Gustavo Tato Borges, novo coordenador regional de Saúde Pública

“Há uma margem para podermos trabalhar e ter um impacto positivo na pandemia”

Como surgiu este desafio, de passar do norte do país para os Açores, dois cenários completamente diferentes?
Gustavo Tato Borges - O convite surgiu de uma forma muito inesperada. Não tenho nenhuma ligação partidária, apenas tenho pessoas conhecidas e amigas deste Governo, a quem foi pedido um nome de um médico de saúde pública que pudesse vir desempenhar estas funções. Lançaram-me o desafio. Trabalhava na minha unidade de saúde pública, no norte do país. Considerei que o desafio era algo a que eu não podia dizer que não. Esta oportunidade de ajudar os açorianos, de contribuir com a minha visão de saúde pública, de uma forma abrangente. Também quero ajudar quem está aqui nos serviços a ter um impacto cada vez maior na vida dos açorianos. Quando fui contactado pelo membro do novo Governo Regional dos Açores fui extremamente bem recebido, quase que senti um abraço emocional de “vem, vamos trabalhar em conjunto”. Foi um convite irrecusável. 

  O seu cargo será coordenador regional de saúde pública. Assumirá também a Autoridade Regional de Saúde? O que está em cima da mesa?
É algo que está a ser agora conversado. A ideia é que, depois, possa ser criada, a médio prazo, uma autoridade de saúde pública independente e técnica. Trata-se de ajudar o governo a decidir quais as melhores áreas em que se deve actuar na defesa da saúde dos açorianos. Relativamente ao enfermeiro Tiago Lopes, anterior Autoridade de Saúde Regional, não o conheço pessoalmente. Acho que desenvolveu o melhor trabalho que conseguia e podia e isso tornou-se relevante. Foi um bom trabalho que fez. Espero, agora, construir em cima daquilo que ele tinha e da equipa que deixou ficar, que eu já tive a oportunidade de conhecer e que me parece muito válida. Agora, com uns ajustes (quem lidera traz sempre algo de novo) quero tornar a vida mais fácil para os açorianos, para os profissionais de saúde, para o gabinete de crise, que oficialmente não existe, mas na prática já existe. Iremos trabalhar, todos, em conjunto.

Considera que a experiência que acumulou até agora o vai ajudar?
Saí de um agrupamento de centros de saúde que tinha dois concelhos que, no conjunto, tinham perto de cinco mil casos de Covid. Nos últimos dois meses, acumulou 80% de todos os casos da pandemia por inteiro. Foi preciso pensar em linhas de trabalho, em divisão de tarefas, em parcerias com as câmaras municipais, por exemplo, para nos apoiarem. Foi necessário centralizar a informação, para que não haja pessoas a fazer o mesmo trabalho, duas e três vezes. Tornar o que era a minha vida enquanto médico de saúde pública e delegado de saúde local mais fácil. Eu não era o coordenador na minha unidade, mas era um dos seus braços direitos e o que aprendi, quer com ele, quer com a ligação com as instituições, quer com o trabalho no dia-a-dia com a equipa… Penso que posso trazer coisas boas para esta organização regional e ajudar a tornar isto o mais eficiente e organizado possível. É esta experiência de muitos casos e de muito trabalho que me pode vir a ajudar aqui e, talvez, contribuir para que possamos normalizar, tornar igualitárias situações ao longo, por exemplo, das escolas, dos lares, das intervenções. Isto para que os meus colegas no local possam fazer isto com mais confiança.

Trata-se de uniformizar a acção, de definir critérios claros, por exemplo, nas escolas? Saber quando fechar uma escola ou quando simplesmente isolar uma turma?
Exactamente. Criar, não guiões fechados, porque, depois, há particularidades de cada um dos locais que pode ser necessário adaptar, mas perceber de uma forma muito mais rápida e mais calma que, se há uma criança do primeiro ciclo que testou positivo, pois então a turma vem para casa, mas não precisa de vir a escola toda, se a escola toda teve mecanismos de protecção. A questão dos lares: Perceber a vida dentro do lar e a maneira como estão organizados, para determinarmos se vamos alargar o rastreio a todos ou não. Criando estes guiões de actuação, poderemos ajudá-los a fazer isto da melhor forma, apoiando-nos também muito na Linha Saúde Açores, que acho que é uma boa iniciativa. Permite, ao mesmo tempo, dar indicações às pessoas, de uma forma muito concreta, se são contacto de alto risco ou não e enviar essa pré-avaliação para o delegado de saúde, de uma forma rápida e organizada, para que ele possa, então, tomar a rédea da avaliação final. Há aqui vários contextos que são muito interessantes e há alguns pormenores que se podem afinar com estes guiões, com estes manuais de procedimentos, que ajudam quem está no terreno.

Esses pormenores fazem muita diferença?
Fazem! Porque o colega sabe, imediatamente, o que é que tem de fazer e a escola ou o local alvo de intervenção já está à espera que vai ser assim. Os pais, os trabalhadores dos lares, já não ficam com dúvidas sobre se, de facto, vai haver uma decisão, se todos vão para casa... Se uma escola teve uma criança positiva e foi a escola toda para casa e depois, na escola vizinha, só foi aquela turma, fica sempre a dúvida de quem vai ou não vai. Criando uma uniformização, trabalhando a nível regional e local, conseguiremos acalmar a população no sentido de poder uniformizar.

Quão preocupante é a nossa situação, no fundo, e em que fase nos encontramos? Ainda é possível seguir o fio condutor?
O crescimento é alarmante e precisamos de começar a perceber que há certas mudanças de comportamento que as pessoas devem ter. Falámos já de uma área muito importante, que é a da comunicação.

A Ordem dos Enfermeiros nos Açores disse que esse seria um dos seus desafios, comunicar melhor…
É, de facto, algo que eu também gosto de fazer: Comunicar. Quero trabalhar nessa área, para que as pessoas, o cidadão açoriano, saibam mesmo que “se eu fizer isto assim, o meu risco de ser infectado é menor”. Ou, se eu conviver com a minha sogra ou os meus tios que vêm cá a casa - como eu já percebi que também as pessoas nos Açores gostam de conviver bastante - se eu for ao bar e estiver sem máscara muito tempo ao pé dos meus amigos, são situações de risco e posso ser infetacdo. Temos de trabalhar esta comunicação.

Estamos a falar de quê? Numa primeira fase, realizaram-se conferências de imprensa diárias. Será um regresso a isso ou vamos ter outro tipo de comunicação?
Estamos a falar de outro tipo de comunicação. Podemos ter conferências de imprensa, sim, sem dúvida nenhuma, em que se possa abordar o tema. Não necessariamente ler o boletim e os números, porque as pessoas já estão cansadas e, se quiserem, no nosso site é possível consultá-los em pormenor. Estamos a falar de uma estratégia de comunicação que possa passar na televisão, com spots e também chegar aos mais novos, pelo Facebook e Instagram. Que possa alertar para pequenas coisas. Temos de estar a dois metros dos outros. Não andamos com fita métrica, como é que sabemos que são dois metros? Damos três passos atrás. As pessoas têm de perceber exactamente o que podem fazer. Temos de manter o distanciamento físico e usar máscara e depois em casa tudo bem, mas é com as pessoas que moram connosco e não com toda a gente que nos pode vir visitar… Esse plano de comunicação será elaborado para chegarmos aos cidadãos. Voltando à situação epidemiológica, é alarmante, preocupante, está a crescer, gostaríamos que os números estivessem a diminuir. A grande maioria dos casos que têm chegado estão já identificados em cadeias de transmissão e são pessoas que já estariam debaixo de vigilância. Aparecem ainda alguns que não têm ligação conhecida e estão a ser estudados. Aqui também podemos discutir se vale a pena fazer uma intervenção com testes rápidos em certas zonas.

É algo que está a ser considerado?
Pode estar em cima da mesa, numa fase inicial, se os números continuarem com crescimento. Isto vai ser tudo analisado com a equipa.

Estarmos em ilhas, relativamente pequenas, é uma vantagem ou uma desvantagem?
Serem ilhas relativamente pequenas é uma vantagem. Temos uma população mais controlada em termos de movimentação e à partida consegue-se fazer um trabalho de maior proximidade e mais individualizado, quase. O facto de serem nove e com as diferenças que cada uma delas tem, torna o trabalho mais difícil. Não é a mesma coisa falar da Terceira ou de São Miguel, ou falar do Corvo ou do Faial. Até os próprios recursos humanos são diferentes. É outra área em que vai ser preciso tentar uniformizar a forma de actuação das autoridades de saúde e dos médicos de família e tentar perceber como é que nos podemos dividir. Temos de falar com as administrações para ver se vale a pena ter unidades Covid e não Covid, ter por exemplo um callcenter que possa acompanhar as pessoas que estão em isolamento em casa, libertando os delegados de saúde para fazer as investigações epidemiológicas. Há várias opções e temos é de conversar com toda a gente que participa deste trabalho.

A insularidade significa que as pessoas chegam cá maioritariamente de avião. Numa primeira fase tivemos quarentenas de 14 dias, que foram consideradas inconstitucionais. Agora o modelo de rastreio a quem chega parece estabilizado. Quer fazer alterações?
Acho que a ideia de ter um teste negativo ao entrar nos Açores é fundamental para conseguirmos ter um pouco de controlo daquilo que está fora de nós. É importante manter esses testes de rastreio. O teste do sexto dia será também para conservar. Encontraram-se já alguns positivos dessa forma. Vamos alargar essa necessidade também a quem vem em viagens de barco. Quem vier de barco, vai também fazer o teste. Claro que nada disto invalida que as pessoas tenham de ter os cuidados todos: Utilização de máscara, distanciamento físico, higienização das mãos. Só assim vamos conseguir continuar a minimizar o impacto. 

Há quem argumente que o teste feito 72 horas antes de chegar ao arquipélago não é tão eficaz porque, naqueles três dias, a pessoa pode ser infectada. Como vê essa questão?
Um teste é uma fotografia instantânea. Hoje fiz o teste, deu negativo, muito bem… Neste momento não tenho quantidade de vírus suficiente para ser detectado. Mas, nos 14 dias anteriores, posso ter tido contacto e estar ainda a desenvolver o vírus. Não são as 72 horas depois, é toda a vida que a pessoa tem no espaço antes e depois do teste. Se eu sei que vou fazer uma viagem para um local que me exige um teste negativo, eu, como cidadão, devo-me resguardar, para que, fazendo o teste e vindo negativo, eu tenha mais segurança. Aproxima-se agora o Natal e vamos ter muitos açorianos que vão regressar. O que será importante é que eles acautelem aquela última semana e meia antes de fazer o teste, minimizem ao máximo os seus contactos, para que aquele teste tenha mais valor. 

Essa mensagem é essencial, de que as pessoas têm de continuar a ter cuidado, independentemente das estratégias que estejam no terreno?
É a base da comunicação que temos de ter com a população. Perceber a importância da máscara, da sua utilização correcta. Não é difícil andarmos nas ruas e vermos pessoas com a máscara mais para baixo ou mais para cima ou sem máscara mesmo. Até mesmo em alguns locais fechados vemos pessoas com erros na utilização da máscara. É preciso voltar a batalhar por isto e mostrar às pessoas que a utilização da máscara, o distanciamento físico e a higienização das mãos são as únicas medidas que nós temos, que cada um de nós pode tomar voluntariamente, e que podem impedir que sejam tomadas medidas drásticas como aquelas que ouvimos o Governo da República tomar relativamente aos fins-de-semana prolongados. 

Já se começa a falar em vacinação. O que se pode dizer quanto aos Açores? Pretendem definir um plano?
Vai ter de ser definido um plano de vacinação nas ilhas dos Açores. A primeira coisa a fazer é definir quem são os grupos de risco. Tradicionalmente, são os profissionais de saúde, os idosos, os doentes crónicos. Depois, é pensar numa forma de distribuição. Vamos tentar aproveitar a rede de frio que já existe e a distribuição das vacinas que está no terreno (há um grupo de trabalho que já faz isso com a vacina da gripe), adaptando às especificidades da própria vacina que vai ser disponibilizada para nós. É uma questão sobre a qual nos vamos debruçar com um pouco mais de calma, para percebermos se vamos ser nós, Governo Regional, a decidir de uma forma mais autónoma e, se assim for, qual será a vacina mais adequada. Até porque temos uma vacina que tem de ser armazenada a menos de 70 graus, o que, logisticamente, é um pesadelo, e temos outras vacinas que, se calhar, não dão tanta defesa, mas que é muito mais fácil transportá-las e vacinar as pessoas. Não temos nenhuma decisão sobre a vacina para já. Vamos ter. 

Qual é a sua maior preocupação?
São duas. Uma é o facto de eu vir de fora e ser um leigo sobre os Açores, apesar de tudo, e não ser capaz de compreender as particularidades. Demorar a fazer isso. Por isso, vou-me apoiar em todos os açorianos que estão dentro do Governo, no gabinete de crise e na secretaria regional da Saúde, de maneira a trabalharmos em conjunto. Deixá-los à vontade para que me possam dizer: “Ó Doutor, não vá por aí! Não é bem assim”. Por onde passei, sempre tive uma relação muito próxima com os meus colaboradores. Médicos, enfermeiros, técnicos. Quero manter isso. Vou trabalhar para compreender os Açores o mais depressa possível, até porque tenho amigos açorianos, que me dizem que isto é um paraíso e que tenho e tomar bem conta disto. A segunda preocupação é a falta de recursos humanos em termos de profissionais de saúde. Daquilo que consigo perceber, especialmente na minha área, da Saúde Pública, temos muita falta de recursos humanos e é necessário criar condições para atrair pessoas. Os recursos humanos, o cansaço físico que eu noto na equipa de risco, são uma preocupação minha.

Foi referido que traria outros dois profissionais para a sua equipa. Pode adiantar mais informação?
Não posso avançar nomes, por respeito, mas já tenho um colega que está confirmado e que virá, que ficará mais ligado com a ilha de São Miguel, eu ficarei mais sedeado na Terceira. Também estou a conversar com dois outros médicos. Sei que há profissionais de valor aqui e há um enfermeiro que já me foi falado, que também integrará esta equipa de colaboradores mais próximos, que ficará sedeado na ilha de São Miguel. Vamos, em conjunto, tentar trabalhar mais. Não virá muito mais gente. O grosso do trabalho é com a prata da casa e é essa que eu quero fazer brilhar o máximo possível.

Tiago Lopes chegou a afirmar, numa entrevista ao DI, que o maior receio durante a gestão da primeira fase da pandemia era que o Serviço Regional de Saúde ficasse sobrecarregado e colapsasse. Esse receio mantém-se agora? 
Se for ver o exemplo do continente, que tem um Serviço Nacional de Saúde bastante robusto, especialmente na zona de Lisboa e do Norte, eles estão a passar dificuldades, com o aumento de casos. Numa escala mais pequena, isso pode acontecer cá. A questão dos recursos humanos é premente, porque, se não tivermos profissionais em número suficiente para detectar os casos, acompanhá-los e evitar que as pessoas que são mais frágeis fiquem doentes e depois vão ocupar camas nos hospitais, essa falta de recursos humanos vai levar a uma sobrecarga muito grande do Serviço Regional de Saúde. Essa sobrecarga pode conduzir a situações dramáticas, como vimos noutros países europeus. Penso que ainda estamos numa fase em que isso não é uma realidade próxima. Há uma margem para nós podermos trabalhar e ter um impacto positivo na pandemia e evitar que haja essa sobrecarga. Os números da área hospitalar não são tão preocupantes ainda. Agora, continuam a aparecer casos e a nossa função, enquanto grupo de crise Covid e cuidados de saúde primários, delegados de saúde, vai ser exactamente parar este aparecimento de casos e manter ao mínimo a sobrecarga, depois, nos hospitais, para evitar esse colapso.

De que forma vão as pessoas sentir nas suas vidas esta mudança de responsáveis e estratégias?
Penso que a nossa estratégia vai ser tentar sermos o mais cirúrgicos possível, capacitando as pessoas para tomarem as melhores decisões. Em vez de termos medidas opressivas de fechar isto e fechar aquilo (é claro que, em certos momentos, podemos ter de as tomar) a verdade é que o que pretendemos é galvanizar o conhecimento das pessoas sobre estas situações, para que elas possam ser o primeiro agente de mudança. Acreditamos que esta mudança, esta nova equipa que vai estar e esta direcção, também na perspectiva do novo governo, é muito de dar às pessoas capacidade para poderem decidir melhor por si. Acho que vai ser uma mudança positiva e vai trazer uma alteração para uma maior segurança (é o que eu espero que aconteça), sem que o cidadão relaxe ao ponto de voltar a correr riscos desnecessários. Isto, até conseguirmos ter a vacina, que nos possa vir ajudar muito. 
                                   

Helena Fagundes DI/CA

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Autor: CA

Categorias: Regional

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