e espero que a partir do dia 1 de Dezembro a escola possa reabrir. 

Na sua opinião, quais os focos de infecção que considera que possam vir a ser ou que são mais preocupantes neste momento?
Não tenho nenhuma varinha de condão que possa avaliar isso. Aquilo que é fundamental e mesmo indispensável são as medidas de protecção de cada pessoa em particular.
Não sabemos se apanhamos a infecção no supermercado ou no autocarro, em qualquer sítio é possível apanhar. Uma vez que os números não param de aumentar ou são de uma grandeza que nos preocupa, em qualquer sítio é possível apanhar o vírus porque ele circula com muita facilidade e só as medidas de protecção individual é que nos trazem alguma tranquilidade.
O que é sempre aconselhável é que as pessoas usem máscara, que desinfectem e lavem as mãos e que se mantenham a uma distância física necessária para não haver essa contaminação. Em particular sabemos que as reuniões familiares têm sido uma das áreas e essas, às vezes, são difíceis de evitar.

Ao nível da comunicação com a Autoridade Regional de Saúde, esta tem vindo a ser mais fácil?
Como disse, temos cinco casos em Vila Franca do Campo e por isso não tenho uma preocupação extrema para com a Autoridade de Saúde. Com o delegado de saúde de Vila Franca do Campo falo praticamente todos os dias, portanto não tenho nenhum problema de contacto com o delegado de saúde. (...) Quando publicamente falei, falei em representação da AMRAA, porque tinha contactado com os meus colegas e reflectia aquilo que os meus colegas diziam.

A informação referente ao número de infectados por freguesia já é mais acessível?
Penso que sim, que já passou a ser conhecido, o que facilita. Mas confesso que ao ter cinco casos em Vila Franca do Campo não estou preocupado em que freguesias é que são, porque são tão poucos que não me parece que haja um problema de uma freguesia em particular mesmo que os cinco casos fossem de uma freguesia apenas, são casos ainda diminutos e por isso não preciso desse número, mas quem tem 40 ou 50 casos positivos, e em Ponta Delgada onde há mais de 100 casos, é bom saber se uma freguesia não tem ou se a outra ao lado tem muitos casos.

De momento há alguma medida que considere urgente tomar?
Não vejo nada de urgente a não ser alertar com muita veemência para as medidas de protecção individual. A escola fechou, era um foco de preocupação mas deixou de o ser, vamos ver com a sua reabertura como é que as coisas se desenvolvem. Teremos a oportunidade de ir acompanhando a situação em concreto, e de tomar medidas, aconselhar ou dar parecer sobre as medidas que a nível regional têm sido tomadas.
(…) Confio que as autoridades estejam atentas e que tomem as medidas que são indispensáveis para a cautela da segurança e da saúde pública. Neste momento ainda não vi medidas tomadas para além do encerramento temporário das escolas, e estou confiante que as autoridades de saúde encontrarão as melhores soluções para, se for necessário, implementar outras medidas.
Houve uma medida tomada agora que considero muito importante, que é a de não haver a possibilidade de se voar para a Região sem ter um teste negativo, uma medida extraordinária que só foi possível de tomar porque estamos em estado de emergência, e num estado de emergência é possível aos governos tomar medidas excepcionais e que limitam a liberdade de circulação das pessoas, e assim o Governo deliberou que as pessoas agora só podem viajar se apresentarem às companhias aéreas o resultado negativo de um teste.
Isso é fantástico porque nos tranquiliza muito mais, porque grande parte dos casos positivos eram casos importados, e essa medida irá limitar bastante a entrada de pessoas com casos positivos. Parece-me uma medida fundamental.
Não sei se no futuro serão necessárias outras medidas, teremos que aguardar para ver, mas parece-me que a medida mais importante era esta, e com esta medida salvaguardamo-nos e muito.

Esta é uma situação que gera também outras preocupações, nomeadamente ao nível económico das famílias. Há mais famílias em dificuldades ou que peçam auxílio à autarquia neste período?
Ainda não tive essa percepção de imediato. Não tenho visto que o desemprego tenha aumentado por via desta pandemia, os casos que conhecíamos mantêm-se. Houve sim durante esta pandemia um aumento de algumas pessoas desempregadas, e isso reflectiu-se também na capacidade que a autarquia teve em admitir mais pessoas em programas ocupacionais para ocupações sazonais.
Vila Franca do Campo tem uma grande mão-de-obra na área da construção civil, e nessa área ainda não se sentiu nenhuma necessidade de socorro ou de auxílio extraordinário nestas últimas semanas ou meses.

Em relação ao tecido empresarial, considera que as medidas colocadas em prática são suficientes?
As medidas nunca são as suficientes. Houve uma quebra muito significativa em tudo o que tem a ver com a área do turismo, restauração e hotelaria, sabemos que é difícil para os empresários dessas áreas, e temos a convicção de que os orçamentos, quer a nível nacional, quer a nível regional, não são elásticos.
O dinheiro não estica, mas espero que o Governo Regional, seja ele qual for, esteja atento a estas situações e que possa ir adaptando as medidas.
As que foram adoptadas parecem ter gerado o efeito desejado, de não despedimento dos trabalhadores, e assim sendo mantém-se a economia a funcionar e o sustento familiar garantido.
Espero que o Governo Regional continue atento no sentido de não facilitar ou pelo menos apoiar sempre as empresas para que essas possam manter os seus empregados, porque a partir do momento que as empresas começarem a despedir começaremos todos a ter consequências muito nefastas e se não apoiarmos as empresas vamos ter que fazer funcionar outros mecanismos da segurança social que nos poderão sair ainda mais caros do que o apoio que é possível dar neste momento às várias pessoas.


 Joana Medeiros

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