Associação Terra Verde tem anteprojecto para a construção de uma fábrica de transformação de beterraba

A Terra Verde está a implementar uma certificação para os seus associados. Esta certificação é uma garantia de qualidade?
É uma garantia não só da qualidade mas também de segurança alimentar. Os produtos irão chegar ao nosso consumidor com segurança. Muitos desses produtores já implementavam essas boas práticas. Esta certificação é o Global GAP que tem um primeiro passo que passa pelo Local GAP. Estes produtores que já estão certificados com o Local GAP vão, no próximo ano, tentar chegar ao Global GAP.

Essas certificações já são pedidas por muitos compradores?
A origem desta certificação foi por solicitação da Insco que exigiu que todos os seus fornecedores estivessem certificados. Eles pediam uma certificação de produção integrada só que nós, Associação, entendemos que a produção integrada, que é também uma certificação, vai deixar de existir porque já é obrigatório a nível europeu. Em vez dessa, dissemos à Insco que preferíamos que os nossos produtores, fizessem o Global Gap que até dá mais garantias caso queiram exportar para o estrangeiro. Esta é uma certificação mais rigorosa e que tem mais itens a ser observados. A nossa previsão aponta para que os produtores dos Açores, mas principalmente os de São Miguel, estejam certificados daqui a 5 anos. 

Quantos produtores certificados existem actualmente na vossa associação?
Neste momento são 8 que estão certificados e auditados. Existiam até mais 5 que iriam ser auditados este mês, mas os auditores não vieram cá por causa da situação da pandemia. Essas auditorias estão agora reagendadas para os primeiros dias de Fevereiro. 

Para o produtor que já tem a certificação do Local GAP o próximo passo seja o Global GAP. Existem muitos produtores em São Miguel que tenham capacidade para apostar na exportação?
O princípio da Terra Verde passa primeiro pela satisfação local da região. Importamos ainda em muita quantidade e temos muito para crescer. Para essa aposta na região é necessária uma planificação mais próxima do produtor porque eles ainda estão a fazer essa planificação de forma individual. Quando assim é as pessoas não têm conhecimento do que é que cada um está a produzir e isso pode levar a que todos semeiem o mesmo para colher ao mesmo tempo. Acontecem os excedentes e se, num certo mês, era necessária apenas uma tonelada de tomate e se apareceram 4 toneladas, as pessoas só vão consumir uma tonelada de tomate, independentemente dos preços serem mais baixos. Neste momento o trabalho da Terra Verde passa por fazer com que as pessoas entendam que as suas qualificações sejam mais colectivas do que propriamente individuais. Falando da exportação, estávamos a pensar apostar em 1 ou 2 produtos para enviar para Portugal Continental. Já colocamos inclusivamente batata lá para percebermos qual a resposta do público perante essas variedades de batata para depois podermos cultivar batata para colocar no continente. Vão-me dizer que o continente já tem uma produção muito significativa e que a nossa chegará lá, incluindo os transportes, com um custo maior. Sim, é verdade, mas a nossa batata é para um nicho de mercado e tem de ser um produto que faça a diferença. Temos de apostar na diferença e na qualidade.
 
Já referiu que os produtores agrícolas ainda não estão muito ligados entre si…
Criamos a associação há 8 anos e o nosso lema é “Dar Vida à Agricultura” e há 2 anos, criamos uma cooperativa que vem acrescentar valor à agricultura. Essa cooperativa foi criada mais como uma figura jurídica para que se criem as associações de produtores para cada cultura. Por exemplo, a batata cria uma associação, a batata doce outra, com um numero mais pequeno de pessoas, para que aí seja dado o pontapé de saída. Temos um problema grave para essa concretização que tem a ver com a falta de instalações. Este ano foi cedido um terreno para a construção de um pavilhão. Apenas São Miguel não tem uma infra estrutura desta natureza comunitária. Existindo essas instalações, é claro que as pessoas vão se juntar melhor e o produto passará a chegar ao consumidor mais bem acondicionado. Toda a nossa produção é vendida a partir do momento em que tenha também uma boa embalagem. Por exemplo, a batata doce muito pequena, que pensávamos que seria para queimar, a restauração agora não quer outra coisa. Ainda na batata doce, candidatamo-nos a um projecto da Ciência e Tecnologia e que é para transformar os excedentes da batata e não comercializável, em papel para embalagens biodegradáveis. 

Foi-vos atribuído um terreno para construção. Quando prevê que essas instalações estejam concluídas? 
Trata-se de um prédio com cerca e 5000 mil metros, ao lado do Iroa na Ribeira Grande. Agora temos de ter os pés bem assentes na terra. O novo Quadro Comunitário 2021 só irá iniciar-se, na melhor das hipóteses, a meados do ano, mas espero que até ao final de 2022 tenhamos o nosso pavilhão construído. A Terra Verde elaborou um anteprojecto que entregou ao anterior Secretário da Agricultura para que nos fosse concedido um apoio para o projecto de arquitectura e de especialidade para, depois de termos isso na mão, podermos fazer o orçamento e elaborar toda a documentação necessária para que, quando abra o Quadro Comunitário, sermos os primeiros a entregar esse projecto.
 
Muitos dos produtores agrícolas queixam-se que tem existido algum esquecimento a nível de apoios relativamente a este sector? Qual a sua visão sobre esta matéria?
Antes de responder a isso, deixe-me dizer que já temos alguma experiência e independentemente do caso do Governo ser de continuidade ou novo, temos um documento que vamos apresentar. É um documento que vamos entregar na próxima reunião que tivermos com o senhor Secretário da Agricultura e que tem lá as nossas opiniões, para os Açores e concretamente para São Miguel, sobre o desenvolvimento correcto da agricultura. Apontamos várias questões que vão desde seguros agrícolas, formação a um estímulo superior de apoios. Por exemplo, a horticultura, recebia 1300 euros por hectare o que é muito pouco. Se existisse um aumento neste tipo de apoios e noutros que estamos a projectar, isso iria trazer mais jovens para este sector e também poderia ser uma forma de a pecuária, que agora tem excesso de leite e tem de abater algumas vacas leiteiras, ter mais uma opção. Em vez de ir para a carne poderiam vir para a agricultura que é um espaço que tem muito para crescer. Obviamente que isso só poderá acontecer se o estimulo for melhor do que na pecuária. Relativamente aos apoios existentes, do POSEI, eles são muito diminutos. Aqueles outros apoios, dirigidos para situações como a pandemia, já enviamos também os prejuízos e a facturação, e até hoje nada. Relativamente ao excedente de batata, não temos actualmente instalações de frio para podermos armazená-las no pico da produção para as mesmas serem vendidas quando começasse a haver falhas e evitar a importação. Sobre isto também não obtivemos qualquer resposta. Seria bom conseguirmos entregar este caderno, este documento ao actual Secretário, antes do Plano e Orçamento, para que pudesse ser incluída alguma medida.  

Este é um sector que está em crescimento. Como perspectiva os próximos tempos na agricultura? 
Espero que a nossa produção avance no sentido de sermos autosufecientes na nossa alimentação. Vamos trabalhar nesse sentido. Numa outra vertente, já entregamos também um outro anteprojecto para a construção de uma fábrica de transformação da beterraba em açúcar, porque a indústria em si é importante para servir o produtor. Esta questão da beterraba iria ajudar porque estamos com muitas pragas por falta de rotação das culturas e, a beterraba, faria uma rotação muito grande para evitar isso. 

Essa indústria seria viável?
Seria viável.

Mesmo sabendo que a indústria que existia encerrou depois de muitos problemas?
Essa fábrica estava obsoleta.

Estamos a falar de um investimento de que valor?
Ainda não sabemos. Mas entregamos o anteprojecto dessa fábrica ao mesmo tempo que entregamos também do armazém. Só depois de termos essas infra estruturas todas em projecto é que poderemos definir o orçamento correcto e concreto.

Que reacção teve relativamente a esse anteprojecto?
A reacção do costume e de que este projecto não era viável. Questionei o senhor secretário para que ele me dissesse o que é que produzimos cá que seja viável. Todos os produtos chegam cá mais baratos do que aquilo que nós produzimos. Só me lembro de um, as alfaces por causa da cubicagem, com um preço mais baixo cám quando comparado com o continente. De resto mais nada. Convém não esquecer que a pecuária, e muito bem, tem fábricas muito bem equipadas em todas as ilhas. Nas pescas existem câmaras de frio em todas as ilhas. Estou plenamente de acordo, agora por que razão é que a agricultura também não pode ter essas estruturas? É um direito que também assiste aos produtores. Na questão dos seguros, o agricultor não pode estar sempre de ‘chapéu na mão’ a pedir apoios e tem direito a dormir descansado. Têm de ser seguros que nos sirvam e que não sejam para geada ou neve que são problemas que não temos. A seca, por exemplo, não é coberta e como não temos acesso à água, deveria estar contemplada nos seguros. 

Este é um sector que já começa a ver entrar muitos jovens?
Esse é um problema que estamos a combater. Temos alguns jovens, no escalão etário entre os 30 e os 45 anos, mas a grande maioria tem mais de 45 anos de idade. Está-nos a faltar a formação. Só criticamos quando temos alternativa e quando falamos de formação, apresentamos um documento em 2014, que era o plano de formação. Esse plano baseava-se na premissa de que os alunos quando acabassem o 6º ano de escolaridade tomariam a opção de enveredar por um curso na agricultura ou na pecuária, seguindo o ensino regular até ao 12º ano. Isto não significaria que a pessoa ficasse só com o 9º ou com o 12º ano. No fundo, como existiam com as escolas comerciais. O objectivo é que as pessoas tenham competência para entrar no mercado de trabalho e hoje em dia, falta-nos muita mão de obra qualificada. Antes aprendia-se de pais para filhos e hoje em dia isso já não acontece. 

Já falou no princípio desta entrevista na questão da nossa sustentabilidade de produção. O que nos falta para chegarmos a esse patamar?
Para começar falta-nos aquele equipamento de frio que já referi. Porque não é possível produzir sem termos as melhores condições de armazenagem. A formação também entra nesta equação, porque se não tivermos trabalhadores não podemos cultivar os nossos produtos. Outra questão tem a ver com os apoios e com os incentivos para que as pessoas possam vir para a agricultura. 

De quanto tempo precisamos para atingir esse objectivo de sermos autossuficientes?
 As coisas correndo de boa feição, julgo que em 5 anos poderemos ser autossustentáveis e ter até possibilidade de, em 1 ou 2 produtos, mandar para o continente e quiçá até para a nossa emigração da saudade. Agora, temos de mandar produtos com qualidade para esses locais. Essa qualidade tem custos muito elevados por causa do número muito grande de pragas com que nos debatemos. Na minha opinião, tem de haver um ataque na questão dos fitofármacos para colocar a população destas pragas a níveis que os auxiliares possam fazer esse combate.    

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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