No pequeno comércio o Natal aproxima-se sem grandes expectativas e o Dia das Montras divide opiniões entre os empresários

Uma cidade vazia e onde as pessoas parecem ter medo de entrar nas lojas é o que descrevem alguns dos empresários que têm os seus negócios localizados na baixa de Ponta Delgada, levando a crer que o Natal se aproxima sem grandes expectativas e que o Dia das Montras, este ano estendido durante quatro dias, apesar de ser uma “boa iniciativa”, poderá gerar alguma confusão.
Quem aprecia esta tradição assinalada anualmente no dia 8 de Dezembro e visita Ponta Delgada sabe que uma das lojas que mais forte aposta na animação em redor das suas montras é a Londrina, onde para além da música há também, frequentemente, outro tipo de animação para cativar quem por ali passa.
No entanto, tendo em conta as circunstâncias, conforme explica Tiago Sá, apesar de se manter a participação no Dia das Montras, a animação será – ao que tudo indica – adiada ou repensada de forma a evitar aglomerados de pessoas, até porque esta “não é a melhor opção para este ano”, diz ainda.
Ainda assim, mesmo acreditando que os aglomerados de pessoas não serão bons para ninguém, suspender as tradições associadas a este feriado não seria também a melhor opção, relembrando por outro lado que quem desejar ir à loja naquele dia se deverá sujeitar a esperar para que não sejam ultrapassados os limites de pessoas impostos, “partindo de cada um ter consciência” neste sentido.
No que ao Natal de uma forma geral diz respeito, o empresário refere que prefere pensar positivo em relação às vendas que se aproximam, esperando por isso que as pessoas “continuem a fazer as suas compras e ofertas”, mesmo que continuem também “com um bocadinho de receio”.
Ainda assim, sabe já que – embora existam sempre as “compras de última hora” – as pessoas irão comprar muito menos, isto tendo em conta o padrão que as vendas têm seguido até aqui. Isto é, apesar de nos últimos meses haver já “alguma melhoria” nas vendas após a reabertura da loja, “por esta altura já era suposto termos mais movimento”, diz.
A par disto, embora se tenham realizado alguns casamentos, comunhões e eventos semelhantes, “é tudo muito limitado para a família mais chegada e isso faz com que as pessoas não comprem roupa nova. As pessoas vão usando aquilo que já têm”, diz.
Por outro lado, nesta quadra natalícia, à semelhança do resto do ano, a família que está à frente deste negócio desde há muito tempo que opta por abrir as portas do estabelecimento todos os dias da semana, algo que lhes permite também fazer um maior número de vendas.
Tendo isto em conta, Tiago Sá deixa um incentivo para que os empresários da baixa de Ponta Delgada façam o mesmo, realçando que ao existirem mais lojas abertas se torna mais provável que sejam feitas mais compras em diferentes sectores.
“Faz a diferença, se não fizesse a diferença não abrimos. Na maior parte das vezes há domingos que chegam a ser muito melhor do que outros dias da semana, porque é quando as pessoas têm mais tempo para fazer as compras. Já uma pessoa que trabalhe das 09h00 às 06h00 não tem tempo para vir ao comércio tradicional e está tudo fechado”, refere.
Para melhorar o acesso ao comércio local, Tiago Sá refere que aos Sábados deveria haver isenção do pagamento dos parquímetros, tendo em conta que esta seria uma boa medida para “convidar as pessoas a virem ao comércio local”.
Na Riviera, na Rua Machado dos Santos, no último mês e meio tornou-se também um hábito manter a loja aberta para os clientes que desejem fazer as suas compras no fim-de-semana, algo que, segundo Mário Franco, permitiu que o negócio visse alguma melhora.
De acordo com este empresário, esta melhoria dever-se-á sobretudo ao facto de os açorianos já não se deslocarem com tanta frequência a Portugal continental ou a outros destinos com o propósito de fazer compras, aproveitando por isso para as fazerem no comércio local. Outra teoria será a de que as pessoas procuram antecipar um bocadinho as suas compras de Natal, tendo assim impactos positivos já no mês de Novembro.
“Penso que mesmo em relação aos centros comerciais, talvez as pessoas não queiram estar em ajuntamentos e por isso estão a preferir um pouco mais o comércio tradicional, mas isto pode não ser o panorama geral”, ressalva Mário Franco, garantindo que de momento a Riviera só pensa no futuro, adiantando que “se não existirem mais restrições em termos de horários de funcionamento e dos espaços penso que será um Natal equivalente ao ano passado”.
Em relação ao Dia das Montras, explica que este ano a Riviera não irá participar, tendo em conta o anúncio tardio relativamente às condicionantes deste ano e sobretudo por “não fazer sentido nesta altura fazer eventos para juntar muita gente”.
Por outro lado, Teresa Neves, gerente na loja Sayonara, acredita que dividir o conceito do Dia das Montras em vários dias irá ajudar a evitar a aglomeração de pessoas na baixa de Ponta Delgada, “mantendo viva a tradição e a essência de um evento tão significativo para o comércio tradicional da região”, diz ao nosso jornal.
Ainda assim, apesar de a loja em questão não participar no concurso do dia das montras, uma vez que essa não é uma necessidade sentida, admite que esta é “uma iniciativa interessante” por ser “uma característica importante do nosso dia 8 de Dezembro que enriquece um momento muito importante e suis generis do comércio tradicional da nossa Região”.
Em relação ao Natal de uma forma geral, a empresária salienta que “as expectativas não são obviamente positivas”, porém, resta “a esperança de que o público venha aderir ao comércio tradicional, não só pela consciência da importância de manter viva a economia da sua região e da consequente manutenção de postos de trabalho num período tão crítico como este mas também, devido ao facto de, tendo em conta esta situação que atravessamos, a maior parte das pessoas que costumavam deslocar-se ao continente para fazer as compras de Natal este ano, não se viram tão tentadas a isso, o que poderá trazer alguns benefícios para o comércio local”.
De qualquer das formas, Teresa Neves refere que é notável o facto de as pessoas se encontrarem este ano a fazer as suas compras de Natal mais cedo, algo que tem dado algum alento à Sayonara que viu “algum incremento na sua dinâmica comercial”, mesmo com uma retoma “gradual mas tímida”.
“A retoma das vendas foi gradual mas tímida, não foi positiva. Tivemos uma descida acentuada relativamente ao Verão passado, fruto também do decréscimo do turismo que costuma aderir muito aos nossos artigos”, refere, salientando ainda que no que diz respeito aos apoios que seriam úteis para os empresários, sobretudo nesta altura do ano, estão os “apoios financeiros a fundo perdido e a promoção de campanhas que incentivem o consumo no comércio tradicional”, conclui.
Também na Mondo Bambino, loja dedicada especialmente aos mais novos, se começa a assistir a compras feitas com maior antecedência, refere a gerente Ana Medeiros, embora as pessoas nunca tenham deixado de procurar a loja de forma a garantir entretenimento para as crianças através dos seus brinquedos preferidos.
De qualquer das formas, salienta a empresária, as perspectivas de negócio centram-se apenas “no dia-a-dia”. Isto é, se por um lado o mês de Novembro tem sido um mês “com algumas vendas acima do esperado”, o mês de Dezembro permanece uma incógnita devido à incerteza de novas medidas que possam vir a ser implementadas relativamente ao comércio local.
“Se Novembro não foi mau estamos à espera de um Dezembro ainda melhor, mas estamos no dia-a-dia a ver como será. Se conseguirmos estar abertos e se as coisas não piorarem a perspectiva será uma, mas é ainda cedo porque não sabemos o amanhã”, explica a gerente.
A pensar no Natal, época do ano em que aumentam as vendas desta loja dedicada à pequenada, Ana Medeiros refere ter existido “um reajustamento elaborado perante os fornecedores”, tendo em conta que os mais novos são também o mais exigente dos públicos, com desejos muito específicos, sendo esta uma situação que deixa “o comerciante entre a espada e a parede”.
Quanto ao Dia das Montras, apesar de ser habitual garantir o funcionamento desta loja nesse dia, Ana Medeiros refere que não foi ainda tomada uma decisão nesse sentido para este ano.
Ainda sem saber o que fazer quanto ao Dia das Montras está também Rosa Filipe, proprietária da Pink Glamour, uma vez que – de acordo com a sua experiência no sector – trabalhar as horas extras que este feriado obriga “não vai mudar nada no meu comércio”, sobretudo devido ao limite de pessoas que são permitidas no estabelecimento.
Parte desta sua opinião advém também do facto de ao longo de cinco anos ter funcionado com horários alargados, o que não lhe permitiu tirar nenhum do retorno desejado desta situação, chegando em vez disso à conclusão de que estava apenas “a tirar tempo” de si própria, da sua minha família e da sua casa “sem ter retorno”.
Em acréscimo, salienta que se o movimento nas ruas de Ponta Delgada continuar como está “o comércio tradicional irá morrer”, ansiando por isso pelo regresso do turismo e das pessoas, de uma forma geral.
Face à diminuição abrupta de clientes, Rosa Filipe viu-se na obrigação de reduzir bastante o volume de encomendas de novos produtos, referindo ainda que face a todas as circunstâncias não está “com grandes expectativas para o Natal”, deixando uma mensagem àqueles que “por comodismo” preferem fazer todas as suas compras nas grandes superfícies comerciais onde não existe distanciamento social e onde, muitas vezes, há aglomerados de pessoas.
“Critica-se os quatro dias afixados para o Dia das Montras, mas ninguém se preocupa que uma grande superfície comercial esteja aberta desde as 10h00 até às 22h00, cheia de pessoas. Por muito que o pequeno comerciante ou que o comércio tradicional faça para ajudar, para melhorar, para garantir os postos de trabalho e manter as portas abertas, nunca vai ser o suficiente para a população”, desabafa.
Neste sentido, e tendo em conta que as campanhas de Natal levadas a cabo pela Câmara de Comércio e Indústria são já habituais, atribuindo vales de compras para o comércio local que são sorteados após o Natal, resta ao pequeno comerciante fazer as promoções que achar indicadas para atrair mais clientes para a sua loja, tal como no caso da Pink Glamour, que prepara um mês inteiro de artigos em promoção para “ajudar a justificar o ano”. 
Na Casa Cristal, de uma forma geral, as quebras têm rondado os 30% a 40% desde a reabertura após a pandemia, no entanto em Setembro houve já uma tendência de “normalização” quando em comparação com valores de 2019 e Outubro foi um “mês razoável”, salienta Rodolfo Tavares.
No entanto, as medidas recentes que implementaram o encerramento das escolas com casos positivos activos de infecção pelo novo coronavírus trazem alguma preocupação, uma vez que “temos visto cada vez menos movimento na cidade e o fecho das escolas faz com que pelo menos metade do agregado fique em casa”, diz o gerente da empresa.
De qualquer das formas, com a menor circulação que existe em Ponta Delgada, refere que o Natal será “inferior ao do ano passado”, referindo que mesmo sabendo que o investimento neste Natal foi inferior, devido às quebras de negócio e à menor procura, os meses de Novembro e Dezembro são os responsáveis “por grande parte da facturação deste último trimestre”.
Vivendo também “no dia-a-dia”, o empresário salienta que a empresa está “a preparar-se para o pior” desde o fim do confinamento, e que quanto à quadra natalícia “não há muitas expectativas”, tal como reflecte o investimento feito até aqui.
Quanto ao Dia das Montras, salienta que as pessoas terão que se adaptar às regras, referindo apenas que esta é “uma boa medida para diminuir o fluxo de pessoas” que visitará Ponta Delgada em simultâneo.
Porém, para ajudar o comércio tradicional na aproximação do Natal, Rodolfo Tavares refere que seria importante introduzir algumas alterações nos parquímetros, nomeadamente a isenção de pagamento “a partir das 15h00 ou das 16h00”, tal como defende Tiago Sá, para que as pessoas possam visitar a baixa e o comércio “sem a preocupação de apanhar uma multa”, conclui.


Joana Medeiros
 

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